Ignorância Rodoviária e a Fragilidade da Fiscalização: Um Perigo à Vista de Todos

Moçambique assiste, com preocupante normalidade, ao agravamento da insegurança nas estradas. As atrocidades rodoviárias deixaram de ser episódios isolados para se tornarem rotina diária, muitas vezes à vista das próprias autoridades fiscalizadoras. O que se presencia não é apenas desrespeito ao Código da Estrada, mas uma erosão progressiva da autoridade do Estado.

Multiplicam-se infrações elementares: condução sem carta, ausência de capacete, falta de iluminação adequada, viaturas sem chapa de matrícula, transporte de cinco ou mais passageiros em motorizadas, ultrapassagens em sinal vermelho e manobras perigosas em plena via pública. Em horas de ponta, as ultrapassagens simultâneas em ambos os sentidos da mesma faixa — frequentemente protagonizadas por transportadores semicolectivos, os chamados “chapeiros” — agravam o congestionamento e colocam vidas em risco.

O mais inquietante é que tais irregularidades ocorrem, muitas vezes, na presença de agentes do INATRO, da Polícia Municipal e da Polícia de Trânsito. Quando um agente se dispõe a fiscalizar, arrisca-se a enfrentar pressão de grupos organizados de motorizadas ou interferências externas que inviabilizam a aplicação da lei. Assim, instala-se uma sensação de impunidade que alimenta novos abusos.

Onde reside, afinal, o problema?

Não se trata apenas de falta de meios ou de recursos humanos. A raiz da questão parece estar na fragilidade da tomada de decisões firmes e na vulnerabilidade do sistema a influências indevidas — desde pressões informais até as conhecidas “chamadas telefónicas” que, em muitos casos, servem para facilitar o incumprimento da lei. Quando a autoridade cede à influência, a lei deixa de ser instrumento de ordem para se tornar objeto de negociação.

O resultado é uma espécie de “anarquia rodoviária”, um cenário que lembra o velho oeste, onde prevalece a lei do mais audaz. Porém, nas estradas, essa audácia custa vidas. Cada infração tolerada hoje é um acidente potencial amanhã.

A fiscalização não pode ser seletiva nem temerosa. Precisa ser técnica, imparcial e sustentada por respaldo institucional claro. O agente que cumpre o seu dever deve sentir-se protegido pelo sistema, e não isolado diante da pressão social ou política.

A segurança rodoviária não é um favor; é uma obrigação do Estado e um direito do cidadão. Enquanto persistir a fragilidade na aplicação das normas, continuará a crescer a onda de insegurança que ameaça condutores, passageiros e peões.

É tempo de restaurar a autoridade da lei nas estradas, antes que a ignorância rodoviária se transforme em tragédia irreversível.

Luis Vasconcelos
Um Olhar Atento

Hot this week

Escassez de peixe preocupa angocheanos

Nampula (IKWELI) – Os pescadores do distrito de Angoche,...

Governador de Nampula quer cultura na prevenção de uniões prematuras em Eráti

Namapa (IKWELI) – O governador de Nampula, Eduardo Mariamo...

Nampula pretende atrair turistas através das danças tradicionais

Nampula (IKWELI) – A província de Nampula quer fazer...

Encontrado corpo sem vida nas águas do Cossore

NAMPULA (IKWELI) – O corpo de um jovem, cuja...

Topics

Escassez de peixe preocupa angocheanos

Nampula (IKWELI) – Os pescadores do distrito de Angoche,...

Governador de Nampula quer cultura na prevenção de uniões prematuras em Eráti

Namapa (IKWELI) – O governador de Nampula, Eduardo Mariamo...

Nampula pretende atrair turistas através das danças tradicionais

Nampula (IKWELI) – A província de Nampula quer fazer...

Encontrado corpo sem vida nas águas do Cossore

NAMPULA (IKWELI) – O corpo de um jovem, cuja...

Abiba Abá acusa Muchanga de ser ingrato

Nampula (IKWELI) – A delegada política provincial do partido...

SADC dispõe de Centro Regional para travar pesca ilegal 

Maputo (IKWELI) – A Comunidade de Desenvolvimento da África...

Nampula dispõe de 484 milhões de meticais para melhoramento das estradas

Nampula (IKWELI) – A província de Nampula, no norte...
spot_img

Related Articles

Popular Categories

spot_imgspot_img