Em Nahene – 1 alegada situação de pobreza impede mais de 20 alunos de prosseguirem os estudos

Nampula (IKWELI) – Uma alegada situação de pobreza tem impedido crianças, sobretudo raparigas, de prosseguirem com os seus estudos na unidade comunal de Nahene-1, bairro de Mutava-Rex, posto administrativo de Namicopo, nos arredores da cidade de Nampula.


As dificuldades financeiras afectam directamente pelo menos 24 alunos do ensino secundário, dos 50 aprovados no ano passado para a Escola Básica de Mutava-Rex, que abandonaram os estudos desde o primeiro semestre findo.
De acordo com as lideranças locais, apenas no primeiro trimestre deste ano foram registados oito novos casos de abandono escolar, contra 15 verificados no ano passado.


O secretário da unidade comunal de Nahene-1, Vasconcelos Rachide, que revelou a informação ao Ikweli, disse que a maioria dos alunos que abandonou os estudos devido à alegada pobreza passou a dedicar-se a actividades como a produção de carvão vegetal, extracção de pedra para construção, extracção de areia, comercialização de feijão-macaco (conhecido também por fava), agricultura e, em alguns casos, a união prematura e consequente gravidez precoce, como forma de ajudar as respectivas famílias nas despesas domésticas.


Vasconcelos Rachide acrescentou que a maioria destes alunos frequentava entre a 7ª e a 10ª classes, sublinhando que a situação é do conhecimento das entidades competentes, embora as respostas apresentadas até ao momento não sejam consideradas satisfatórias, apesar das garantias de apoio às crianças afectadas.


A única medida para evitar situações idênticas, a liderança local tem promovido campanhas de sensibilização e palestras sobre a importância da educação, procurando consciencializar os pais e encarregados de educação para manterem os seus filhos na escola, mesmo perante as dificuldades económicas enfrentadas pelas famílias.


O Ikweli entrevistou alguns alunos que abandonaram os estudos nas escolas Básica de Mutava-Rex e Secundária de Nampaco devido a alegada situação de pobreza extrema que afecta os seus encarregados de educação. A maioria vive em habitações precárias, construídas com materiais rudimentares ou de palha e capim.


Os entrevistados apontam como principais factores para o abandono escolar a inexistência de uma escola básica próxima da comunidade, obrigando-os a percorrer cerca de 10 quilómetros até às escolas de Nampaco e de Mutava-Rex, bem como as contribuições exigidas para brochuras e provas, além da alegada cobrança de valores monetários em troca de vagas escolares.


Simone Djuma, de 15 anos, natural do distrito de Nampula e residente na unidade comunal de Nahene-1, conta que abandonou os estudos quando transitou para a 7ª classe, pois foi transferida para a Escola Básica de Mutava-Rex, em 2024.
“Deixei de estudar porque os meus pais já não tinham condições financeiras para me matricular na Escola Básica de Mutava-Rex. Muitas vezes faltava às provas porque não tinha dinheiro para pagar a contribuição de 10,00Mt (dez meticais) a 15,00Mt (quinze meticais). Além disso, também precisava de dinheiro para o transporte até à escola. Era muito complicado para mim”, contou.
A menina acrescentou que decidiu trabalhar na montanha, extraindo pedra para construção, de forma a ajudar a mãe nas despesas da casa. “Para não ficar sem fazer nada, achei melhor trabalhar na montanha a extrair pedras para ajudar a minha mãe na compra de alimentos. Saio de casa às 10 horas e só regresso às 17 horas. Não é um trabalho fácil”, afirmou.
Outro caso é o de Jackson Nilton, de 16 anos, natural do distrito de Nampula e órfão de pai e mãe, e avançou que abandonou os estudos quando frequentava a 4.ª classe, em 2023.
“Quando perdi os meus pais, não consegui continuar a estudar porque a minha avó, mãe da minha falecida mãe, já é idosa e não tem condições para fazer trabalhos pesados. Não havia dinheiro para comprar uniforme, cadernos, mochila, nem pagar a matrícula. Agora trabalho na montanha para conseguir ajudá-la. Se o Governo me apoiar, gostaria muito de voltar a estudar”, declarou.


Tal como o líder comunitário, os alunos apelam à construção de uma escola básica mais próxima da comunidade apontando os Serviços Distritais de Educação, Juventude e Tecnologia (SEDJT), em coordenação com a Direcção Provincial de Educação (DPE), a responderem o pedido das crianças da comunidade, sobretudo das que são obrigadas a frequentar escolas distantes.

O que dizem os pais e encarregados de educação?

Os pais e encarregados de educação manifestam preocupação com o problema, alegando que esta realidade compromete o futuro das crianças.
Juma Sumail, de 52 anos de idade, natural do distrito de Nampula e pai de 11 filhos, afirmou que apenas três frequentam a Escola Primária de Nahene-1, enquanto os restantes abandonaram os estudos entre a 7ª e a 9ª classe, devido a sua incapacidade financeira na aquisição de material escolar.


A fonte vive numa habitação de construção precária, feita de material local e coberta de capim, dividida em dois quartos, uma sala e uma varanda. A família dorme sobre esteiras e utiliza capulanas como cobertores. Desempregado, Juma Sumail depende exclusivamente da produção de hortícolas para sustentar a família.
Ao receber a equipa de reportagem do Ikweli, emocionou-se e, com lágrimas no rosto, explicou que os filhos deixaram de estudar por falta de condições básicas. Segundo disse, a família enfrenta dificuldades até para garantir a alimentação diária, conseguindo, na maioria das vezes, apenas duas refeições ao dia, almoço e jantar, com um custo aproximado de 70,00Mt (setenta meticais) por refeição.
“Não tenho condições financeiras para manter os meus filhos na escola. Todas as semanas era obrigado a gastar entre 100,00Mt (cem meticais) e 200,00Mt (duzentos meticais) para brochuras. Quase não estudam, sobretudo na Escola Básica de Mutava-Rex, porque os professores pedem dinheiro aos alunos quase todos os dias. Para nós, que estamos desempregados, essa situação é muito difícil”, lamentou.
Este encarregado de educação acrescentou que, para alimentar a família, depende da venda de Namacotho (feijão macaco) e das hortícolas produzidas na sua machamba.
Por sua vez, Marca Marques, de 34 anos de idade e mãe de seis filhos, contou que dois deles abandonaram os estudos entre a 7ª e a 9ª classe, nas escolas de Mutava-Rex e de Nampaco.

A entrevistada vive numa casa de construção precária, feita com base em material local, coberta de capim e dividida em dois quartos e uma sala. Solteira há cinco anos, sustenta a família através da venda de feijão-macaco.
Em entrevista ao Ikweli, afirmou que, em muitos dias, a família consegue fazer apenas uma refeição, com um custo aproximado de 100,00Mt. “Não consigo colocar todos os meus filhos na escola. O pai deles abandonou-nos e deixou-me sozinha, sem casa e sem terreno. Consegui vender o meu feijão, comprar um pequeno espaço e construir esta casa. Não tenho emprego e dependo apenas deste negócio, que mal chega para comprar comida. Não tenho condições para adquirir os materiais escolares de que os meus filhos precisam”, disse.
Na unidade comunal de Nahene-1, a Escola Primária Completa acolhe actualmente mais de cinco mil alunos, distribuídos entre a 1.ª e a 6.ª classe. (Virgínia Emília, Foto: Higino Nipaco)

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