Kóxukhuro denuncia que a polícia matou 38 pessoas em Mogovolas

Nampula (IKWELI) – A Kóxukhuro, uma organização vocacionada na promoção e defesa dos direitos humanos, denunciou nesta segunda-feira (5) dados inéditos sobre a morte de garimpeiros ocorrida na localidade de Iuluti, no distrito de Mogovolas, a sul de Nampula.

Gamito dos Santos, director executivo da Kóxukhuro, explicou que o trabalho de campo incluiu contactos com vítimas sobreviventes, familiares dos cidadãos mortos, líderes comunitários e outros intervenientes locais, o que permitiu reunir testemunhos, informações factuais e elementos relevantes para o esclarecimento dos factos, num contexto marcado por silêncio, medo e versões contraditórias.

Dos Santos assegurou ainda que o recente pronunciamento da polícia sobre a situação de Mogovolas constitui apenas uma narrativa construída para desviar a opinião pública.

“A PRM efectuou uma chacina no distrito de Mogovolas no regulado de Maraca, onde matou cerca de 38 pessoas até então confirmadas. No entanto, a polícia veio a público dizer que morreram apenas seis pessoas, incluindo um membro da PRM. O que nós estamos a dizer é que essa informação não corresponde à verdade. Também não é verdade que as pessoas mortas estivessem a provocar desmandos ou desordem pública. O que houve, sim, foi uma troca de ‘mimos’ entre a PRM e a população local, porque esta tentou, sem sucesso, aceder às minas localmente controladas por alguns patrões que, supostamente, pagavam os recursos de forma depreciativa, cansando os garimpeiros e levando-os a vender a outras pessoas que ofereciam um preço mais justo. Foi aí que começaram os desentendimentos.”

Para Gamito dos Santos, a situação agravou-se quando a PRM matou um dos garimpeiros e a população levou o corpo até ao posto policial.

“Quando o garimpeiro foi morto, as pessoas carregaram o corpo até ao posto policial para exigir que a polícia enterrasse os que tinham sido mortos. Em resposta, a polícia accionou a Unidade de Intervenção Rápida [UIR], que chegou ao local e começou a efectuar disparos, culminando na morte dessas 38 pessoas.”

Segundo a Kóxukhuro, os dados tornados públicos resultam de um levantamento rigoroso conduzido por investigadores da organização, que estiveram em Iuluti a acompanhar directamente a situação. 

Na mesma ocasião, dos Santos condenou o uso de meios coercivos contra um suposto integrante de uma quadrilha envolvida num sequestro de um agente económico, no distrito de Muecate.

Segundo disse, os meios que têm sido usados pelos agentes da lei e ordem para apurar veracidades são desumanos.

“Nós vimos o vídeo desse cidadão a circular e os nossos advogados já estão em contactos com as autoridades judiciais, e o que nós precisamos é provar de certa forma. Ao nível da nossa organização, vamos pedir a responsabilização das pessoas envolvidas, porque de certa forma sabemos que na República de Moçambique exigir a confissão sobre coacção é crime,” disse, concluindo que “nós já estamos no terreno e nossa equipe de Muecate já está a apurar os factos, e nós já tomamos conhecimento e tivemos informação que alguns membros da corporação que estavam envolvidos e estavam ao lado supostamente a beber e não fizeram absolutamente nada.” (Malito João e Virgínia Emília)