

Nampula (IKWELI) — A recolha e comercialização de resíduos sólidos estão a ajudar antigos reclusos, na cidade de Nampula, a reconstruir as suas vidas, sustentar as famílias e afastar-se da criminalidade. Entre dificuldades económicas, preconceito e desconfiança social, estes homens encontraram no lixo uma fonte de rendimento e uma oportunidade para recomeçar.
Nelson da Silva Vieira, de 35 anos, é um deles. Depois de um passado marcado por roubos e sucessivas passagens pela prisão, decidiu abandonar a criminalidade e dedicar-se à comercialização de resíduos sólidos para sustentar a esposa e os três filhos.
Em declarações ao IKWELI, Vieira contou que a experiência na Penitenciária Regional de Nampula o levou a reflectir sobre as consequências das suas escolhas, sobretudo depois de passar mais de três anos detido sem receber visitas de familiares.
“Antes, a minha vida era roubar, na verdade, por causa das amizades. Não há cadeia da cidade de Nampula que eu não conheça. Mas, quando cheguei à Penitenciária Regional, sofri muito. Fiquei mais de três anos e ninguém da família vinha visitar-me. Depois de muito tempo, sentei-me e reflecti que roubar não é boa coisa. Por isso, prefiro vender lixo e não roubar”, relatou.
Depois de sair da prisão, ouviu falar da compra e venda de resíduos sólidos e decidiu juntar-se a outros jovens que já desenvolviam a actividade na cidade. O que começou como uma forma de garantir a sobrevivência acabou por se tornar a sua principal fonte de rendimento.
Actualmente, além de vender resíduos, também compra material recolhido por outras pessoas, numa tentativa de consolidar o negócio e assegurar o sustento da família.
“Agora, estou aqui. Primeiro, comecei a vender e, neste momento, também estou a comprar lixo. Pessoalmente, não quero saber mais da criminalidade, porque destrói a vida. Tenho a minha esposa e os meus filhos, que sustento através destes mesmos lixos. Não digo que estou muito bem, mas a minha vida não é como antes, quando vivia só de favores ou de roubo na rua”, afirmou.
A luta para recuperar a confiança
Apesar da mudança, Vieira reconhece que abandonar a criminalidade não significou recuperar imediatamente a confiança das pessoas à sua volta. Até os próprios familiares duvidaram da sua decisão de deixar para trás a vida que levava, uma situação que, segundo conta, lhe provocava tristeza.
Hoje, diz estar determinado a manter-se afastado do crime e aconselha outros jovens a procurarem actividades que lhes permitam obter rendimento sem recorrer ao roubo.
“Mesmo a minha família nunca acreditava que eu tinha decidido deixar de ser bandido, e isso deixava-me muito triste. Hoje, não penso em roubar os bens de ninguém, porque sei que as pessoas estão cansadas. Conheço amigos que foram queimados por causa de roubar”, contou.
O antigo recluso considera que a possibilidade de obter rendimento através do próprio trabalho é uma alternativa à criminalidade, mesmo quando os ganhos são modestos.
“O meu conselho é que os jovens que fazem isso abandonem essa vida e procurem qualquer coisa para fazer, porque aprendi que o crime não compensa. Eu já jurei que não vou entregar a minha vida por causa de uma motorizada ou de um telefone. Nunca vou fazer isso”, declarou.
Do estigma à sobrevivência
A experiência de Nelson é também partilhada por Manuel Brito, que conta ter vivido durante muito tempo sem estabilidade financeira, dependendo de outras pessoas para conseguir bebidas alcoólicas e procurando lugares na rua onde pudesse permanecer.
Segundo Brito, a descoberta do negócio de resíduos sólidos ajudou-o a reduzir as dificuldades e a recuperar alguma estabilidade. Actualmente, consegue pagar uma casa arrendada no bairro onde vive e afirma não sentir vergonha de trabalhar na recolha e comercialização de lixo.
Embora reconheça que continua a enfrentar dificuldades económicas e mantenha o consumo diário de bebidas alcoólicas, considera que a diferença está em conseguir sustentar-se com o dinheiro que ganha através do próprio esforço.
“Agora, já não estou naquela situação. Até agora, bebo, sim, todos os dias, mas gasto o meu próprio dinheiro, ganho com o meu suor. No bairro, tenho casa. Por isso, a venda de lixo já mudou um pouco a minha vida, apesar de continuar a ter dificuldades, como outras pessoas”, afirmou.
Brito diz que, por vezes, a sua presença nas lixeiras leva algumas pessoas a confundi-lo com alguém que vive na rua. Ainda assim, não considera a actividade motivo de vergonha, por entender que o trabalho lhe permite garantir o sustento sem prejudicar ninguém.
“Quando alguns me vêem na lixeira, podem pensar que sou menino da rua, mas não sou. Não sinto vergonha, porque não estou a roubar ninguém e tenho alguém em casa que me espera para tirar sabão”, declarou.
Dificuldades numa actividade de sobrevivência
Apesar de constituir uma fonte de rendimento para pessoas com poucas alternativas de emprego, a compra e venda de resíduos sólidos não está isenta de dificuldades.
Os catadores apontam situações que consideram injustas por parte de alguns compradores como um dos problemas que enfrentam no exercício da actividade, embora continuem a ver neste negócio uma oportunidade para gerar rendimento e assegurar a sobrevivência.
As histórias de Nelson Vieira e Manuel Brito mostram como uma actividade frequentemente associada à marginalidade pode representar, para quem a exerce, uma oportunidade de reconstrução pessoal e de sustento familiar. Contudo, as dificuldades económicas, o preconceito e a falta de confiança social continuam a fazer parte do percurso de quem procura recomeçar depois da prisão. (Malito João)
INCLUSÃO SOCIAL
ADEMO enfrenta dificuldades financeiras para fabricar meios de compensação em Nampula
Nampula (IKWELI) — A Associação dos Deficientes Moçambicanos (ADEMO), na sua delegação provincial de Nampula, enfrenta dificuldades financeiras para assegurar o fabrico de meios de compensação destinados a pessoas com deficiência física, entre os quais cadeiras de rodas, triciclos, muletas e sandálias adaptadas.
A situação compromete a continuidade desta actividade, que constitui uma fonte de rendimento para pessoas com deficiência envolvidas na produção e reparação destes equipamentos, essenciais também para a mobilidade e a autonomia dos seus utilizadores.
Em entrevista ao IKWELI, o secretário executivo provincial da ADEMO em Nampula, Ali Afique, explicou que a associação chega a passar mais de dois meses sem receber encomendas para o fabrico de meios de compensação, uma situação que limita a geração de receitas.
Segundo o responsável, a associação recebe tanto pedidos de reparação de equipamentos danificados como encomendas para a produção de novas cadeiras de rodas e triciclos. No entanto, a realização destes trabalhos depende da disponibilidade de clientes e de recursos para adquirir a matéria-prima.
“Algumas pessoas com deficiência trazem as suas cadeiras danificadas para reparação, mas também recebemos encomendas para o fabrico de cadeiras de rodas, dependendo da organização. Pedimos apenas uma contribuição para a aquisição do material necessário ao fabrico das cadeiras de rodas e dos triciclos destinados às pessoas com deficiência”, explicou Afique.
O dirigente reconheceu que a procura continua reduzida, num contexto em que os custos de produção representam um desafio para a associação e para os potenciais beneficiários.
“Não temos tido muita procura por parte dos clientes. O fabrico de uma cadeira de rodas custa-nos 19 mil meticais, enquanto o de um triciclo custa 35 mil meticais, dependendo do material utilizado”, afirmou.
Afique acrescentou que a ADEMO depende actualmente das receitas geradas pelas suas próprias actividades, uma vez que não dispõe de um parceiro que assegure o financiamento das despesas institucionais.
Para além do fabrico e da reparação de meios de compensação, a associação desenvolve actividades de alfaiataria e sapataria, procurando diversificar as fontes de rendimento e criar oportunidades económicas para pessoas com deficiência.
Estas iniciativas visam contribuir para o sustento das famílias, promover a autonomia financeira e reforçar a participação económica das pessoas com deficiência, num contexto em que a falta de recursos continua a limitar a capacidade de produção da associação. (Virgínia Emília)






