Nampula (IKWELI) – Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que 1.6 milhões de pessoas morrem anualmente no mundo vítimas de acidentes de viação e, segundo a mesma agremiação, os acidentes rodoviários representam a principal causa de morte entre crianças e jovens entre os 5 e 29 anos de idade, sendo que 92% das mortes de trânsito em todo o mundo ocorrem em países de baixa e média renda.
Em 2025, o Procurador-Geral da República (PGR), Américo Letela, revelou durante a apresentação anual do Estado da Justiça no país que Moçambique registrou 611 acidentes de viação, resultando na morte de 830 pessoas, um aumento de 5 óbitos em comparação com o mesmo período do ano passado.
Falando durante uma reflexão sobre os acidentes de viação promovida pelo Secretário de Estado na província de Nampula, Fernando Bemane, o delegado provincial do Instituto Nacional de Transportes Rodoviários (INATRO), Samuel Dos Santos, considera que o comportamento humano é a principal causa do aumento do número de acidentes de viação na província, que subiram de 23 óbitos nos primeiros 8 meses do ano 2025, para 37 no presente ano.
Ainda durante o encontro, o delegado do INATRO, disse que o Estado está preocupado com o número cada vez mais crescente de acidentes de viação e acções estão a ser empreendidas com vista a travar o mal.
“O Estado moçambicano, através do Ministério dos Transportes, está preocupado com os acidentes, e por isso está em curso a revisão do Código de Estrada que contem novas alterações significativas e substanciais para responder os desafios ao longo da via pública. Entre os meses de Janeiro e Agosto de 2026, Nampula registou 37 óbitos em treze (13) casos de acidentes de viação, contra vinte e três (23) óbitos em 17 casos de acidentes de viação do mesmo período do ano 2025,” revelou, secundando que “há necessidade de continuar a doptar de conhecimento os mototaxistas sobre a educação pública e outros que se fazem na via, com esta iniciativa, acreditamos que vão reduzir os casos.”
Trauma e dor entre as vítimas

Adélia Samuel, de 40 anos de idade, é sobrevivente de um acidente de viação. A nossa interlocutora lembra como fosse hoje o acidente que lhe acometeu quando voltava de Nacarôa, local onde costuma comprar produtos para revenda.
“Tudo começou quando estava em um chapa-100, o carro capotou, não sei muito bem o que terá causado a situação, mas depois do acidente o carro pegou fogo fazendo mortes e eu fui uma das sobreviventes. Agora restaram somente as cicatrizes na cabeça, e grande parte do corpo sofreu queimaduras.”
O vendedor de carvão vegetal, José Francisco, de 35 anos de idade, não lembra com bons olhos o julho de 2026, mês em que um aparatoso acidente interrompeu a sua carreira de 10 anos enquanto facilitador de vidas através daquele combustível doméstico essencial para as famílias.
“Em julho enquanto vendia carvão na bicicleta, um carro, em excesso de velocidade, me bateu e deixou-me em estado grave. A bicicleta foi destruída, estou internado há 36 dias dentro do Hospital Central de Nampula, passando momentos de dor e tristeza longe da família, os médicos ainda recomendam repouso e neste momento não posso andar.”
Agricultor de profissão, Lucas Acácio, de 25 anos de idade, viu o seu trajecto interrompido quando em mais um dia de trabalho embateu contra um carro. “Estava em uma motorizada sem capacete e nem colete e embati com um carro. O motorista pôs-se em fuga, agora não consigo andar e antes do acidente capinava para revender produtos, era o meu sustento e da minha família, agora que não posso andar, a minha vida está complicada e não sei o que fazer, peço socorro para me alimentar.”
O médico legista do Hospital Central de Nampula, Dino Soares, anota que os acidentes de viação e os traumas são as maiores causas de morte evitáveis, afectando de forma desproporcional jovens e crianças.
“Se formos a reparar aquilo que é a faixa etária, jovens entre 21, 30 e 40 anos, são as maiores vítimas mortais de sinistralidade, são pessoas em idade activa que produzem para as suas famílias e isso poderá trazer um impacto directo na economia de Nampula, o número de acidentes de viação é maior, também há crianças menores de 5 anos envolvidas neste processo,” disse a fonte.
O HCN entende que o elevado número de sinistros rodoviários que dão entrada nas suas urgências deixa marcas permanentes nas vítimas. “Na ortopedia, antes os pacientes, vítimas de acidente, eram internados em 15 camas no máximo e actualmente cerca de 21 camas são ocupadas, numa altura em que há vítimas com fraturas graves que necessitam de intervenções cirúrgicas e cuidados pós-operatórios.”
Mas o que estará por detrás dos recorrentes acidentes de viação?

Para o chefe da repartição de Segurança Rodoviária no INATRO em Nampula, António Uaqueia, a causa dos acidentes de viação não é comum, mas o comportamento humano está entre as causas principais.
“É complexo dizer o que propicia a sinistralidade rodoviária, porém, o comportamento humano é a principal causa dos acidentes associado a falta de acesso de averbamento provisional. Há condutores que fazem carga de passageiros, este problema é real e antigo.”
Enquanto isso, o administrador do distrito de Nacala̵, Morchido Momade, aponta a sobrecarga nos veículos como parte das causas. “A realização da actividade de táxi mota tem sido um meio importante para o autoemprego de muitos jovens, entretanto, notamos que há mau uso do mesmo meio, porque em Nacala temos assistido jovens que exercem a actividade com irresponsabilidade, dois ou mais passageiros em uma só motorizada, as crianças em idade escolar passam maior risco de vida.”
Já a administradora do distrito de Nampula, Etelvina Fevereiro, entende que há atropelos constantes no Código de Estrada e os infractores continuam impunes. “Actualmente as motorizadas são desmontadas por razões alheias e coloca-se cada vez mais a saúde pública em risco, a polícia de trânsito sozinha não consegue garantir a fiscalização, é daí que há fracassos,” defendeu.
PT vê nas campanhas de educação cívica solução para os acidentes rodoviários

O chefe de Educação Rodoviária da Polícia de Trânsito (PT) em Nampula, Egídio Pedro, assegurou que reduzir a sinistralidade passa por reforçar a fiscalização nas estradas e adoptar campanhas de educação cívica.
“Os meses de Julho e Agosto preocupam-nos porque registamos maior número de óbitos. A título de exemplo, são dois casos de acidentes ocorridos no mesmo local, na barragem de Nacala-à-Velha, o caso mais recente foi a colisão de um camião e um transporte semicolectivo de passageiros que causou 11 mortes e 5 feridos. O outro caso, foi a colisão de dois camiões, sendo que um dos motoristas morreu carbonizado.”
Segundo o responsável, uma das acções empreendidas para reduzir os acidentes, é a aplicação de multas que variam consoante a gravidade da infração, como por exemplo, para o excesso de velocidade num veículo ligeiro a multa é de 1.000,00Mt (mil meticais) meticais, moderado 2.000,00Mt (dois mil meticais) e grave 8.000,00Mt (oito mil meticais). (Nelsa Momade)





