Nampula (IKWELI) – Com relatos de situações de Islamofobia no mundo e registo de casos alarmantes na Inglaterra, Espanha e Franca, religiosos, académicos e cidadãos na cidade de Nampula alertam a necessidade de serem criados mecanismos no sentido de evitar que a população moçambicana entre na onda de odiar a comunidade muçulmana, numa altura em que se debate o uso de véu islâmico (hijab) no bilhete de identidade, por exemplo.
O delegado provincial do Conselho Islâmico de Moçambique (CISLAMO) na província de Nampula, Sheikh Adulmagid António, admite que no país, ainda não foram registados casos ligados a islamofobia, apesar de os terroristas serem associados aos muçulmanos, quem os praticantes desta religião esclarecem que os mesmos se aproveitam dela para lograr seus intentos, mas mesmo assim alerta que tudo deve ser feito para não se chegar a prática.
Para a fonte, Islamofobia não deve fazer parte dos cidadãos que professam diferentes religiões, porque de uma forma mina a convivência de qualquer povo, sendo necessário que as pessoas tomem consciência de viverem na diferença.
“É errado associar o terrorismo em Cabo-Delgado e uma parte da província de Nampula com a comunidade muçulmana, existem agendas obscuras. Estamos num mundo em que todos os cantos do mundo estão virados para os muçulmanos, razão pela qual incitem as pessoas para odiá-los, por isso nós repudiamos, porque o islão nunca foi violento, mas quando se junta a religião islâmica com outros interesses, é aí onde sai o radicalismo,” realçou o Sheikh
Por sua vez, o Professor Doutor Felizardo Pedro entende que a Islamofobia é o medo que as pessoas têm pela religião muçulmana, e este medo pode ter algumas teorias de certos grupos que procuram usar a religião como fundamento das suas acções com motivos que não são religiosos, que podem ser políticos ou económicos camuflando estes motivos na religião muçulmana.
Segundo a fonte, esses grupos se escondem na religião para mobilizar os outros, fundamentarem aquilo que não é fundamental e as pessoas começam a olhar negativamente a religião islâmica.
“Ao longo da história, as pessoas usavam as religiões para atingirem os seus intentos enquanto escondem as reais causas e por isso a religião muçulmana é olhada de forma negativa, aconteceu com o cristianismo na idade medieval e acontece hoje para as pessoas resolverem seus problemas económicos, o que constitui algo muito negativo usar uma determinada religião para assuntos obscuros,” disse Nicula.
O académico aponta os ataques terroristas como exemplo do mau uso da religião para seus próprios fins, porque sabem que a religião actua diretamente na psique das pessoas e facilmente as pessoas são mobilizadas pensando que vão encontrar a salvação.
“Se nós temos um muçulmano e tem como fundamento o islão, não faz sentido que o muçulmano tenha ódio dos outros que não praticam correctamente como ele quer. Porém é necessário ter uma sensibilidade muito forte em relação a clareza do que são os fundamentos das religiões e isso é uma tarefa dos líderes religiosos, clarificar o que é o islão e isso é muito importante para que os crentes saibam fazer distinção entre o islão instrumentalizado e islão que tem em vista a salvação das almas, que trata da vida ética e moral. Quando isso fica claro, facilmente podem ser identificadas as pessoas mal-intencionadas que querem fazer uso da religião para fins próprios,” sublinhou o nosso entrevistado.
Ainda de acordo com a fonte, os que instrumentalizam as pessoas encontram facilidade quando encontram mentes ignorantes, ou seja, os que não conhecem o verdadeiro significado do islão sendo imperioso o conhecimento profundo para conhecer a fé que professam.
Para o cidadão Juvenal Nkugavila, também residente em Nampula, Islamofobia é idêntica a segregação, um efeito de separar, isolar ou excluir indivíduos ou grupos sociais com base em raça, classe, religião, género ou origem, limitando acessos a recursos ou direitos. O facto de ser segregação, adverte, deve ser severamente combatido.
“Portanto, deve se evitar o máximo a descriminação das pessoas e uso da religião para a política, porque esse é o maior erro que acontece no mundo actual, porque quando você usa a religião e incorpora na política dá na confusão que tem acontecido no mundo. Quando os políticos começam a usar a religião para justificar algumas atrocidades, o risco é muito maior, porque têm muitos seguidores do Islão, tanto como os cristãos,” entende Nkugavila.
Falando durante um evento de combate à Islamofobia, o Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, instou os governos de todo o mundo a trabalharem em conjunto para erradicar a crescente onda de ódio.
Guterres destaca que, em meio a um cenário de conflitos e instabilidade, milhões de muçulmanos carregam consigo a dor da discriminação. Para o Secretário-Geral, o quotidiano de muitas minorias religiosas é marcado por exclusão, marginalização socioeconómica e vigilância injustificada. (Francisco Mário)
