Nampula (IKWELI) – O académico moçambicano Elísio Macamo, professor catedrático na Universidade de Basileia, defendeu, nesta terça-feira (31), na cidade de Nampula, que muitos dos desafios enfrentados por Moçambique resultam não apenas da escassez de recursos, mas sobretudo da forma inadequada como os problemas são formulados.
Macamo falava durante a aula inaugural do ano académico 2026 da Universidade Rovuma (UniRovuma), sob lema “O saber da universidade, relevância e oportunidades em tempos de crise”, onde destacou que o país vive múltiplas crises, desde a violência no norte do país até às intempéries no sul, mas alertou que é preciso questionar se essas situações são apenas crises de recursos ou também crises de pensamento.
Segundo o académico, decisões públicas muitas vezes falham não por falta de vontade ou meios, mas porque partem de perguntas erradas. “Há problemas que persistem porque a questão inicial foi mal colocada”, afirmou.
Como exemplo, citou o programa governamental SUSTENTA, criado para combater a fome. Para Macamo, a iniciativa baseou-se numa definição limitada do problema, centrada na cadeia de valor agrícola, ignorando factores estruturais mais profundos. Recordou ainda estudos clássicos da realidade moçambicana que já apontavam que muitos cidadãos não praticam agricultura por falta de alternativas, e não por ausência de conhecimento ou incentivos.
O professor sublinhou, também, que a política precisa dos académicos não apenas para apresentar soluções, mas sobretudo para ajudar a definir correctamente os problemas. “os técnicos podem ser mais eficazes a resolver questões concretas, mas é fundamental colocar as perguntas certas”, explicou.
No que diz respeito à prevenção de desastres naturais, Macamo observou que a questão não é apenas a falta de informação, mas a ausência de incentivos claros para que as populações ajam atempadamente. Segundo ele, muitas pessoas sabem que estão em risco, mas não dispõem de condições que lhes permitam tomar decisões seguras, como garantias de proteção dos seus bens.
Durante a sua intervenção, o académico destacou ainda o papel das universidades na sociedade. Para além da formação de profissionais, defendeu que estas instituições devem ser espaços de produção de conhecimento e de questionamento crítico “a universidade não existe apenas para transmitir respostas, mas também para formular novas perguntas”, afirmou.
Macamo concluiu sublinhando que a verdadeira sabedoria reside na capacidade de identificar as questões certas, mais do que em encontrar respostas imediatas, reforçando o papel central da reflexão crítica no desenvolvimento do país, daí que a universidade deve interpretar e gerir as situações existentes no sentido pleno da palavra “a universidade é o lugar onde apresentamos a perguntar se estarmos a lidar com questões certas”, recomendou.
Mário Jorge Brito Caetano dos Santos, reitor da UniRovuma, salientou na sua intervenção que o tema convida a universidade a reafirmar o seu papel no contexto nacional e internacional. O reitor falou igualmente dos avanços alçados no ano 2025 que foi marcado por desafios.
Nos avançou destacou da formação dos docentes, da aquisição de novos equipamentos para laboratórios e mobilização de recursos e investimentos para melhorar a qualidade de prestação de serviços. Quanto aos desafios voltou a falar da falta de espaços para acomodação dos materiais laboratoriais.
Em 2026 a Universidade Rovuma começa o ano com 17 000 estudantes de diferentes cursos e pouco mais de 600 docentes ainda que muitos estejam em processo de formação académica. (Texto: Amade Abubacar, Foto: Belto Samuel)
