Dia internacional da criança: A triste realidade porque passam as crianças de Nampula

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  • Deslocadas internas da guerra, exploradas no trabalho infantil e outras abandonadas na rua.

 Nampula (IKWELI) – Assinala-se hoje o dia internacional da criança, e na província de Nampula, no norte do país, a situação delas não tem sido das melhores, estando sujeitas ao trabalho infantil, violação e abuso sexual, uniões prematuras e outras formas de violação dos seus direitos.

Nas últimas duas semanas, o Ikweli colheu sensibilidades de várias crianças em torno da data, mas a maioria desconhece a sua importância, tanto que há os que nunca tiveram motivo para celebrar.

Um novo fenómeno emergiu em Outubro de 2017, com o início dos ataques terroristas nos distritos do centro e norte da província de Cabo Delgado, e com ele a deslocação de pessoas passou a ser um facto recorrente.

As estatísticas oficiais apontam que a maioria dos deslocados de Cabo Delgado são mulheres e crianças, grupos vulneráveis e, por vezes, incapazes de se defenderem.

No posto administrativo de Corrane, no distrito de Meconta, milhares de pessoas deslocadas encontram-se abrigadas em um centro improvisado, mas que vai ganhando vida, para o reinício da vida dos deslocados.

No local, entrevistamos várias crianças, bem identificadas, mas por razões de protecção omitimos as verdadeiras identidades, por isso recorremos a nome fictícios.

Zeca Amido, de 15 anos de idade, conta que perdeu o contacto com os seus progenitores na madrugada de uma quinta-feira do mês de Maio do ano 2019, quando a sua aldeia natal foi, severamente, atacada pelos insurgentes. Na companhia de dois amigos conseguiram escapar e mais em frente encontraram pessoas conhecidas.

“Há uma senhora que brincava com a minha mãe, e foi ela que nos acolheu quando lhe encontramos, também, a fugir”, disse, prosseguindo que “tivemos de andar dias e noites para chegar a um ponto seguro”.

Amido explica que “para chegar a Nampula não foi nada fácil, andamos muito e a pé. Depois fomos a Metuge, onde a nossa tia conseguiu dinheiro de chapa para virmos a Nampula. Quando chegamos paramos em Namialo, e de lá fomos trazidos aqui”.

Já acomodados em tendas, o drama e o trauma continuam, mas é preciso se reerguer, tal como refere o menor que aponta que “aqui quando chegamos era ainda mais difícil. Entendíamos muito pouco a língua, mas aos poucos estamos a tentar sobreviver”.

“O meu maior desejo é saber como estão os meus pais e irmãos, mas não sei como”, suspira o menor.

Tal como Zeca Amido, Abiba Julião, também, está em Corrane e disse a nossa reportagem que mal sabe a razão de se celebrar o 1 de Junho, enquanto muitas crianças estão a sofrer em Cabo Delgado, e não só.

“Eu fugi de Mocímboa em Junho de 2018, e até agora estou a sofrer. Não estudo, não tenho a minha família por perto e não sei o que será da minha vida”, disse Abiba Julião, de 16 anos de idade, que conta que “para chegarmos aqui foi muito difícil. Fugi eu, mais cinco amigos quando nos atacaram na aldeia. Para comermos durante a nossa caminhada tivemos que dormir com homens mais velhos, camionistas. Chegamos a Namialo e depois nos levaram para cá”.

“Eu sei que tenho direitos”, reconhece Pedro Jamal, de 14 anos de idade, fixado em Corrane, no centro de deslocados, mas “sei que agora nem me posso preocupar com isso porque as coisas não estão boas lá na minha aldeia em Macomia”. “Nós fugimos, mas outros não conseguiram escapar. O meu pai e o meu irmão foram assassinados pelos bandidos”.

Já na cidade de Nampula, há menores que fugiram de Cabo Delgado, mas optaram por viver de outras maneiras para garantir a sua sobrevivência. Umas alinharam para o mundo da prostituição, o que legalmente se presume na exploração sexual.

No bairro dos Belenenses, 4 menores da idade compreendida entre os 13 e 16 anos vivem com base em trocas sexuais, ou seja, para comerem precisam se meter com vários homens”.

A Benedita, do grupo das 4 menores, conta que “já vivemos em vários bairros desde que chegamos aqui em 2019, muitas vezes nos dão corrida porque não gostam do que fazemos. Andamos com maridos das pessoas e outros são nossos vizinhos, mas nós não temos culpa, queremos comer”.

A entrevista com o grupo destas meninas realizamos na tarde do dia 28 de Maio, mas no final do dia 31 de Maio quando chegamos ao local, ficamos a saber com o proprietário da casa que as expulsou pelo comportamento que levavam, moralmente condenável.

Por outro lado, na autarquia de Nampula prevalecem os problemas do trabalho infantil, na sua maioria sendo exploradas no comércio informal.

A venda de comidas confecionadas e outros produtos alimentares, como o amendoim, doces e salgados tem sido a área onde mais são abusadas as crianças.

Cada uma delas tem uma história triste que a outra, a sua maioria trazida a cidade sob pretexto de oferta de oportunidade para dar continuidade aos estudos e progredir na vida, mas outros nem por isso.

“Eu vivo em Murrapaniua. Por dia devo vender 150 chamuças, se não acabarem minha tia me zanga”, disse Florinda Cassamo, interpelada pelo Ikweli ao longo da avenida do Trabalho.

Mesmo em frente a nossa redação, conversamos com Memuna Carimo, desmoralizada perto das 16 do dia 30 de Maio, lamentava em não saber em que condições passaria o 1 de Junho.

“Na casa onde vivo a minha tia é muito má. No ano passado só comprou coisas novas para os filhos, e nós até fomos vender amendoim cozido e maçaroca na rua, enquanto é nosso dia”, conta, triste, Memuna.

Estas e outras histórias são recorrentes na chamada capital do norte, mas as autoridades continuam a observar sem muito intervir nestas e outras situações. (Aunício da Silva)

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