Dom Inácio Saure pede a Bruxelas para pressionar multinacionais a formar e contratar jovens de Cabo Delgado

Bruxelas (IKWELI) – O presidente da Conferência Episcopal de Moçambique (CEM), dom Inácio Saure, que nesta semana falou no Parlamento Europeu, em Bruxelas, pediu que sejam pressionadas as multinacionais para formarem e contratar jovens locais, de forma a contribuir na solução dos problemas que concorrem para o recrudescimento do extremismo violento na região.

O que considera de pressão económica, o também arcebispo de Nampula, apela a “responsabilidade corporativa,” para que “as multinacionais de Gás e Mineração em Cabo Delgado e Nampula não devem ser o problema, mas sim parte da solução do problema, e devem ser obrigadas a contratar e formar jovens locais (conteúdo local real),” como também a garantia da ajuda humanitária, como “prioridade máxima. Transição da ajuda de emergência para o desenvolvimento resiliente (água, escolas e centros de saúde permanentes).”

Outro pedido de dom Saure tem a ver com a pressão diplomática, no sentido de

“exigir transparência. A UE [União Europeia] deveria pressionar o governo [de Moçambique] para garantir que a ajuda chegue ao destino e para abordar as causas profundas (exclusão, subdesenvolvimento, corrupção e gestão de recursos),” como também o provimento do apoio militar, na “formação, não apenas fornecimento de armas. Apoio à missão da UE (EUTM) focado em Direitos Humanos e protecção de civis, evitando a “mercenarização” do conflito.”

“Em Moçambique, a cruz não é apenas um símbolo de fé, ela tornou-se motivo de perseguição de quem a traz. Com efeito, desde 2021, os insurgentes começaram a lutar sob a bandeira do Estado Islâmico, atacando Missões católicas e forçando as pessoas a converter-se ao Islão. Entretanto, a questão religiosa não parece ser a causa mais importante do conflito. Uma das principais causas da guerra em Cabo Delgado parece serem os interesses de grupos à volta dos recursos minerais. Contudo, a nossa resposta não é o ódio, mas o perdão, o serviço e o amor. Nas Províncias de Nampula e de Cabo Delgado, a Igreja Católica permanece na linha da frente, transformando as suas paróquias em centros de refúgio sem muros blindados, nem seguranças armadas,” recordou o prelado sobre os contornos do extremismo violento no norte de Moçambique, apontando que “acreditamos que a solução do problema de Cabo Delgado e de Moçambique não passa apenas pela via militar, mas pelo desenvolvimento integral da dignidade humana. O vosso apoio, através do programa ‘Hungary Helps’, pode ser uma luz que brilha no fundo do túnel escuro, uma esperança de milhares de pessoas deslocadas e garante que o Cristianismo e a paz continuem a florescer em solo moçambicano.”

Igualmente, a fonte apontou que existe uma realidade invisível, por “embora quase nunca se fale dela, a violência que eclodiu em Outubro de 2017 em Cabo Delgado não terminou. Ela metamorfoseou-se. Enquanto as vilas principais parecemaparentemente seguras, daí a sua sobrelotação com deslocados vivendo em condições deploráveis, o “mato” e as zonas rurais permanecem em disputa, são lugares de morte desumana. Segundo as estatísticas tornadas públicas (os relatos das populações atingidas admitem muito mais), a guerra com epicentro em Cabo Delgado já fez milhões deslocados internos (IDP), como acaba de dizer o Senhor Deputado Gyorgy Holvény e mais de 6.000 mortos!”

E dom Inácio Saure desenha o perfil de algumas pessoas envolvidas

na guerra, afirmando que “não se trata apenas de “inimigo sem rosto” (como foram chamados pelos governantes no início do conflito). São jovens locais radicalizados pela pobreza, a exclusão e combatentes estrangeiros experientes. Estão mais móveis, em células menores, e agora atacam também a província de Nampula (ex: Chipene, onde mataram a religiosa italiana Maria de Copi, em 2022) para dispersar as forças militares,” e que “o perfil dos IDPs (Deslocados Internos): 80% são mulheres e crianças. Nampula acolhe centenas de milhares. Eles não estão apenas em centros formais; a maioria vive em famílias de acolhimento já pobres, o que está a esgotar os recursos da província.”

As outras críticas do arcebispo de Nampula e presidente do CEM tem a ver com as respostas à crise humanitária, como os modelos de abrigo, saneamento e educação que são adoptados. “O modelo de centros de reassentamento está falido. Precisamos de soluções de habitação permanentes integradas nas comunidades locais. Nampula enfrenta surtos cíclicos de cólera devido à sobrepopulação e às condições sanitárias precárias, o que provoca desequilíbrios ecológicos e escassez de recursos. O saneamento básico é uma questão de segurança biológica. Uma geração está a ser perdida. Milhares de crianças deslocadas não têm documentos nem acesso à escola, tornando-se o próximo alvo fácil de recrutamento para os atacantes.”

E a igreja, segundo disse, tem sido o último bastião, com as respostas que tem vindo a prover, que se concentram em apoio psicossocial, distribuição de apoio humanitário e a promoção da coesão social. (Aunício da Silva)

Exit mobile version