Docente universitário alerta para uma nova colonização em Moçambique

Nampula (IKWELI) – O docente universitário Edson Teresa alerta para o risco do desaparecimento das línguas maternas moçambicanas devido a crescente valorização e comercialização das línguas estrangeiras nas universidades, por isso, como forma de evitar consequências futuras, defende a adopção de medidas para a sua preservação e valorização.

De acordo com Edson Teresa, alguns estudos demonstram que Moçambique possui uma grande diversidade de línguas maternas e que a preservação de algumas delas, através das universidades, representaria um grande avanço.

“Corremos o risco de, gradualmente, esquecermos totalmente os nomes dos objectos nas línguas locais. Daqui a 100 anos, as línguas maternas poderão deixar de ser faladas. Um exemplo concreto é que, em 2017, a língua portuguesa triplicou o número de pessoas que a têm como língua materna”, disse.

Segundo o docente de Linguística na Universidade Rovuma (UniRovuma), por detrás da expansão das línguas estrangeiras nas universidades está o interesse comercial. “Tudo é mercantilismo. Cada um está a vender o seu peixe. A China está a fazer o mesmo ao introduzir a sua língua no solo moçambicano. Hoje, muitos jovens estão a correr para as universidades para estudar mandarim e, posteriormente, trabalharem nas lojas chinesas, agravado pela falta de emprego. Portanto, corremos o risco de as nossas línguas integrarem a lista das línguas mortas”, afirmou.

Edson Teresa acrescentou que a colonização contribuiu para a desvalorização das línguas e culturas africanas. “Nós fomos vendidos como mercadorias e difundiu-se a ideia de que a língua bantu e os africanos eram inferiores ou diferentes. Essa imagem foi propagada e, ainda hoje, muitos que ouvem falar de África pensam que se trata de um único país e que o africano é algo insignificante, porque tudo o que o colono fez esteve de acordo com os seus próprios objetivos”, realçou.

Segundo a fonte, a Europa colonial difundiu a ideia de que o negro não possuía civilização, o que, na sua perspetiva, não correspondia à realidade.

“A civilização do negro era apenas diferente da europeia. Para nós, africanos, toda a comunidade é família, há tios, tias e avós, dependendo da faixa etária. Por isso, devemos tirar o casaco europeu e procurar aperfeiçoar aquilo que é nosso, pensar de acordo com a nossa realidade, porque o que temos atualmente não espelha aquilo que realmente somos”, reiterou.

O entrevistado defendeu a necessidade de se trabalhar para evitar o desaparecimento das línguas nativas “Devemos pensar como africanos, porque a primeira coisa que o colono faz quando chega a uma determinada região é apagar os seus costumes e, de forma particular, a sua língua, para melhor dominar a população. No tempo colonial, por exemplo, a pessoa nem podia falar a sua própria língua; tinha de aprender português para ser considerada um assimilado”. (Francisco Mário)

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