Nampula (IKWELI) – Alguns jovens da cidade de Nampula manifestam preocupação face ao cancelamento do curso nocturno no Processo de Ensino e Aprendizagem (PEA), por entenderem que a medida poderá comprometer a continuidade dos estudos de muitos alunos que dependem de actividades comerciais em período laboral para garantir sua sobrevivência e custear a educação.
Segundo este grupo social, o Ministério da Educação e Cultura tomou a decisão de forma precipitada, numa altura em que uma parte significativa da juventude recorria ao ensino nocturno como alternativa para conciliar os estudos com o trabalho informal.
Mito Carvalho, agente de carteira móvel, contou que graças ao ensino nocturno conseguiu concluir a 10.ª classe. Segundo ele, seria impossível estudar no período laboral, uma vez que dependia do trabalho diário para sustentar a família. “Essa decisão foi tomada sem considerar a realidade do povo. Aqui no bairro, a vida é diferente. Muitas pessoas, incluindo adultos, estudavam à noite porque durante o dia faziam actividades comerciais. Falar de ensino à distância, sem considerar as condições reais, pode aumentar o número de excluídos no sistema educativo,” lamentou.
Por sua vez, Sílvia Raimundo, cidadã de 46 anos, partilhou a sua experiência de vida para ilustrar o impacto que a medida pode ter. “Quando perdi os meus pais, fiquei responsável pelas minhas irmãs. Vendia comida durante a tarde e estudava à noite. Foi assim que consegui terminar os estudos e hoje sou professora. Conto essa história para mostrar que o cancelamento do curso nocturno pode prejudicar muitas pessoas que desejam retomar a sua formação,” afirmou.
Em contrapartida, Mariana Julião, professora reformada há mais de 10 anos, defende que o Ministério da Educação tem fundamentos para a decisão. Para ele, o sistema de ensino é dinâmico e exige adaptação às mudanças. “Antes de julgar, é preciso compreender as razões do cancelamento. Sempre que há reformas no ensino surgem debates e resistências. O importante é ter coragem de seguir em frente e adaptar-se aos novos modelos,” destacou.
Entretanto, a medida tem gerado um intenso debate público, sobretudo entre estudantes trabalhadores e educadores, que defendem uma reflexão mais ampla e inclusiva.
Muitos apelam ao governo para que reavalie a decisão ou apresente mecanismos eficazes que garantam a inclusão dos estudantes afectados, assegurando que nenhuma camada social fique excluída do sistema educativo.
A decisão foi oficializada através de um despacho, ao abrigo do Decreto Presidencial n.º 7/2025, de 6 de Fevereiro, na sequência de uma avaliação ao funcionamento do turno nocturno no país. (Malito João)





