
Nampula (IKWELI) – No coração do distrito de Mogovolas, posto administrativo de Nanhupo/Rio, comunidade onde a gravidez precoce associada a pobreza e a desinformação constituem um dos principais cartões de visita, a Iniciativa Regional para o apoio Psicossocial (REPSSI) encontrou, através de rodas de conversa e sessões de mentoria, uma estratégia para libertar mentes e transmitir esperança a rapazes e raparigas que se encontram envolvidos em uniões prematuras.
A nossa equipa de reportagem percorreu mais de 100 km de estrada da cidade de Nampula até a comunidade de Namilapa “A”, situada no distrito de Mogovolas, posto administrativo de Nanhupo-Rio para entender as estórias por trás das cerca de 35 mil crianças citadas por uma organização não-governamental moçambicana em seu relatório datado de 2021, que casaram antes dos 15 anos, e 130 mil que se encontram casadas antes dos 18 anos a nível da província de Nampula.
Já no terreno, cânticos de celebração e palavras de aclamação cruzaram ainda de longe os vidros empoeirados pela viagem do Mahindra que transportou a nossa equipa, num gesto que denota gratidão por uma visita que de longe veio conhecer as belezas que esconde a comunidade de Namilapa “A”.
Numa breve vista, pudemos ver um povo alegre pelos ensinamentos recebidos ao longo das sessões de mentoria, mesmo diante das paredes de construção precária, do fecalismo a céu aberto, da falta de energia elétrica, da água ainda partilhada com o gado, entre outros desafios característicos de quem vive longe dos holofotes da cidade.
“Crianças sendo mães de outras crianças” e o alívio trazido pelo REPSSI
Na comunidade, as raparigas sonham alto, o professorado, a enfermagem e o comércio em grande escala figuram entre os principais desejos por ali, mas o que se pode ver por agora, são crianças amamentando outras crianças e enfrentando os ditames da maternidade precoce.
Em meio aos desafios, surge o apoio psicossocial do REPSSI que, entre várias intervenções, garantiu que as raparigas compreendessem que nem tudo o que existe é o que podem ver, existe um mundo maior e os sonhos não precisam ser relegados ao esquecimento.
Fátima Carlos, agora com 19 anos de idade, contou ao Ikweli que engravidou aos 14 anos e não se deu conta logo a primeira. “Sou de Namilapa A, engravidei quando tinha 14 anos, quando engravidei não sabia que estava grávida, e aquilo me assustou, na época, o meu marido tinha 19 anos, ele assumiu minha gravidez.”
Apesar do marido tê-la apoiado, a nossa fonte revela que não escapou dos desafios da gravidez na adolescência, e foi o apoio do REPSSI que a ajudou a compreender que era possível ter uma gravidez e um parto tranquilo. “Quando o projecto entrou, aprendi que eu deveria ir ao hospital para abrir a ficha pré-natal, depois que dei parto, me ensinaram que deveria tomar banho e dar banho bebé antes de ir ao Hospital e isso me ajudou muito, além de me ensinarem receitas com aquilo que tem na machamba para poder me alimentar bem e ter bom leite para o meu bebé,” declarou
Com a voz trémula e os olhos quase lacrimejantes, Zainabo Abílio, rapariga agora com 19 anos de idade, disse ao Ikweli que tudo o que sabe é o que lhe foi apresentado desde a nascença, a machamba e a vida do campo. “Nasci e cresci nesta localidade, os meus pais também são daqui eles são agricultores, nossa vida sempre foi ir a machamba e comer o que tiramos de lá, nunca fui a cidade e minha infância sempre foi cuidar dos meus irmãos,” declarou
A menina de origem simples que carrega o sonho de ser professora, relata que a intervenção do REPSSI foi importante para que ela enfrentasse os ditames de uma gravidez na adolescência, “Engravidei com 16 anos de idade, o meu marido já vinha me apreciando, e depois foi falar com a minha família, eles aceitaram e casamos. Antes de chegar o projeto não sabia que uma mulher grávida deveria abrir uma ficha pré-natal e o meu marido a seguir todo o processo até ao nascimento. Depois do projecto ter entrado na comunidade, aprendi a dar banho bebé, porque antes só ia ao Hospital sem nenhum cuidado.”
Quem também reconhece os esforços do REPSSI naquela comunidade, é Isabel Armando, quem engravidou com 15 anos de idade, agora mãe de 2 filho. “Sou natural de Namilapa A, antes de chegar o projecto, comportava-me muito mal e discutia em frente dos meus filhos, nada me interessava, agora, quando o projecto entrou na comunidade, já não discuto com o meu marido, não crio problema em frente dos meus filhos, tenho uma mente aberta, quando me estresso, não respondo logo.”
A educação nutricional naquela comunidade, transformou a confecção de alimentos num verdadeiro combate a desnutrição crónica. Sofia Miguel fala de mudanças significativas na saúde do seu filho. “Desde que o projecto entrou, aprendi a fazer papinha com ovo, amendoim, o meu filho está a crescer mais rápido.”
Homens também falam de mudanças trazidas pelo REPSSI
De Namilapa A, rumamos a comunidade de Namuca, localizada há 13 km da vila de Nametil, local onde homens testemunham mudanças em sua interação familiar.
Munhaco Manuel, por exemplo, fala de uma transformação em seu comportamento trazidas pelas rodas de conversas do REPSSI. “Antes de entrar no projecto, eu humilhava a minha esposa, ela ficava magrinha devido a humilhação, a tratava como se fosse uma escrava, o projecto me ensinou que quando estiver a voltar da machamba com minha esposa, devo ajudar a carregar as coisas, levo minha esposa para o hospital, quando minha esposa fica grávida, dou acompanhamento, converso com a enfermeira, acompanho minha esposa ao peso, agora faço tudo para que minha esposa fique confortável.”
Uma “advocacia” que deve se expandir
O Chefe do Posto Administrativo de Nanhupo-Rio, Abacar Matável, defende a expansão das sessões de aconselhamento para outras comunidades. “Ao nível do nosso posto, notávamos uma situação muito alarmante antes do projecto entrar, mas quando entrou, escalou três comunidades que são Namilalapa A, Namizene e Namuka.
Então, nestas comunidades, o projecto deixou boas mensagens, antes, as mulheres eram sobrecarregadas nas actividades, então o homem ficava atrás da esposa sem ajudar em nada, mas com esse projecto, achamos que significativamente as mentes começaram a mudar, conseguimos notar uma diferença, então para nós, como posto administrativo, desejamos que o projecto seja expandido a nível das outras comunidades, “asseverou.
Já a Técnica de Saúde Materno Infantil (SMI) no Centro de Saúde de Nanhupo-Rio, Catija Carlos, entende que a gravidez na adolescência carrega grandes riscos. “Uma rapariga tem grandes riscos no processo do parto porque a sua bacia não está pronta para expelir o fecto. Nós aconselhamos para que as raparigas entrem na unidade sanitária mais cedo, com vista a explicar os riscos.”
Carlos disse ainda que as raparigas que participaram vindas de Namilapa “A” não enfrentaram qualquer complicação e demostravam algum conhecimento prévio do processo. “Atendemos duas raparigas da comunidade de Namilapa, elas vieram com suas parteiras tradicionais, atendemos, e foi tudo tranquilo,” declarou. (Felismina Maposse; Foto: Belto Samuel)





