Nampula (IKWELI) – Em Outubro de 2017, a província de Cabo Delgado, no norte de Moçambique, entrou para as páginas mais tristes dos anais da história do país, isso porque entre tiros, fogo e gritos, vilas inteiras foram engolidas pelo terror. Aldeias foram queimadas, escolas abandonadas às pressas e sonhos interrompidos.
O que começou como ataques isolados em alguns distritos do norte de Cabo Delgado, rapidamente se transformou numa guerra que forçou milhares de pessoas a fugirem das suas casas, deixando tudo para trás, excepto o medo.
Dados partilhados pelo governo indicam que, até 2022, mais de um milhão de pessoas haviam sido deslocadas internamente. Hoje, em 2025, cerca de 540 mil pessoas continuam deslocadas, com mais 24 mil forçadas a fugir recentemente devido à intensificação dos ataques. A maioria busca refúgio em distritos mais seguros dentro da própria província ou nas províncias vizinhas, como Nampula e Niassa.
Hoje, oito anos depois, o cenário ainda se assiste em pequenas proporções nos distritos de Mocímboa da Praia, Macomia, Muidumbe, Meluco e Quissanga respectivamente.
Diante da tragédia prolongada, milhares de jovens viram suas vidas virar cinzas. Deixaram de ser estudantes, aprendizes, trabalhadores ou até mesmo adolescentes comuns para se tornarem “deslocados”.
Recebidos e espalhados na província de Nampula, capital do norte de Moçambique, alguns no Centro de Deslocados e outros pela cidade, bairros e distritos, esses jovens tentam refazer suas vidas. Alguns conseguiram estudar e apostaram em cursos de curta duração do saber fazer entre traumas e sonhos que achavam que não fossem concretizar.
É nesse cenário de luz e esperança que a equipe do Ikweli encontrou os protagonistas desta reportagem. Como é o caso de Domingos Carlos, de 23 anos de idade, que guarda na memória episódios tristes relacionados com a perda do padrasto e do tio nas mãos de grupos armados no distrito de Macomia.
Com seu irmão de apenas 6 anos de idade nas costas fugiu para as matas, local onde ficou por cinco dias, separados da mãe durante a fuga.
“Eles apareceram quando eram quatro horas, quando a minha mãe estava a tentar arrumar algumas capulanas para fugirmos, ouvimos mais tiros, afinal já estavam perto, mataram meu padrasto e meu tio. Eu peguei no meu irmão mais novo e fugimos para o mato, local onde ficamos durante cinco dias. E lá encontramos um homem com seus dois filhos e um deles era bebé de seis meses. O senhor estava a alimentá-lo com pedaços de cana, ou seja, (ele chupava a cana e o suco jogava na boca do filho) e mandioca porque não havia mais nada, quando questionei sobre a mãe do bebe ele disse que tinha saído para o poço quando os insurgentes apareceram”.
Dalton dos Santos, de apenas 23 anos de idade, carrega no olhar e no seu semblante marcas que não se apagam por ter visto o seu melhor amigo de infância decapitado em 2020, durante um ataque de insurgentes no distrito de Muidumbe, província moçambicana de Cabo Delgado, norte do país.

Com a voz pesada e trémula, Dos Santos revelou ao Ikweli que sempre lembra do momento, com lágrimas que se atrevem a cobrir o seu rosto.
“Eu vi o meu melhor amigo com a cabeça separada do corpo. Entrei e choque pois não acreditava no que estava a ver. Até hoje vejo a última imagem dele e não consigo falar desse assunto sem deixar cair lagrimas (…), acho que nunca vou superar”.
O jovem lembra ainda do dia em que tudo aconteceu, 7 de Abril de 2020, Dia da Mulher moçambicana, onde enquanto umas celebravam o dia, para outras foi de extrema angústia entre o medo de morrer e a vontade de encontrar um espaço aonde podiam se deslocar.
“Os terroristas atacaram a vila no dia 7. Todos nós fugimos para o mato e lá ficamos por quatro dias. No quinto dia regressamos a vila e já não tinha nada, apenas corpos no chão”.
Perante a situação o jovem conta como conseguiu fugir com o seu irmão de apenas seis anos no colo para o mato, local onde encontrou refúgio durante cinco dias.
“Ainda me pergunto como consegui escapar. Eu estava com o meu irmãozinho, corri, corri com ele nas costas como nunca e acabamos nos separando da nossa mãe. Fomos até uma machamba onde ficamos por cinco dias”.
Perante a situação, a nossa fonte contou que a única solução era sair da província, com a sua família. “Conseguimos sair do distrito para a província de Nampula. A nossa estadia foi muito difícil. Mas com o andar do tempo conseguimos nos integrar”.
Balcina Bernardo, de 20 anos de idade, natural de Mocímboa da Praia, é outra jovem que teve que sair de Cabo Delgado devido a instabilidade que assola aquela região desde outubro de 2017.

A jovem explicou que mesmo protegida pelos pais para não ver corpos estendidos na rua como se de mercadoria se tratasse, não escapou do trauma que vive dentro dela até hoje.
“Fui protegida pelos meus pais para que não víssemos as cenas de morte, mas ouvíamos tudo. Mesmo sem ver, o coração sente. Não há como esquecer”.
Já em Nampula, local onde encontrou refúgio, a vida não foi fácil, pois a reintegração trouxe para si e sua família novos desafios, tais como discriminação, barreiras culturais, dificuldades financeiras.
“Chegamos sem nada, apenas com as roupas que vestíamos. Dormimos semanas em capulanas, comendo o pouco que nos davam, minha mãe andava de casa em casa para pedir esmola. Parei de estudar na altura”.
Do conflito à Certificados de esperança
Foram momentos de terror, de correr pela vida, de esconder-se no mato com fome e medo, de perder família, amigos e a própria infância. Mas hoje, os três jovens aos poucos começaram a reencontrar sentido na vida, apesar das memórias que nunca os abandonarão.
Pois fazem parte de um grupo de 75 jovens, dos quais 50 são deslocados de Cabo Delgado que participaram de cursos técnico profissionais de quatro meses nomeadamente, pedreiro, serrilharia e carpintaria.
Os mesmos tiveram a oportunidade de graduar e receber seus certificados, na última quinta-feira (17), pelo Instituto Polivante de Marrere que, através da Organização Internacional do Trabalho (OIT), no âmbito do projecto “Projeta Jovem”, conseguiram encontrar novas razões para acreditar num futuro possível.
“Hoje sou formada em matérias práticas de carpintaria. Fui selecionada para tal, foram quatro meses de aprendizado e agora faltam mais dois de estágio. Com essa formação me sinto capaz de seguir em frente e ajudar a minha família”, afirmou Balcina.
Após a inscrição, Dalton continuava incrédulo, pois não acreditava que seria selecionado para fazer o curso de pedreiro. “Por várias vezes tentei me inscrever nos vários centros, mas nunca fui selecionado, por isso quando me ligaram pulei de alegria. Hoje estou aqui, me formei em quatro meses e me sinto pronto e capacitado para o mercado de trabalho”.
Quem igualmente se sente pronto para migrar para o mercado do empreendedorismo é Domingos dos Santos, capacitado no curso de carpintaria.
As suas estórias são diferentes, mas o ponto de chegada é o mesmo, a esperança. São jovens que trocaram as armas do medo pelas ferramentas do trabalho. Que sonham com uma vida pacífica, mesmo com as cicatrizes que o tempo ainda não conseguiu apagar.
OIT quer formar mais jovens deslocados
Para o efeito, lançou recentemente um Guia de Coesão Social dedicado a jovens deslocados que será integrado nos centros de formação profissional das três províncias da região norte de Moçambique. Trata-se de um documento que não se limita a ensinar ofícios, mas procura reconstruir a autoestima, a dignidade e os laços sociais quebrados pela guerra.
É neste contexto que a OIT, em parceria com instituições nacionais, está a implementar o projecto “Projecta Jovem”, uma iniciativa que visa capacitar jovens deslocados através da formação profissional e da promoção do trabalho decente. Até o momento, a organização apoiou 12 centros de Ensino de Formação Técnico Profissional nas três províncias do Norte, onde foram formados 3.591 jovens, destes 1.877 apoiados a conseguir emprego.

De acordo com o director geral da Organização Internacional do Trabalho (OIT), Wellington Chibebe, os jovens deslocados de Cabo Delgado são os que mais enfrentam dificuldades no acesso ao emprego, uma situação que contribui para o aumento da pobreza.
Por isso, entende ser urgente munir os centros de formação profissional de ferramentas que possam promover capacitações cada vez mais inclusivas, sensíveis ao género.
“Os jovens deslocados enfrentam grandes dificuldades para encontrar trabalho decente, não têm redes de apoio, carecem de representação nas decisões e acabam por ser excluídos da economia formal o que aprofunda a pobreza e a marginalização. Para reforçar ainda mais a convivência pacífica e reduzir a marginalização, foi adotado o guia de Coesão Social. Este instrumento importante promove a inclusão, fortalece a resiliência das comunidades e apoia o desenvolvimento a longo prazo, orientando os esforços de educação e formação de forma coordenada”.
Enquanto isso, Governo quer kits de autoemprego
O governo da província de Nampula, através do director dos Serviços Distritais Educação, Juventude e Tecnologia, Silvério Canate, congratula a iniciativa, no entanto insta aos parceiros a apostar igualmente na distribuição de kits por forma a que os jovens possam colocar em prática o seu aprendizado.
“Nas próximas vezes na elaboração de projectos era melhor que também contemplassem um kit para cada estudante”.Vale realçar que esta é a terceira edição de graduação do projecto “Projecta Jovem” que teve o seu início em 2023 e é implementado pela OIT através do Instituto Polivalente de Marrere com o apoio financeiro do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola no valor de 4 milhões de dólares. (Ângela da Fonseca)





