
Nampula (IKWELI) – Moçambique tem os seus problemas e crises de forma cíclica e quase em mesmo períodos anuais, desde os provocados pelos homens, assim como os que acontecem por força da natureza.
A cada ano que passa, os problemas surgem em maior magnitude e, as consequências, ainda, mais graves.
E, hoje, veio a cola a coisa dos boatos, da desinformação e das campanhas de sensibilização sobre os vários problemas que pesadamente atingem o desprevenido povo.
Num desses dias fui a uma reunião sobre a cólera, os actores gabavam-se de estar a comunicar ao povo sobre os perigos da doença, cuidados a ter na prevenção e como cortar o vector da transmissão. Minto, já tinha ido a outras reuniões em anos idos sobre o mesmo propósito, mas tudo na mesma.
Prontos, tudo ficou claro que a coisa da desinformação tem a ver com a comunicação e é aí que começa a minha dúvida: se essa gente diz que está a comunicar-se com a população, então, porque é que as suas mensagens não são entendidas e porque é que há desinformação sobre a doença?
Então, depois de ouvir as barbáries sobre a comunicação que se faz na prevenção e combate à cólera, decide puxar dos meus contactos comunitários, aqueles do tempo em que me dedicava à extensão rural, para deles entender se, de facto, têm sido comunicados, preventivamente, sobre a doença das mãos sujas.
A resposta não podia ser outra: “aqui nunca vieram falar da cólera, de vez em quando ouvimos na rádio, mas costuma a passar aqui um carro com altifalantes a fazer barulho.”
Prontos, os técnicos, bem entendedores da matéria, disseram, naquela reunião, que estavam a drenar rios e rios de dinheiro em comunicação e, aí, está a comunicação. Som alto, em viaturas, com spots gravados fora do contexto da comunidade onde ele é exibido.
Aqui veio-me à mente um outro factor: a diversidade dos nossos hábitos e costumes, incluindo a língua que se move com a realidade e contexto local. Ah, sim! Não faz sentido, nenhum, que quem queira comunicar-se para resultados colocar a disposição das comunidades de Nacala e Nametil o mesmo spot, não só porque o macua de Nacala (nahara) e o de Nametil (quase a interior da província) sejam da mesma percepção, muito menos o de Liupo com o de Malema, mas os spots, largamente, têm sido produzidos em uma única versão e visão.
Uma pesquisa rápida que fiz introduziu-me ainda mais um elemento: os spots são gravados por uns “especialistas” na capital do país. Especialistas que nunca estiveram em Namaponda, nem se quer sabem como chegar a Aube ou a Mathapue, tanto é que desconhecem como as gentes daqueles pontos sempre se comunicaram para evitar crises.
A exigência é dos doadores, os donos dos dinheiros que têm regras claras e rijas na contratação de prestadores de serviços. Aqui, localmente, apenas temos gente para executar o que eles querem.
É claro que nesses moldes não se pode mentir que está a se comunicar, para resultados, a alguém que não sabemos como se comunica, o que lhe é prioritário quando comunica-se com os seus.
Verdade seja dita: há uma mentira grosseira sobre estar-se a comunicar para mudança de comportamento, pois a desinformação que tem causado destruição de infra-estruturas públicas e perseguição de funcionários públicos não teria razão de existir se, de facto, estivesse a se comunicar com se diz.
Há ali uma propaganda, bem desenhada, em algum canto desse mundo que um dia já foi maravilhosa, mas que localmente não funciona, não cola, não pega nada. (Aunício da Silva)




