Praticantes da mendicidade “dispensam” tentativa de organização do governo

Nampula (IKWELI) – O Conselho Executivo Provincial (CEP) de Nampula, através da direcção provincial do Género, Criança e Acção Social, tem vindo a envidar esforços para colocar em situação de organização e segurança aos praticantes da mendicidade na capital provincial, mas o grupo rejeita este amparo.

É intenção do governo ter estas pessoas em locais seguros, para que, com dignidade humana e respeito, possam receber apoios, no lugar de pulular pelas ruas sob todos os riscos e perigos.

A maioria dos praticantes concentra-se de fronte de lojas, cafés, famílias com algum poderio financeiros, incluindo mesquitas e outros locais de culto.

Francisca Miguel, de 40 anos de idade, mãe de 5 filhos e 2 netos, residente no bairro de Namicopo, conta que vive de mendicidade há três anos, após ter perdido seu marido vítima de doença.

“Eu não tenho como sair daqui, porque é daqui que consigo sustentar meus filhos, uma vez que não tenho emprego e não tenho onde trabalhar, a pessoa que trazia comida em casa que é meu marido, já perdeu a vida em 2022 por doença, estava de baixa no Hospital Central de Nampula, tinha malária e ele sempre dizia que tinha outras dores que até agora não sei do que realmente ele morreu. Agora, se o governo nos ajudar nós que estamos aqui a sofrer, pelo menos estar a varrer fora, acredito que não estaremos aqui, porque há muita gente que está aqui porque não tem o que fazer.”

Por outro lado, Arminda José, de 52 anos de idade, mãe de dois filhos, e que sobrevive de mendicidade há dois anos, disse ao Ikweli que entrou naquele mundo porque foi abandonada. 

“Eu não tenho pessoas para cuidarem de mim, e não tenho onde conseguir pão para mim, os meus filhos me abandonaram, e meu marido me fugiu, foi casar com outra mulher, porque nessa altura eu bebia muito, acabei ficando assim, nos dias que não venho aqui vou pedir comida nas casas vizinhas, ou mesmo lavar copos e pratos nas casas onde vendem bebida macua, depois me dão alguma coisa, comida ou mesmo dinheiro a partir de 10,00Mt (dez meticais) a 30,00Mt (trinta meticais), assim que chegar sexta-feira, venho aqui no parque porque costuma a vir um branco com carro de comida nos dar ou mesmo nas mesquitas.”

Enquanto isso, a directora provincial do Género, Criança e Acção Social, em Nampula, Cedinha Mpila, afirma que estão a ser desenhadas estratégias para que seja alçando o objectivo de tirar “mendigos” das ruas. 

“Ainda estamos a trabalhar no processo, porque aquele processo do centro social para acolher as pessoas de mendicidade na rua, não será fácil que as pessoas vão tomar a consciência, mas estamos a fazer um trabalho com os nossos empresários e com as próprias pessoas, para ver se conseguimos resolver a situação.”

Por outro lado, o delegado provincial do Conselho Islâmico de Moçambique (CISLAMO), em Nampula, Sheikh Abdulmagid António, entende que a mobilização da DPGCAS deve ser feita nos locais de maior concentração para que haja mais consciência por parte das pessoas desta classe. 

“Há necessidade de mapear algumas casas onde eles se aglomeram e termos um trabalho de sensibilização com essas pessoas, mas infelizmente há alguma resistência, porque eles acham que ficando nesses pontos identificados os donativos não aparecem, então eles querem forçar os agentes económicos a entregarem nos locais de risco. Vamos sensibilizar e fazer ver os perigos que eles correm na rua desprevenidos, e há muitos riscos de ocorrerem acidentes de viação e maior parte deles são idosos indefesos, e estão expostos a raios solares, também vamos sensibilizar os agentes económicos e as pessoas de boa vontade que querem doar, deverão canalizar e entregar os seus donativos no local onde o governo vai identificar, para evitar esta situação que se faz sentir ao nível da nossa cidade.”

O líder do CISLAMO, ainda, sugeriu ao governo para crie “outro centro de acolhimento para essas pessoas, e deve-se fazer um trabalho para aglomerar muita gente, criando condições sanitárias, uma vez que é muito distante, então seria bom que se identificasse um local por cada posto administrativo municipal, com vista a evitar percorrer longas distâncias.” (Virgínia Emília)