Nampula (IKWELI) – Moçambique decidiu fazer o que muitos países evitam: liquidar, de uma só vez, a sua dívida junto do Fundo Monetário Internacional. Um gesto que, à superfície, parece corajoso, responsável e até patriótico. Mas quando se rasga o véu da narrativa oficial, o que se revela não é apenas um acto de soberania — é também um espelho das contradições profundas do Estado moçambicano.
Num país onde milhões de cidadãos lutam diariamente contra a pobreza, onde hospitais carecem de meios básicos e escolas enfrentam limitações crónicas, a decisão de canalizar centenas de milhões de dólares para saldar uma dívida externa levanta uma pergunta incómoda: a quem serviu realmente esta prioridade?
Mas há uma dimensão ainda mais silenciosa — e talvez mais grave — desta realidade: o sufoco do sector empresarial nacional.
Empresas moçambicanas, muitas delas prestadoras de serviços ao Estado, encontram-se hoje estranguladas financeiramente. Após fornecerem bens e serviços — desde construção, logística, fornecimento de materiais e apoio técnico — estas empresas aguardam, há meses ou mesmo anos, pelo pagamento das suas facturas. O resultado é devastador: falta de liquidez, incapacidade de honrar compromissos com trabalhadores e fornecedores, e um risco real de falência em cadeia.
É aqui que a contradição atinge o seu ponto mais crítico.
O mesmo Estado que mobiliza recursos para liquidar a dívida com o FMI mostra-se incapaz — ou indisponível — para saldar as suas dívidas internas com o sector privado. Esta realidade gera um sentimento crescente de frustração e injustiça no tecido empresarial, que se vê abandonado por aquele que deveria ser o seu principal garante: o próprio Estado.
Pagar ao FMI é, sem dúvida, um sinal de credibilidade internacional. Mas credibilidade para quem? Para os mercados, para os credores, ou para os empresários nacionais que mantêm a economia em funcionamento?
A verdade nua e crua é que Moçambique não deixou de ser um país endividado. Apenas trocou um credor institucional, visível e exigente, por uma teia mais complexa de dívidas internas e externas, muitas vezes menos transparentes. A dívida não desapareceu — foi apenas rearranjada, silenciosamente.
E há um elemento ainda mais inquietante: o silêncio.
Silêncio das chamadas grandes potências.
Silêncio das instituições internacionais.
Silêncio até de parte da elite nacional.
Num mundo onde se discute o perdão da dívida para países vulneráveis, Moçambique escolheu pagar — sem debate público robusto, sem um consenso nacional claro e, aparentemente, sem garantias de retorno directo para a população.
Este não é apenas um acto económico; é um acto político.
Ao pagar antecipadamente ao FMI, o país pode estar a tentar libertar-se de condicionalismos externos. Mas a que custo interno? Quantas empresas nacionais foram colocadas à beira da insolvência? Quantos empregos estão em risco por falta de pagamentos do próprio Estado?
Governar é escolher. E toda escolha implica renúncia.
Neste caso, a escolha parece ter sido clara: privilegiar a imagem externa em detrimento das urgências internas — sacrificando, pelo caminho, o próprio sector empresarial que sustenta a economia nacional.
Moçambique pode ter conquistado aplausos fora das suas fronteiras.
Mas dentro delas, entre empresários sufocados e cidadãos esquecidos, permanece a pergunta que ecoa com cada vez mais força: quem paga a dívida interna que está a destruir o país por dentro? (Por Luís Vasconcelos – Um Olhar Atento)




