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Comunidade que acolhe centro de enchimento em Nampula não tem acesso ao gás

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Nampula (IKWELI) – É meta do governo moçambicano, até 2030, fazer com que 15 milhões de habitantes no país tenham acesso ao gás liquefeito, através do uso de fogões operados com esse recurso natural, de forma a reduzir a pressão sobre os recursos florestais.

Em Moçambique acredita-se que mais de 90% da população recorre ao carvão e outros combustíveis lenhosos para confeccionar alimentos.

O distrito de Nampula, concretamente o posto administrativo de Anchilo, conta com um centro de enchimento de gás, empreendimento inaugurado pelo Presidente da República, Filipe Nyusi, na esperança da massificação do seu uso. A ideia é, também, alargar esta facilidade do uso do gás para as províncias do Niassa e Cabo Delgado.

“Se insistirmos nas botijas grandes, a população não vai aderir. Vi botijas de seis, três quilos e assim sucessivamente. A ser assim, será fundamental para vulgarizar o consumo de gás em Moçambique, o que é importante porque o gás é limpo, saudável e defende a natureza. Ao insistirmos no carvão estamos a destruir a natureza. Usar o gás em Moçambique não é luxo. O fogão a gás é rápido”, disse Nyusi na ocasião.

Estamos em 2023, perto de 7 anos para a meta dos 15 milhões de moçambicanos com acesso ao gás, mas será que essa ambição será alcançada?

Na cidade de Nampula, por exemplo, a procura pelo carvão vegetal tende a aumentar a cada dia, segundo contam os vendedores deste produto no maior centro urbano do norte de Moçambique. Esta situação faz com que haja maior pressão sobre os produtores dos distritos circunvizinhos, como também para nas florestas da província. Se em 2021 um saco de carvão custava perto de 250,00mt (duzentos e cinquenta meticais), actualmente, rondam entre 350,00mt (trezentos e cinquenta meticais) e 700,00Mt (setecentos meticais).

“A introdução de fogão poupa carvão, também este utensílio domestico não constitui ameaça para o nosso negócio de carvão. O movimento dos clientes na verdade depende do salário, porque quando há salário, é normal um dia vender 70 sacos. Quando o mês começa, o negócio fracassa, e dificilmente tem clientes porque cada um já tem rancho feito. Os principais clientes são os funcionários e agentes do estado e das empresas privadas”, conta Amade Jery, vendedor de carvão no bairro Mutauanha.

Mais adiante, Amade Jery, que paga 11 mil meticais para aquisição da licença para movimentar cada carga do distrito de Muecate, 67 quilómetros da cidade de Nampula ao seu depósito, reconheceu haver muita pressão da floresta e não fala de qualquer programa de plantio de novas árvores. O documento permite-lhe transportar três vezes por semana uma quantidade de 240 sacos de 90 kg, uma realidade que está longe de reduzir o impacto negativo de uso da biomassa no património natural de Moçambique.

“Tenho licença para vender carvão, fui solicitar na direcção da Agricultura, e me custa 11 mil meticais, esta licença é uma carga, portanto sete dias, porque fico à espera do camião encher, então cada carga são 11 mil meticais, sempre que renovar. Este carvão sai no distrito de Muecate na comunidade de Nchanche. Nós compramos dos locais, ou seja, também somos clientes de alguns fornecedores. Cada saco lá custa 150 e aqui são 320 com o custo de transporte, um saco de 90 quilos. Eu não sei que tipo de árvores fazem madeira, porque eu nunca fiz queima de carvão”, refere.

Que massificação, que nada…

Enquanto a promoção de uso de gás de cozinha na província de Nampula se faz acreditar pelo discurso governamental suave e encorajador, a verdade é que se está perante uma realidade diferente da narrativa que se faz acreditar em relatórios nacionais, bem como do que fez acreditar pelo mundo a fora. O alto custo de aquisição do gás e de fogões, aliados a ausência de uma política clara na base da realidade do país pode ser um dos motivos do fracasso.

No posto administrativo de Anchilo, distrito de Nampula, por exemplo, onde está localizado a central de enchimento e abastecimento de gás ao mercado da zona norte e que por via da mesma infra-estrutura devia ser fácil a população começar o uso de gás na sua cozinha, a pressão da floresta para carvão e lenha é maior. Na comunidade de Muezia, onde está localizado o depósito de enchimento de gás de cozinha, os residentes pouco sabem sobre o mesmo, mas pior ainda é a falta de informação clara de quando começa a campanha de massificação de uso de gás de cozinha realmente dita na sua comunidade.

“É verdade que temos o depósito desde o ano passado e aquilo em termos de serviço não está alastrado na aldeia, é por isso que ainda não começamos a utilizar o gás de cozinha, só vemos a entrarem carros, mas usar gás de cozinha aqui na aldeia não. O gás de cozinha é muito importante, porque carvão e gás é muito diferente, também o custo entre um e outro recurso diverge e é mais barato o gás. Portanto, se tiver condições, as pessoas que utilizam dizem que o gás é mais económico em relação ao carvão”, confirmou Francisco Nando, casado tradicionalmente, pai de sete filhos, residente perto de 500 metros do depósito de enchimento do gás de cozinha.

E porque a expectativa era maior, Francisco Nando questiona onde pára a ideia de acesso ao gás de cozinha, conforme anteriormente anunciado pelo Presidente da República. “Está a ver, não é? Agora nós como conseguir o gás, não temos a experiência de usar, como podemos conseguir, ir aonde, falar com quem, e os nossos líderes acho que não falaram à população sobre a entrada e funcionamento daquela infra-estrutura”, se posiciona, pedindo “nós precisamos uma loja que vende tudo sobre gás, gostaríamos”.

O sentimento de exclusão no uso de gás de cozinha, também, é partilhado por Favorito Arnaldo, 43 anos de idade, produtor, também residente em Muezia, a cerca de 500 metros do depósito regional, o qual refere ser do gosto da população local, que se começasse a usar fogões a cozinha na sua própria aldeia. “Nós compramos o carvão que vem depois do rio Monapo, porque na verdade aqui nos arredores acabaram as árvores, aqui só tem cajueiro e cajueiro não dá para carvão, porque não leva tempo, usamos árvore simples, não aquele que faz madeira”.

Arnaldo apoia a ideia da instalação de uma loja que, igualmente, possa aplicar preços acessíveis e até que permitam pagamento em prestações de modo a tornar o gás  cada vez mais acessível a todos. “O nosso pedido é ter um mercado de venda de gás de cozinha e todo o material. Quem conseguir iria comprar, mesmo que ao fosse tão abrangente, mas as pessoas iriam conseguir comprar, ia depender dos preços, se forem normais iríamos aproveitar cozinha à gás, mas aí faltaria o mecanismo de compra do  fogão”, levantou, prosseguindo que localmente “não tem onde, como, então também não sabemos como comprar o gás, pior ainda não sabemos qual é a importância, ninguém nos explicou”.

Segundo esta fonte, a massificação do uso do fogão a gás seria mesmo um passo para reduzir os gastos da compra de carvão vegetal em cada três a seis meses e da lenha, usada pela maioria da população. “O fogão de ferro que usamos em casa, não leva nem um ano, o carvão é forte, ao mínimo você tem de usar dois fogões por ano, e isso depende, os pequenos sacos de carvão custam 450,00Mt, tem de 700,00mt, depende do tamanho do mestre, sobretudo esse de 350,00Mt, só são três meses, daí deve comprar mais um novo, isso corresponde 1.050,00Mt por ano, e em termos de carvão por mês 350,00Mt vezes um ano, ou 12 meses, por isso estamos mal, então isso é diferente de fogão a gás”.

O produtor Mualele Jorge, 25 anos, responsável de um agregado familiar de três pessoas, por sinal secretário do bairro Cajual em Muezia, também residente a escassos metros do depósito de gás de cozinha, esteve presente no acto de inauguração pelo chefe do Estado e ainda se lembra da promessa de que que dentro de poucos meses receberiam fogões a gás para permitir acesso a quem tenha que reduzir o uso de lenha e carvão, cujo consumo tem estado a afectar as florestas nativas da região.

“Eu estava no dia na inauguração e falava assim mesmo, de que daqui à meses iríamos receber já os próprios fogões a gás, para distribuir no bairro, mas no sentido de venda e ficamos a espera até hoje, passa um ano e meses, nós não temos como perguntar, mas estamos a espera ainda, passa um ano, estamos a espera do nosso líder aqui talvez possa nos dizer que sobre o uso de fogões à gás”, lembrou o jovem produtor e utilizador de fogão a carvão, cujo consumo de um saco de 90 kg aguenta perto de 30 dias, sendo que em outros dias a esposa deve recorrer a lenha para cozinhar as refeições.

Mualele acredita que a população local tem o poder de adquirir fogões a gás de cozinha, tanto que considera que se o governo não subsidiar, a empresa responsável pode propor preços acessíveis e pagamentos em prestação. Ele mesmo deu exemplo, como a comunidade local aderiu à campanha de uso de painéis solares, através de uma empresa denominada Fénix, e, por via disso, a população tem iluminação, além de carregar telefones celulares.

“Nós podemos comprar, se já conseguimos comprar 350,00Mt ou 400 meticais um saco de carvão, que as vezes não dura um mês, então vamos conseguir comprar esses fogões. No ano passado, 2022, recebemos aqueles painéis da Fénix, era pagamento por prestações, aguentamos, era 1.500,00Mt ou 1.100,00Mt, mas já estamos a pagar ao dia pagamos 37,00Mt, isso significa que o fogão à gás iríamos conseguir pagar e podemos aguentar. Nós somos camponeses, o que ganhamos no dia-a-dia pode ajudar”, assegurou, mostrando-se visivelmente cansado de usar carvão vegetal e lenha, um facto que a sua consciência pessoal acredita poder ser um factor que destrói a natureza.

“”Na minha casa somos três pessoas, então um saco de carvão uso um mês e dez dias só, 40 dias, má há vezes que não chega, tendo em conta que esses vendedores lá em baixo põem restos e carvão está aqui em cima, então isso para suportar um mês não está fácil, por isso nós pedimos esses fogões à gás, porque as medidas do governo estão certas, se são tantos quilos são mesmo. Aqui não temos também fogões que poupa lenha, só temos de matope e com lenha, usamos muita lenha, assim as árvores não descansam, eu sei que costuma-se dizer para não destruir as plantas, só que assim vai ser difícil. O fogão a ferro que habitualmente usamos depende, há uns que custa 500 meticais e só levam uns meses, não chega um ano, deve-se comprar de novo, significa um ano vamos gastar mil meticais. Nós agradecemos o favor mesmo de receber essa venda de fogões à gás”.

Já na sede do posto administrativo Anchilo, os residentes também sabem da existência do depósito de gás, mas muito pouco entendem da sua importância. Pelo menos dez famílias inquiridas, nenhuma usa gás para cozinhar, e não têm esperança que a curto prazo possam fazê-lo, mas por enquanto o consumo do carvão vegetal está a subir, colocando maior pressão naquele recurso florestal. Actualmente custa 500,00Mt, 250,00Mt, 350,00mt a cada saco, dependendo da quantidade. O consumo subiu com a chegada de famílias deslocadas da província de Cabo Delgado, que parte delas se dedica ao fabrico de carvão para sustento.

Enquanto a massificação do gás de cozinha não se torna uma realidade, quem corta as árvores para lenha e constitui motivo de sustento, não se sente ameaçado. É o caso de Salimo Nsaha, de 42 anos, vendedor de lenha há mais de uma década. Encontrado no mercado de Muezia, com outros dez companheiros, Salimo explica que em média semanal vende três a quatro molhos no valor de 120 meticais, principalmente para os que fabricam bebida alcoólicas caseiras.

“Essa lenha é para vender hoje, os principais clientes são esses que fazem vinho nas casas, e cada molho custa 120,00Mt a 110,00Mt até 100 meticais. Isso fazemos todos que estamos aqui, como vê, lá em casa tenho dois molhos e hei-de trazer quando este for comprado. Primeiro vou no mato, corto para casa e depois trago aqui. De lá para o mato é muito longe, porque aqui perto não tem, não sei quantos quilómetros, mas é longe. Por semana trago dois, três ou quatro, são 360,00Mt, por exemplo, porque outros dias vou a machamba. Com o dinheiro compro as necessidades de casa, sobretudo caril. Eu vivo com quatro pessoas e no total tenho cinco crianças”.

O investigador do Observatório do Meio Rural, Jery Maquenzi, admite que não só a província de Nampula, mas o país em si, não está em condições de atingir a meta de prover o fornecimento de gás de cozinha até no ano 2030, devido a falta de capacidade das comunidades em pagar os serviços, clarificando que os discursos têm o propósito de aliciar o dinheiro pelo mundo fora devido a corrida pelas energias renováveis.

Observou que o desejo das comunidades é problemático, uma vez que elas não têm condições para pagar, sendo que poderá recorrer a mesma madeira, produzir carvão vender para comprar o gás. “As comunidades não têm capacidade para pagar tais serviços, mas o que acontece são discursos no sentido que estamos a fazer alguma coisas, acho que estas acções ajuda-lhes, por exemplo, a mobilizar outros recursos lá fora, já há esta discussão de financiamento de energias renováveis, há esta tendência daqueles que estão a fluir lá estarem a dar alguns trocos aos países que poluem menos”.

Mais adiante, o estudioso disse que o alcance dos objectivos neste sector passa por primeiro acabar a pobreza, embora reconhece que até lá possa haver melhorias pelo menos ao nível dos distritos. “Claramente, por causa da pobreza. Temos que resolver o problema da pobreza que depende da renda, ai sim podemos chegar a esse ponto, claro que algumas acções vão melhorar nas vilas, lá onde que se concentram pessoas que tem algum emprego, que possam ter algum rendimento que possam pagar, um que esta em Nairoto vai comprar gás dinheiro vai sair de onde, da caça furtiva, do marfim de zebra, de impala, porco do mato, então a questão que se coloca é esta, vai melhorar um pouco, mas vai beneficiar as pessoas que estão mais nas sedes distritais”.

O investigador disse ainda que a percentagem actual mostra ainda que a cobertura do gás, segundo o censo do ano 2017, ainda é baixa, secundando que os preços de gás são caros para a população. “Acho que é mais caro usar o carvão para quem está em Montepuez, Namuno que comprar gás, isto porque o preço não é acessível para todos, porque nessas zonas com mil meticais, são quatro a cinco sacos de carvão”, tendo em conta que 11 quilogramas de gás de cozinha, por exemplo, está acima de mil meticais, um preço que poderá variar na medida em que os fornecedores deixam a zona urbana para rural com vista a recompensar os custos.

Quanto a questão da emissão de licenças para a comercialização do carvão na zona urbana, este membro do Observatório do Meio Rural anota que o negócio de carvão continuará a ser um dos factores que vai comprometer os objectivos de massificação do uso do gás de cozinha, pelo facto de estarem envolvidos “camaradas” ligados ao partido FRELIMO, no poder em Moçambique desde a independência nacional, que, por sua vez, alimentam actividades político-partidárias através dos mesmos fundos.

Um trabalhador da empresa Petromoc observou que não será a actual geração que pode se familiarizar com o gás de cozinha, não apenas por se tratar de um novo conceito na região norte do país, mas devido ao carvão e a lenha continuarem ainda mais baratos que o próprio gás. O trabalhador admitiu que dentro da empresa ainda há poucos funcionários que usam fogão à gás nas suas casas.

Esta fonte que negou ser identificado, acrescentou que os preços em curso não são convidativos e só permitem que pessoas de alta renda, sobretudo casais de trabalhadores sejam elas apenas com capacidade de adquirir, ao mesmo tempo que acredita que atingir metade dos moçambicanos com acesso a gás de cozinha até 2030 ser uma decisão política tomada sem uma avaliação mais técnico.

Entretanto, um responsável da Petromoc, em Nampula, disse que não pode comentar sobre a massificação do uso do gás da cozinha porque o assunto é da responsabilidade do Serviço Provincial de Infra-estruturas, mas inicialmente indicou aquela empresa.

Um revendedor de gás de cozinha na cidade de Nampula, fornecido pela empresa Vida Gás, contou que os clientes aderem com satisfação, mas também afirma que são quase sempre as mesmas pessoas que compram, justificando que muitas gostariam de ter, mas os custos de aquisição são ainda elevados.

“Muitas pessoas compram aqui, mas muitos deles são pessoas que têm, não são quaisquer, porque só para adquirir o gás ou o fogão dele precisa muito dinheiro, veja que quando você inicia tem de ter o jogo de botija, maçarico, mangueira e redutor. Um jogo de botija de gás de 11 kg por exemplo aqui está 4.320 meticais, este preço é para todos, mas se quer saber mais vai lá na empresa, aqui somos revendedores”, explicou  Virgílio Oliveira. (Amade Abubacar)