
Ilha de Moçambique (IKWELI) – A Ilha de Moçambique, situada na província de Nampula, é um dos maiores símbolos históricos do país. Contudo, nos últimos tempos, cresce o sentimento entre munícipes de que a cidade está a ser abandonada, devido a degradação visível e acentuada das infraestruturas e espaços públicos.”Omuhipite” como vulgarmente é conhecida ilha, é um município costeiro da província de Nampula, que dista a 180 km da capital provincial, e é limitado a Norte, Oeste e Sul pelo distrito de Mossuril e a Leste pelo Oceano Índico. A superfície territorial é de 226 km², sendo 1,5 km² da zona insular e 224,5 km² da zona continental.Segundo o Censo de 2017, o município tem 83.977 habitantes, sendo 43.351 mulheres (52%) e 40.625 homens (48%). O Município está dividido em duas partes: Zona Insular, constituída por 8 bairros, com 11.756 habitantes, e Zona Continental, constituída por 25 bairros, com 72.221 habitantes.A Zona Insular do município da Ilha de Moçambique está dividida em duas áreas de morfologia urbana distintas, a cidade de Pedra e Cal e a cidade de Macuti. A cidade de pedra e cal corresponde à área ocupada pela primeira sede da colónia portuguesa, entre 1507 e 1898, e possui apenas um bairro, o do Museu. Por sua vez, a cidade de Macuti é a zona mais densamente construída e habitada pela população nativa, e possui 7 bairros, nomeadamente, Lhitine, Esteu, Quirahi, Marangonha, Areal, Unidade, Macaripane, sendo o mais populoso o bairro de Lhitine, com 3.009 habitantes, correspondendo a 26,6% da população total da zona insular.Outrora, a Ilha de Moçambique foi um importante entreposto do comércio triangular entre a Arábia, a Índia e a África Oriental e constituiu a primeira sede da colónia portuguesa, entre 1507 e 1898, tendo adquirido o estatuto de cidade em 1818 e de capital do país até 1898.No ano 2014, a autarquia da Ilha de Moçambique foi galardoada com a Medalha Bagamoyo pelo então Presidente da República de Moçambique, Armando Emílio Guebuza, e no ano 1991, foi considerada pela UNESCO, o Património Mundial da Humanidade.
Moradores falam de total abandono da edilidade

Moradores e líderes comunitários apontam a degradação das vias de acesso e a destruição de jardins públicos como sinais claros de abandono por parte da edilidade, e segundo os relatos, muitas promessas foram feitas, mas poucas obras saíram do papel.Um trabalho minucioso realizado pelo Ikweli constatou que, para além das feridas deixadas pelos ciclones que atingiram a região nos últimos anos, a situação actual é marcada por vias esburacadas, obras inacabadas e infraestruturas abandonadas.João Baptista, que nasceu e cresceu naquela cidade autárquica disse que é moto-táxi, e o desempenho do município não é dos melhores,”Não estou a ver nada que ele [edilidade] está a fazer, porque há outras vias que precisam se reabilitar, desde que ele está aqui não estou a ver o que ele está a fazer, do tempo que ele passou na verdade não estou a ver nada. Por exemplo, cá na Ilha de Moçambique temos um murro que partiu-se, ele poderia fazer a reabilitação, mas nada está a acontecer, assim como estás a ver essas covas que estão aí, os pavês estão partidos, e a praça está muito feia, nesses últimos tempos a Ilha está totalmente podre.”Félix Juma acredita que o município deve estar a trabalhar com “calma”, acreditando numa mudança nos próximos dias. “Para mim ele está a trabalhar, por exemplo, a estrada está limpa, porque o trabalho do conselho municipal é limpar a estrada para ficar organizada e comunicar com a população local. Mas outra coisa não vejo, na praia está cheio de lixo, o município não se importa, está toda a praia suja, até desmoraliza nesses dias, até posso dizer que envergonha quando veem turistas. Há muito tempo tínhamos grupos a fazerem limpeza na praia, mas agora, nesse mandato, ainda não vi.”Sofia Antinane, uma idosa que vive na Ilha de Moçambique desde o tempo colonial, supõe que as mudanças actuais diferem do tempo do colono, “porque não é possível depois dos colonos nos entregarem tudo para gerirmos termos o nosso património nacional a perder rumo aos poucos. Quanto mais o tempo passa, a ilha está se destruir, depois de entrar o município aqui na Ilha de Moçambique as coisas estavam todas elas diferentes, mas agora todos locais de divertimento, sobretudo do Estado, estão quase uma ruína, isso pode ser o motivo que afugenta turistas, então queríamos pedir ao governo para ver o que pode fazer com essa nossa Ilha, porque o que está a acontecer é muito triste.””Vai querer viajar de carro ou de voo muitos quilómetros para vir numa lixeira?” Questiona Agostinho Miguel, outro munícipe, quem igualmente acrescentou que “por exemplo, aqui onde estamos já tinham construído um jardim muito bonito, mas agora tudo ficou para história. Sem falar de capim onde você encontra aquelas casas abandonadas que pessoas chamam ruínas em situação muito triste, cheio de capim e não há nenhum plano para se fazer uma limpeza, lixo passa meses sem carro passar para recolher, então isso tudo estraga a boa imagem da nossa Ilha. Então essa Ilha está a ser muito desprezada, nesses dias diferentemente daquele tempo em que aqui, até segunda-feira, recebíamos turistas, mas agora está tudo seco, uma parte tem a ver com a própria imagem actual, não é das melhores.” Cássimo Saide, também munícipe, mostra-se triste com a situação da terra que lhe viu nascer. “Eu nasci e encontrei essa Ilha a brilhar, mas agora as coisas mudaram muito, sem falar da organização não há nada, tudo é uma desordem, mesmo limpezas simples das vias agora já não se faz, você encontra lixo cheio fora, e dentro dos quintais, isso nunca teria acontecido aqui na Ilha, era a cidade mais limpa do país, mas agora não há nada aqui, o presidente do município não se importa com isso, eu não sei porque faz isso.”

Bairros debatem-se com obras abandonadas, não recolha de lixo e fecalismo a céus aberto
Nos bairros de Lhitine, Esteu, Quirahi, Marangonha, Areal, Unidade, Macaripane, a realidade é preocupante. Em várias zonas, a acumulação de lixo e a destruição das valas de drenagem dificultam a circulação e agravam as condições sanitárias.Chande Amisse diz não perceber todos trabalhos que competem ao conselho municipal, mas “aquilo que eu ouvi sobre tirar lixo, criar planos para combater erosão não faz, porque não justifica um bairro pessoas viverem como cabritos, quando chove água enche nas casas porque às valas todas estão destruídas, por exemplo, tínhamos um muro que fazia limite com a praia, o murro se partiu e ninguém se preocupa com isso e quando o mar enche a água entra até dentro das nossas casas, isso acontece não só aqui no Passomar até lá no Motim entre outros bairros da Ilha. Também estamos a pedir o município procurar maneiras para resolver pequenas questões, essas coisas são de pior. Temos muitas obras de construção orçadas com prazo de entrega, mas todas elas abandonadas, com placas, isso tudo nos deixa muito revoltados, pena que não temos como fazer eleições aqui na ilha, iríamos avançar urgente porque está pior, nunca vi um pai que não se interessa com seus filhos. Até podem nos contar histórias sobre a falta de orçamento, então outras cidades vivem como. Sem querer falar de salário que ouvimos que para se receber fica às vezes seis ou mais meses.”A falta de sanitários em alguns bairros é outro factor que preocupa os munícipes. Muitas famílias vivem sem condições adequadas de saneamento básico, aumentando o risco de doenças, sobretudo em épocas chuvosas.Para além da falta de água, a cidade da Ilha de Moçambique nos últimos tempos vive com muitos bairros sem sanitários, uma situação que periga á saúde pública.Segundo apurou o Ikweli, o bairro de Passomar, localizado na zona costeira da Ilha de Moçambique, vive uma crise silenciosa de saneamento.À margem dos quintais é visível a imundície acumulada, resultado da falta de latrinas e da deficiente recolha de lixo. A proximidade com o mar, que poderia ser uma vantagem ambiental e turística, tornou-se parte do problema, já que muitos residentes são obrigados a utilizá-lo para fazer necessidades fisiológicas.As crianças são as mais afectadas por este cenário, convivendo diariamente com resíduos e dejetos a céu aberto, situação que pode acelerar casos de diarreia e até surtos de cólera. A falta de infra-estruturas básicas agrava o sofrimento das famílias, que dizem sentir-se esquecidas pelas autoridades municipais.Fátima Antinane, residente no bairro de Passomar, explicou que o sofrimento da população é maior. “Aqui nós vivemos perto da praia e como sabem que não é fácil ter casa de banho, então nós tínhamos latrina aí, mas o município destruiu e até agora não fez nada e nós estamos a fazer necessidade na praia e isso nos complica muito. Por exemplo, o lixo está há duas semanas que não conseguem tirar, algumas pessoas entornam mesmo no rio, por isso estamos a passar muito mal aqui no nosso bairro e agora está pior essa situação.”Amina Ali disse que por falta de sanitários a única alternativa é fazer necessidades no mar. “Não temos casas de banho aqui, para cavar latrina não é fácil, já teríamos feito, pelo menos um buraco.”“Estamos mal nesse bairro, porque antigamente tínhamos latrinas, mas desde que encerraram nada acontece e estamos a pedir ajuda, corremos o risco de ter muitas doenças como cólera e diarreia,” acrescentou Zeinabo Amisse, quem não se conforma com o encerramento das casas de banho. Chande Amisse, outro residente em Omuhipite, entende que Passomar quase está esquecido. “Estamos mal aqui no bairro, porque não se justifica alguém vir cavar dizer que quer fazer casa de banho e passar quase seis meses sem voltar, isso considero como humilhação, porque nós cagamos na água do mar não porque estamos a gostar, porque não temos como, aqui como estás a ver, está cheio de sujidade, porque fazemos aqui necessidade menor e maior.”

Turismo ameaçado?
A degradação progressiva, também, começa a afectar a imagem turística da cidade, visitantes que procuram conhecer a história e a beleza arquitetónica da Ilha de Moçambique deparam-se com ruas danificadas e espaços públicos sem manutenção.”Nós agentes económicos estamos com medo, medo porque quando a situação continuar assim ninguém vai nos visitar, até porque esses dois anos estamos a passar mal, há falta de turistas, alguns deles que vieram na semana passada confessaram que essa Ilha está desgraçada nos últimos tempos, então precisamos que o presidente do município venha com dinâmicas concretas para salvarmos a nossa Ilha de Moçambique,” explicou Titos Maurício.Entre os moradores, cresce o sentimento de frustração, muitos afirmam que a cidade, outrora símbolo de orgulho nacional e internacional, está a perder a dignidade devido à falta de investimentos consistentes em infraestruturas e saneamento.”Nós pensamos que estamos abandonados, porque esse nosso problema ninguém está a intervir, temos muitas obras com placas de orçamento até com data de entrega, mas até agora tudo está parado, então nós munícipes podemos não perceber os motivos porque ninguém explica, só a nossa dor é eleger alguém para destruir a nossa Ilha, queremos que alguma coisa seja feita para mudarmos a nossa Ilha de Moçambique, porque não se justifica esse tipo de situação que estamos a viver,” explicou outro morador.
Apelo à revitalização
Perante este cenário, os munícipes apelam às autoridades locais e centrais para uma intervenção urgente, e defendem a reabilitação das vias, melhoria do saneamento do meio e recuperação dos jardins, de modo a preservar a história e devolver à Ilha de Moçambique o estatuto e a dignidade que sempre teve.Nesta cortina de poeira, há pessoas que esperam momentos bons por parte da edilidade. “Espero que alguma coisa seja feita, porque daquilo que estamos a ver, por exemplo, a situação de latrinas não poderíamos estar a falar até agora, porque mesmo aquilo que é o manifesto eleitoral do presidente do município quase deixou de lado, então isso está a nos prejudicar nós que nascemos e crescemos nessa Ilha que o nosso desejo é sempre acrescentar. Aqui na Ilha não temos fábricas, dependemos de turistas para vender algo e sobreviver então quando as coisas ficam assim é muito complicado,” afirmou Carlos Paulino.Alafane Jomar, de 55 anos de idade, líder do primeiro escalão, natural da Ilha de Moçambique, disse ao Ikweli que “o que estou a ver aqui na Ilha de Moçambique até agora está a desenvolver, porque antigamente não tinha pavê, mas faz muito tempo que esse pavê foi colado. Falando do actual presidente do município está a trabalhar assim mesmo apenas tem muitas dificuldades, os nossos desafios são problemas de latrinas, os jardins não estão em condições, é muita coisa que é preciso, mesmo reabilitar.”
A situação das casas de culto
Na mesma senda, a comunidade islâmica da Ilha de Moçambique manifestou recentemente a preocupação com o estado de conservação do património religioso existente na região, considerado um dos mais antigos símbolos da presença do Islão no país.O alerta foi lançado pelo Sheikh Suleiman Assane, membro do Conselho de Álimos, que denunciou o que considera ser um afastamento da comunidade muçulmana em relação à preservação destes locais históricos.Segundo o líder religioso, vários espaços de valor espiritual e histórico carecem de atenção e intervenções urgentes.Em entrevista ao Espaço Islâmico, o Sheikh apelou à reestauração da primeira mesquita existente na Ilha, apontando a necessidade de proteger um património que, segundo ele, faz parte da identidade religiosa e histórica de Moçambique.Nós conhecemos a Ilha de Moçambique não só como o berço do país, mas também como o berço da religião islâmica aqui. Antes mesmo de ser um país, a religião islâmica já estava aqui, afirmou.Ainda de acordo com o líder islâmico, o estado actual da primeira mesquita da Ilha, considerada também a primeira do país, reflecte a falta de manutenção ao longo do tempo, situação que classificou como preocupante. Perante este cenário, apelou ao envolvimento e solidariedade da comunidade muçulmana, tanto a nível nacional como internacional.A nossa primeira mesquita está em péssimas condições e precisa de obras. Com tantos muçulmanos em Moçambique, não faz sentido deixar um local histórico tão importante nesse estado, lamentou, queixando-se de um esquecimento total.Apesar das preocupações relacionadas com a preservação física do património, o Sheikh defende que a valorização do conhecimento religioso continua a ser fundamental para manter viva a identidade islâmica.O legado mais importante e indispensável é o conhecimento islâmico. Se nós nos apegarmos a estudar o Qurán e a Sunnah do profeta, isso vai manter o respeito moral, cívico e tudo o que é o nosso real quotidiano, como muçulmanos, garantiu
O que diz a Edilidade?

Por seu turno, Ali Sualehe, vereador de Gestão Ambiental e Mudanças Climáticas na autarquia da Ilha de Moçambique explicou que o esforço da edilidade sempre foi no sentido de ver a Ilha “brilhar”.”Nós temos feito todos esforços possíveis, o que está a acontecer no Passomar é o seguinte, nós fazemos limpeza na Passomar, mas um dia depois você apanha lixo, a população sai lá do interior e deita lixo nas noites e nós fizemos a limpeza. Estávamos a ter receio de tirar o lixo, se removermos o lixo aquele quintal vai cair, porque sempre bate a água da praia, a questão de latrina é um problema que nós herdamos, mas estamos a fazer o nosso máximo.””Com todas dificuldades que nós temos, pode ser que estamos a incumprir. Nós estamos com dificuldade com meios circulantes, estamos a circular com os mesmos meios há dez anos que foram comprados, há quinze anos nós estamos a ir no terceiro mandato com esses dois tratores e em péssimas condições e nós não temos disponibilidade de valores para comprar, mas estamos a lutar a todo custo possível para podermos fazer um bom trabalho e termos essas dificuldades, mas o trabalho está sendo feito,” disse ainda o responsável. O vereador referiu, igualmente, que o sector não dispõe de quadros suficientes, situação que condiciona a execução de algumas actividades planificadas.Relativamente à situação do muro do lado Índico, Sualehe esclareceu que o problema está fora das capacidades financeiras da edilidade, por isso considera que o apoio de um parceiro constitui única solução viável para a intervenção naquela infraestrutura.O vereador sublinhou ainda que, para além das limitações logísticas, as receitas municipais também são reduzidas, dificultando a melhoria dos serviços básicos prestados à população.Quanto à reposição do pavê, Ali Sualehe avançou que a edilidade está em processo de aquisição de máquinas para a produção de blocos, e a iniciativa poderá contribuir para a melhoria da imagem e das infraestruturas da vila autárquica.Na cooperação Intermunicipal e Internacional, o manifesto assume o compromisso de continuar a privilegiar as boas práticas de gestão municipal, pelo que se comprometia a mobilizar parcerias locais, nacionais e internacionais, incluindo das cidades mundiais com as mesmas características de Moçambique, criar um gabinete para a coordenação e cooperação. Refira-se que no seu manifesto eleitoral, o edil da cidade da Ilha de Moçambique tem como planos, construir 1 campo multi-uso na zona da Copa Passomar, Construir 05 jardins multiusos na zona continental, requalificar o jardim da Escola Secundária da Ilha de Moçambique, Reabilitar 03 jardins da zona insular.No mesmo manifesto, a edilidade tem em vista a promoção de habitações em áreas infra-estruturadas, demarcar 1.500 talhões para construção de casas resilientes, Plantar 2.500 mudas de casuarinas e Acácias, em todo o município, mobilizar parcerias e recursos financeiros para a construção de protecção costeira no Posto Administrativo do Lumbo, mobilizar parcerias, recursos financeiros para a reabilitação e ampliação do muro de protecção costeira na zona insular. (Malito João)




