
Nampula (IKWELI) – O Professor Doutor em Ciências da Comunicação e Padre Cantífula De Castro, alertou recentemente, em Nampula, para o gradual desaparecimento dos valores morais e culturais do povo macua, fenómeno que atribui a influência do multiculturalismo e a crescente exposição das novas gerações ao mundo digital.
Segundo o académico, a cultura representa o conjunto de valores, costumes, hábitos e práticas que caracterizam um povo e orientam a sua forma de viver. No caso dos macuas, esses valores têm sido transmitidos de geração em geração, mas enfrentam actualmente vários desafios para a sua preservação.
“O multiculturalismo contemporâneo trouxe novas realidades que enfraquecem a preservação da cultura. O povo macua não vive isolado, está inserido num contexto global onde recebe influências de outras culturas e práticas sociais. Isso faz com que muitos dos valores preservados pelos nossos antepassados já não tenham o mesmo peso,” afirmou.
Para Padre Cantífula De Castro, um dos principais problemas é a perda da identidade cultural entre os jovens, muitos dos quais deixam de valorizar a sua origem por associarem a modernidade ao abandono dos costumes tradicionais.
“Hoje existe um dilema entre manter os valores herdados dos antepassados e aderir aos novos valores trazidos pela globalização. Infelizmente, muitas das novas gerações não conseguem aceitar nem viver os valores das gerações anteriores,” explicou.
O especialista destacou ainda a importância da língua Emakwa como elemento fundamental da identidade cultural. Na sua opinião, a perda do domínio da língua contribui para o enfraquecimento da cultura.
“Uma cultura sustenta-se, acima de tudo, na sua língua. Muitos jovens já não falam nem conhecem a língua macua. Sem conhecer a língua, torna-se difícil compreender e praticar os valores culturais do seu povo,” disse.
Padre Cantífula igualmente defendeu que a preservação cultural exige um envolvimento tanto das gerações mais velhas como das mais novas. Enquanto os mais velhos devem transmitir os conhecimentos tradicionais, os jovens precisam demonstrar interesse em aprender e conhecer as suas raízes.
O académico também alerta para a perda do conhecimento sobre características fundamentais da organização social macua, como o sistema matrilinear, que distingue este povo de outros grupos culturais.
“Um povo sem cultura é um povo sem identidade. Quando deixamos de preservar os nossos valores, tornamo-nos vulneráveis à assimilação de valores externos sem termos uma base sólida daquilo que somos,” afirmou.
Aliado a estes desafios, Cantífula De Castro considera que o multiculturalismo não deve ser visto como uma ameaça, mas sim como uma oportunidade de enriquecimento cultural, desde que os valores fundamentais sejam preservados.
“Quando um povo preserva a sua cultura, cresce, fortalece a sua identidade, é reconhecido e valorizado. Mas isso exige que os próprios membros dessa cultura sejam os primeiros a valorizá-la,” sublinhou.
Por sua vez, o actor teatral Crimildo Sabonete defende que a cultura se resume aos valores, costumes e hábitos transmitidos entre gerações, sendo fundamental manter vivas as práticas tradicionais.
“Preservar a cultura significa não abandonar os ensinamentos dos nossos antepassados. É importante investigar e conhecer melhor a nossa história para transmitir esse conhecimento às futuras gerações,” afirmou.
O actor explicou que utiliza o teatro como ferramenta de educação cultural, divulgando mensagens sobre a valorização da identidade macua através de peças apresentadas em rádios, televisões e espetáculos ao vivo.
Crimildo Sabonete manifestou preocupação com algumas mudanças observadas nos ritos de iniciação, considerando que, em certos casos, já não cumprem plenamente o seu papel de transmitir valores de respeito e responsabilidade.
Segundo ele, a preservação da cultura pode também contribuir para o desenvolvimento do turismo e da economia local, ao permitir que visitantes conheçam a gastronomia, os costumes e as tradições da região.
“Quando os visitantes conhecem e apreciam os nossos hábitos e costumes, tornam-se divulgadores da nossa cultura. Isso pode atrair mais turismo e contribuir para o desenvolvimento do país”, concluiu esta fonte. (Fátima João)