No ensino superior Moçambique está abaixo dos padrões exigidos a nível do continente

Nampula (IKWELI) – O coordenador do Conselho Nacional de Avaliação da Qualidade do Ensino Superior (CNAQ), Maireles Ribeiro, disse, na sexta-feira (17), na cidade de Nampula, que Moçambique enfrenta desafios na qualificação académica quando comparado com outros países do continente, situação que dificulta a inserção de alguns estudantes em instituições de ensino internacionais.


Ribeiro falava durante a auscultação para adesão aos padrões globais de qualificação do ensino superior. “A auscultação decorre através de um facto que é verificável, que há crescente mobilidade académica, onde as projeções da UNESCO mostram que mais há mais de 235 000 000 de estudantes no ensino superior dos quais 64 000 000 são estudantes internacionais, número que veio a duplicar nos últimos vinte anos e se espera ainda o aumento nas próximas décadas onde cerca de 50% estudam fora das suas regiões de origem e abre grande desafio no âmbito das qualificações,” explicou o coordenador do CNAQ.


“Hoje em dia verifica-se uma enorme mobilidade académica, pois em algumas vezes temos moçambicanos que completam, por exemplo, a licenciatura e querem prosseguir no estrangeiro e, entretanto, há dificuldades daquilo que são estes níveis obtidos,” acrescentou ainda a fonte.


Ribeiro esclareceu que em Moçambique existe um quadro de qualificações que está sendo desenvolvido com vista a igualar as qualificações às exigências regionais. “Estamos aqui para garantir a sua ratificação porque no nosso ordenamento jurídico, os tratos e acordos internacionais, validamente aprovados e ratificados vigoram após a sua publicação oficial, o que significa dizer que ao nível diplomático, o Estado moçambicano, o governo pode ter aceitado, mas essa aceitação depende aquilo que é a ratificação pela Assembleia da República,” disse, esclarecendo que, “se as qualificações encontram essas proximidades, referenciação, então garante-se aquilo que é a compatibilidade e isto permite que um estudante que tenha obtido qualificações em Moçambique possa prosseguir com outros níveis de qualificações em outras latitudes,” garantiu Ribeiro.


Por seu turno, Custódio Tamele, em representação da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), disse na ocasião que a qualificação académica deve ser uma ponte entre continentes e sublinhou que “a grande preocupação da UNESCO, não é só reconhecer as qualificações, mas criar um ecossistema de confiança no ensino superior porque havendo confiança, aumenta a mobilidade, irá melhorar a cooperação científica, e o crescimento da internacionalização.”

Académicos querem que mudanças reflitam realidade moçambicana
Amarildo Gussule, docente universitário e investigador, assegurou que existem desafios para a qualificação devido aos custos operacionais que advêm da implementação de cada curso. “Hoje, não temos aqueles resultados que esperávamos, estamos num processo e temos que reconhecer esta situação, mas tudo está a ser feito para a melhoria de ensino. Aconselho para que seja aprovada esta convenção, mas antes procure-se saber quais são os padrões internacionais que se pretendem, porque neste preciso momento temos impedimento de docentes com nível de licenciatura a lecionarem no ensino superior, mas em muitas instituições isso acontece porque estão no processo de mudança,” disse Gussule.


“Corremos o risco de simplesmente quererem docentes com o nível de doutoramento e ai haverá muitos constrangimentos, porque em nenhuma instituição de Moçambique tem docentes completos com nível de doutoramento, temos carência de docentes qualificados com nível de mestrados e doutoramento, principalmente nas áreas técnicas,” realçou o nosso entrevistado.
Na mesma senda, o docente universitário José Faquira entende que antes de pensar nas aderências dos pactos internacionais sobre a qualidade, é necessário pensar num trabalho interno do Estado moçambicano tendo em conta as várias dificuldades de qualidade básicas das instituições de ensino desde o nível primário, secundário pois são o suporte das qualidades dos estudantes universitários.
“Não basta aderirmos as convenções e os pactos internacionais para termos acesso as portadas das outras latitudes, para que depois a nossa representação não seja digna. Devemos aderir sabendo qual será a nossa dignidade, temos que estar presentes em outros espaços dignamente representados, é preciso que nos sintamos preparados para estarmos nessa aderência,” exortou Faquira.
À semelhança do Gussule e Faquira, o docente universitário Óscar Namuholopa assegurou que o instrumento será de importância na medida em que vai integrar Moçambique a nível regional e global no que tange a integração dos seus quadros e ao nível de competitividade do ensino superior.

Por outro lado, “isso pode nos trazer alguns desafios na medida em que esses instrumentos foram concebidos olhando determinadas realidades alheias a Moçambique, o desafio é de saber se as realidades moçambicanas estarão respeitadas aos níveis desses instrumentos globais, se não, seremos obrigados a observar estreitamente o que estes instrumentos regem sem observar os nossos valores culturais que devem ser lecionados ao nível das nossas instituições do ensino superior,” argumentou Namuholopa. (Francisco Mário)

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