Nampula (IKWELI) – A cidade de Nampula acolheu, na última sexta-feira (23), o lançamento da antologia Vozes do Ensino: Professores em Reflexão, uma iniciativa da Associação Nacional dos Professores (ANAPRO) que procura dar visibilidade às preocupações da classe docente e propor soluções para os desafios da educação em Moçambique.
A obra reúne 44 autores de diferentes pontos do país, que apresentam reflexões sobre as condições de trabalho dos professores, as políticas educativas e os problemas que afectam o processo de ensino e aprendizagem.
Famas Redol Arone, coordenador da antologia, explicou que a iniciativa surgiu da necessidade de dar voz aos profissionais responsáveis pela formação de médicos, polícias, escritores e outros quadros da sociedade, permitindo-lhes expor as dificuldades que enfrentam nas comunidades onde trabalham.
“Na antologia encontram-se destacados vários problemas, sendo os principais relacionados com as condições das salas de aula, uma vez que muitos professores leccionam debaixo de árvores, sem material de trabalho adequado. Alguns apontam atrasos no pagamento das horas extraordinárias, assim como questões de regionalismo. Há professores que saem da região Centro para trabalhar no Sul, por exemplo, e enfrentam desafios de integração com os próprios alunos”, afirmou Arone.
Segundo o coordenador, estas dificuldades afectam negativamente o processo de ensino e aprendizagem, contribuindo para a desmotivação dos professores e comprometendo o aproveitamento pedagógico dos alunos.
Outro problema abordado na obra é a passagem automática de classe. De acordo com Arone, alguns professores contestam orientações que, segundo relatam, favorecem a transição dos alunos mesmo quando estes não demonstram as competências necessárias, com o objectivo de cumprir percentagens de aprovação estabelecidas pelas direcções.
A antologia apresenta igualmente propostas para melhorar o sistema educativo, incluindo a revisão da duração dos currículos, a distribuição gratuita e atempada dos livros escolares e a produção de materiais didácticos que reflictam a realidade moçambicana.
“Alguns professores propõem a adopção de um currículo com maior duração, porque, geralmente, os currículos mudam de cinco em cinco anos. Há também quem defenda que os livros cheguem aos alunos e sejam acessíveis, uma vez que, nas grandes cidades, se verifica a comercialização de livros do ensino primário que deveriam ser distribuídos gratuitamente. Outros propõem a produção de livros que tenham em conta a realidade moçambicana”, explicou Arone.
Por sua vez, Agi Padre, um dos autores da antologia e representante da província de Nampula, defendeu que os professores devem acompanhar as transformações sociais e tecnológicas, mantendo uma postura de reflexão e actualização permanente.
“Há necessidade de não ficarmos parados no tempo. É preciso reflectir constantemente sobre as dinâmicas actuais. Hoje, o conhecimento está à distância de um clique, e o professor deve acompanhar as mudanças que acontecem. Tem de estar dentro daquilo que se passa na sociedade”, realçou.
Já Arnaut Naharipo, coordenador regional da ANAPRO, afirmou que a publicação nasceu da convicção de que os professores devem assumir um papel activo na identificação de problemas e na procura de soluções para o sector da educação.
“Os textos falam de tudo aquilo que é ignorado, mas também legitimam a nossa consciência sobre os problemas que assolam a nossa educação”, sublinhou.
Nampula é a segunda província a acolher o lançamento da antologia, depois da apresentação inicial na província de Maputo. O evento contou com a participação de professores, representantes do sector da educação e membros do público. (Francisco Mário)

