Jogos Escolares: entre a festa do desporto e os desafios da escola moçambicana

Por: Adelino Inacio Assane

Desde sábado, a província  Inhambane acolhe o Festival de Jogos Escolares, um dos momentos de maior expressão do desporto escolar em Moçambique. O evento reúne estudantes de diferentes pontos do país, colocando em evidência não apenas o talento, a disciplina e o espírito de competição da juventude, mas também a importância da escola enquanto espaço de formação integral. Com efeito, mais do que uma competição desportiva, os Jogos Escolares constituem uma oportunidade para reafirmarmos que educar não significa apenas ensinar a ler, escrever, calcular ou dominar determinados conteúdos científicos. Educar significa, igualmente, formar o corpo, desenvolver a criatividade, cultivar valores, aprender a conviver, respeitar regras, trabalhar em equipa e preparar o indivíduo para participar activamente na sociedade.

Neste sentido, a realização do Festival de Jogos Escolares deve ser saudada e valorizada. Num contexto em que as crianças e os jovens enfrentam múltiplos desafios sociais, tecnológicos e culturais, promover a prática desportiva e as actividades lúdicas representa uma estratégia educativa de grande relevância. O desporto ensina a ganhar, mas também ensina a perder; estimula a perseverança, mas igualmente a humildade; desenvolve a autonomia, mas exige responsabilidade colectiva. Por conseguinte, quando uma criança participa numa actividade desportiva, não está simplesmente a correr, saltar, lançar ou disputar uma partida. Está a aprender a estabelecer relações com os outros, a respeitar normas, a gerir emoções, a lidar com a frustração e a reconhecer que o sucesso individual muitas vezes depende da cooperação com os demais.

Todavia, se os Jogos Escolares nos convidam à celebração, também nos devem conduzir à reflexão. É necessário perguntar: em que condições as nossas escolas estão a promover, no quotidiano, a prática do desporto escolar? Será que todas as instituições educativas possuem campos, materiais e equipamentos adequados para que os alunos pratiquem regularmente actividades físicas? E, sobretudo, que lugar ocupa a Educação Física na organização curricular e na cultura das nossas escolas?

Estas perguntas são particularmente importantes porque existe, em muitas escolas, uma tendência para considerar a Educação Física como uma disciplina secundária, frequentemente subordinada às chamadas disciplinas de maior peso académico. Em determinadas situações, a Educação Física é a primeira actividade a ser sacrificada quando faltam salas, professores, materiais ou quando a escola precisa de reorganizar o seu horário. Por vezes, a própria comunidade escolar olha para esta disciplina como um simples espaço de recreação, ignorando a sua dimensão pedagógica, científica e formativa. Entretanto, esta visão precisa de ser ultrapassada.

Na realidade, a Educação Física desempenha um papel insubstituível no desenvolvimento integral do educando. O corpo não é um elemento separado da aprendizagem, é parte constitutiva do sujeito que aprende. O desenvolvimento motor relaciona-se com aspectos cognitivos, afectivos e sociais. Uma escola que educa somente a dimensão intelectual corre o risco de produzir uma formação fragmentada. Por isso, a Educação Física deve ser entendida como componente essencial de uma educação de qualidade e não como uma actividade complementar destinada a preencher os tempos livres dos alunos.

Além disso, a prática regular de actividades físicas e lúdicas pode contribuir para a construção de ambientes escolares mais saudáveis, inclusivos e participativos. O jogo, enquanto instrumento pedagógico, permite desenvolver competências que dificilmente se constroem apenas através da exposição oral ou da transmissão de conteúdos. Através dele, a criança experimenta, cria, toma decisões, resolve problemas e aprende com os outros. Daí que o investimento em actividades lúdicas não deva ser interpretado como uma diminuição da seriedade do processo educativo, pelo contrário, significa reconhecer que existem múltiplas formas de aprender e de desenvolver capacidades humanas.

Entretanto, quando observamos as condições concretas de muitas das nossas escolas, encontramos uma realidade que merece atenção. Há instituições onde faltam campos apropriados, balizas, redes, bolas, equipamentos de atletismo, espaços cobertos e outros recursos básicos para a prática desportiva. Em algumas escolas, a Educação Física realiza-se em espaços improvisados, muitas vezes inadequados para garantir a segurança e a qualidade das actividades. Noutros casos, o número de alunos por turma e as limitações de infra-estruturas tornam difícil organizar actividades que permitam a participação efectiva de todos. Assim, torna-se evidente que não podemos exigir resultados expressivos no desporto escolar sem criar condições mínimas para que ele aconteça de forma regular.

Por outro lado, importa reconhecer que a falta de recursos não pode constituir uma razão absoluta para a ausência de actividades físicas e lúdicas. A criatividade pedagógica permite desenvolver muitas actividades com recursos simples e disponíveis localmente. Jogos tradicionais, actividades recreativas, atletismo adaptado, caminhadas, danças, ginástica e diversas modalidades podem ser organizados com baixos custos, desde que exista planificação, acompanhamento pedagógico e vontade institucional. Todavia, esta capacidade de improvisação não deve servir para naturalizar a precariedade. Uma coisa é utilizar a criatividade como estratégia pedagógica, outra é transformar a falta de condições numa característica permanente da escola.

Neste quadro, os Jogos Escolares deveriam ser entendidos não apenas como um evento periódico, mas como o culminar de um processo que começa todos os dias nas escolas. Não faz sentido celebrar talentos desportivos durante um festival nacional se, durante grande parte do ano, milhares de crianças não dispõem de oportunidades para praticar desporto. O verdadeiro sucesso dos Jogos Escolares não deve ser medido apenas pelo número de modalidades disputadas, medalhas conquistadas ou recordes alcançados, mas também pela capacidade do sistema educativo de democratizar o acesso à prática desportiva.

Consequentemente, é necessário repensar a política de investimento no desporto escolar. A construção e manutenção de espaços desportivos, a disponibilização de equipamentos, a formação contínua dos professores de Educação Física, a organização regular de competições inter-escolares e a valorização das actividades recreativas devem fazer parte das prioridades de desenvolvimento do sector da educação. Mais do que investir somente na fase final das competições, é fundamental criar uma cadeia de desenvolvimento que permita identificar talentos, estimular a participação massiva e garantir oportunidades para rapazes e raparigas, incluindo alunos com deficiência.

De igual modo, é necessário fortalecer a articulação entre escolas, comunidades, governos locais, clubes desportivos, universidades e outras instituições. A escola não pode carregar sozinha toda a responsabilidade pelo desenvolvimento desportivo dos jovens. Existem recursos humanos, infra-estruturas e conhecimentos dispersos pela sociedade que podem ser mobilizados para apoiar o desporto escolar. As universidades, por exemplo, podem desempenhar um papel relevante na formação de professores, investigação sobre actividade física e desenvolvimento de metodologias adequadas aos diferentes contextos escolares.

Por conseguinte, o Festival de Jogos Escolares que decorre em Inhambane deve ser visto simultaneamente como celebração e como espelho. Celebra o talento, a energia e a esperança dos nossos jovens, mas também reflecte as condições que o país oferece para que esse talento possa desenvolver-se. Cada atleta que entra em campo representa uma escola, uma comunidade e uma possibilidade de futuro. Mas, por detrás de cada atleta, existe uma realidade escolar que precisa de ser interrogada: houve espaço para treinar? Houve professor para orientar? Houve equipamento? Houve tempo curricular? Houve apoio da família e da comunidade?

Finalmente, a grande lição dos Jogos Escolares talvez seja a necessidade de compreendermos que o desporto não está fora da educação. Ele é educação. O jogo não é o oposto da aprendizagem, pode ser uma das suas formas mais poderosas. A Educação Física não deve ser vista como uma disciplina de menor importância, porque educar o corpo, as emoções, a cooperação e a disciplina é também educar para a vida.

Assim, enquanto Inhambane vive a festa do desporto escolar, seria importante que o país aproveitasse este momento para olhar para além das medalhas e dos resultados. É necessário perguntar que escola queremos construir e que lugar pretendemos reservar ao corpo, ao movimento, ao jogo e ao desporto nessa escola. Se queremos jovens mais saudáveis, disciplinados, criativos, resilientes e capazes de trabalhar em equipa, então precisamos de escolas onde correr, jogar, brincar, competir e cooperar sejam experiências educativas quotidianas. Os Jogos Escolares devem, por isso, deixar de ser apenas um acontecimento que ocorre de tempos em tempos e transformar-se numa expressão visível de uma política permanente de valorização da Educação Física, do desporto escolar e das actividades lúdicas. Só assim a festa de Inhambane poderá transcender os dias da competição e converter-se numa verdadeira agenda para a construção de uma escola moçambicana mais integral, inclusiva e humanizadora.

                                                                                                                      Até breve!!

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