Nampula: Mulheres deslocadas enfrentam dificuldades no acesso aos serviços de saúde materno infantil no centro de Corrane

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Nampula (IKWELI) – Acolhidas no centro de reassentamento de Corrane, no distrito de Meconta, parte das mulheres deslocadas da província de Cabo Delgado enfrentam dificuldades no acesso aos serviços de saúde materno infantil, sobretudo os ligados a maternidade, o que obriga as mesmas a recorrerem a partos caseiros.

Segundo apuramos em Corrane, as mulheres são obrigadas a percorrer, pelo menos, cinco quilómetros para terem acesso a uma unidade sanitária, localizada no centro da sede do posto administrativo.

Essa distância é ainda fazível durante a gestação, para atender as consultas pré-natais, mas fica complicado quando chega o momento de dar à luz.

Zeza Aboba Ali, com 33 anos de idade é mãe de três (03) filho, é deslocada de guerra no distrito de Mocímboa da Praia, em Cabo Delgado, mas que atualmente encontra-se a viver no centro de reassentamento de Corrane, na província de Nampula, desde o mês de agosto de 2021, ao Ikweli conta que o serviço de saúde local funciona nas tendas e não dispõe de maternidade, por isso, várias mulheres recorrem ao parto tradicional.

“No período da manha e depois de tantas queixas, acabei nascendo o meu filho dentro de casa, com ajuda de minha mãe, tias e outras mulheres que ajudam as outras no processo de parto”, disse.

Zeza Ali, deslocada

Esta fonte recorda-se que “no dia que me iniciaram as dores de parto, tive que ligar para socorrista que, nalgumas vezes, trabalha no centro de saúde local e lá  não tem medicamentos e nem maternidade. A médica disse que se eu estivesse à procura de serviços de saúde urgente, para dar o parto, devia alugar uma motorizada e abastecer, para a posterior ser levada ao hospital, localizado na sede do posto administrativo. Contudo, haveria a necessidade de ter nas mãos um dinheiro, no valor de 300,00Mt (trezentos meticais), mas antigamente existia uma motorizada que ajudava as mulheres em estado de gravidez. Mas ainda quando tentássemos contactar uma medica, cá no centro, dizia que era noite e não podia fazer nada, a estrada estava danificada e não tinha tanta experiência para fazer o parto”, referindo que uma ambulância afecta ao centro faria muita diferença na vida e na saúde das mulheres locais.

Aziza Ali, outra deslocada, aponta que o seu primeiro parto, fora de uma unidade sanitária, trouxe tristeza na família, pois “quando estava grávida passava muito mal e não imaginava que teria este meu filho que o parto aconteceu neste centro de Corrane, as dores que sentia eram maiores e sem nenhum apoio das enfermeiras, depois de algum tempo consegui fazer o parto em casa e o sangue no meu corpo era pouco. Nós as mulheres temos falta de alimentação variada e, às vezes, recorremos a alguns produtos não muito saudáveis, o meu caso particular quando estava grávida tive muita falta de comida que não me permita ter as forças necessárias para continuar uma vida normal”

Por outro lado, esta nossa interlocutora afirma que nalguns casos recorrem a idosas com experiência na matéria do parto, “em troca de um valor que varia entre 200,00Mt (duzentos meticais) a 500,00Mt (Quinhentos meticais)”.

Na mesma ocasião, a nossa entrevistada deu a conhecer que as dificuldades no acesso aos serviços de saúde, concretamente maternidade, é um problema sério, tanto para as várias mulheres deslocadas pelo terrorismo em Cabo Delgado, assim como as residentes próximas ao centro de reassentamento em Mucupassa.

“Tivemos uma mulher deslocada grávida, perdeu a vida por conta da falta de assistência médica, isso correu no mês de março do corrente ano, estamos tristes e pedimos ajuda”, conta esta nossa fonte, recordando-se que “para além da minha filha que tive aqui no centro, tenho 2 filhos que o parto foi em Cabo Delgado, por isso digo que a vida aqui não é boa comparando com la minha terra natal. Muitas mulheres, e quase todas as pessoas, estão a sofrer. Agora estamos a fazer o nosso esforço de continuar a viver, mesmo que seja difícil”.

Outra mulher deslocada é Teresa Afonso, de 27 anos de idade e natural do distrito de Mocímboa da Praia, a qual pede as autoridades e outros parceiros a aprimorar a saúde materno infantil. “Estou grávida de 8 meses e dificuldades ainda continuam por causa da ausência do pessoal de saúde no centro de Corrane, o que tem criado barreiras para algumas pessoas e mulheres grávidas. Neste momento, somente tenho acesso de fazer o peso, mas ainda não recebi a rede mosquiteira para a proteção contra a malária, quando me dirijo ao centro de saúde dizem que a fase para distribuição passou e o centro não dispõe”.

Afonso disse que “a maior preocupação é a falta de serviços de maternidade que obriga as mulheres grávidas a percorrerem longas distâncias, como também levam a prática de parto inseguros. As autoridades de saúde e outras entidades, pedimos que continuem a nos ajudar para viver a vida seguro e saudável como as outras mulheres.  Como estou grávida, o meu plano é fazer o parto em caso com ajuda das mulheres experientes e, caso combrarem o valor de 200,00Mt, farei o pagamento”.

Segundo esta nossa interlocutora, os deslocados ainda passam por necessidades, ainda que nalgum momento consigam produzir a sua própria comida, mas de apoio, a última assistência foi no mês de fevereiro do corrente ano.

A dona Bendita Victor Tomas já assistiu vários partos tradicionais, e mostra-se indignada, como também preocupada.

“A maioria das mulheres faz parto em casa e correm risco. As parteiras tradicionais que temos, não têm equipamento para este serviço e fazem de qualquer maneira e algumas vezes temos assistido parto muito difícil”, narra a dona Bendita, que afirma que “algumas parteiras que trabalham aqui vivem distante do centro e porque uma mulher que está grávida não tem data e hora para nascer, por isso tem acontecido muitos partos tradicionais nas suas casas. Se tivéssemos agentes polivalentes para apoiar e apoio das parteiras tradicionais com equipamento e subsídio, o problema de saúde não seria preocupante como neste momento”.

Mais de 20 partos no centro de Corrane

Natural de Diaca, no distrito de Mocímboa da Praia, Ernestina Funde estima que mais de 20 partos tradicionais tenham sido realizados no centro de reassentados de Corrane, desde a sua instalação.

Ela é parteira tradicional e assume que “estou a viver aqui no centro de Corrane desde 2021. Sobre a minha idade não tenho na mente, mas ajudo muitas mulheres novas no processo de gestação e porque me solicitam e precisam do meio apoio. Não tenho todo o equipamento para este trabalho e não recebo dinheiro significante, como agradecimento, algumas me oferecem um valor de 200,00Mt”.

Ernestina Funde, parteira tradicional

Funde lamenta que “o grande problema é escuridão e a falta de medicamentos. É preciso que haja uma maternidade no centro de Corrane, mas na ausência disso, as mulheres grávidas recorrem longa distância para a sede do posto administrativo”.

O recurso a medicina ervanária

A dificuldade no acesso aos serviços da medicina convencional, também deixa preocupado os homens reassentados no centro de Corrane e como forma de ultrapassar recorrem a plantas medicinais.

“Quando algumas mulheres dão o parto, primeiramente  usamos algumas  plantas  e folhas medicinais que servem como óleo para esfregar a própria criança recém-nascida para retirar a escama que trás consigo desde o ventre da sua mãe e na sua maioria usamos estas folhas quando o bebe acaba de tomar banho ou quando está com dores da barriga, serve como se fosse um xarope vulgarmente conhecido por grip water e aqui em Corrane não temos farmácias e recorremos estas plantas para aliviar os problemas de saúde que nos incomodam”, sublinhou uma fonte que não quis revelar o seu nome.

Julião Fernando, deslocado de Cabo Delgado, fez saber que “os problemas são vários, e temos mulheres que recorrem a trabalhos pesados que não aguentam, mas porque sentem-se obrigadas a capinar cerca de um hectare para garantir a sua própria alimentação, seus filhos e outros familiares”.

Julião Fernando, deslocado

Segundo disse as autoridades locais pouco fazem para apoiar os deslocados, pois quando estes recebem apoios para eles não fazem chegar como devia ser.

A vontade do Governo e parceiros

O Secretário de Estado na província de Nampula, Jaime Neto, inaugurou no mês de setembro corrente, uma via de acesso entre o centro de reassentamento de Corrane e a sede do posto administrativo.

Esta componente da via de acesso tem sido um dos entraves para as mulheres grávidas se deslocarem a sede do posto administrativo de Corrane para terem assistência medica, por isso essa inauguração poderá aliviar o sofrimento delas.

“Vamos continuar a interagir com os nossos parceiros para ver se continuamos a apoiar na medida do possível. Da mesma maneira que vocês pediram a nós governo, também estamos a pedir vocês para aproveitarem estás machambas que foram entregues pelo governo para fazerem alguma coisa para aumentar alimentação que é distribuída três em três meses, o que não é suficiente para cobrir esse período. Vocês ficam sem receber, então há muitos problemas no mundo e muita gente por apoiar”, disse Neto.

O governante pede a população deslocada acolhida no centro de Corrane para continuar a trabalhar a terra para produção e evitar fome.

“Temos conhecimento de conflitos com a população que vos acolhe e que estão a arrancar as vossas machambas, vamos continuar a trabalhar com essa população no sentido de evitar arrancar as vossas machambas porque, na verdade, vocês precisam produzir para o vosso sustento”, anotou a fonte.

O Fundo das Nações Unidas para a População (FNUAP) estima que mais de 3.200 mulheres deslocadas podem precisar de atendimento urgente em resposta à violência sexual. Sem acesso a serviços de parto seguro e atendimento obstétrico de emergência, 950 mulheres deslocadas correm o risco de morte materna nos próximos três meses, e quase 46.000 mulheres deslocadas enfrentam um risco aumentado de gravidez indesejada ou indesejada se não conseguirem a cessar o planeamento familiar.

O UNFPA trabalha com as autoridades locais e parceiros para aumentar a disponibilidade e o acesso a serviços de saúde sexual e reprodutiva que salvam vidas, prevenir e responder à violência de género, abordar o COVID-19 e mitigar os seus impactos secundários sobre mulheres e raparigas.

Para prevenir gravidezes indesejadas e reduzir a mortalidade materna, o financiamento será usado para apoiar centros de saúde temporários, equipar unidades sanitárias com suprimentos e contraceptivos urgentes, treinar equipes médicas e implantar clínicas móveis de saúde para fornecer atendimento remoto.

Em resposta ao risco agudo de violência de género, os fundos permitirão ao UNFPA distribuir kits de dignidade feminina, disseminar informações que salvam vidas sobre os serviços disponíveis e garantir a continuidade dos centros que fornecem aconselhamento, informações e apoio. Em resposta ao COVID-19, o apoio financeiro irá proteger os trabalhadores da saúde, permitir a vigilância da comunidade e disseminar mensagens de prevenção, entre outras actividades importantes.

Há trabalhos para colmatar a situação

João Setimane, chefe do departamento do Género na direção provincial do Género, Criança e Accão Social de Nampula, lamenta a situação, mas garante que o governo tem envidado esforço no sentido de colmatar a situação.

Com efeito, segundo esta fonte, o governo e parceiros têm trabalho no centro de deslocados em Corrane para prover assistência médica as mulheres, para além da realização de campanhas de sensibilização nas comunidades sobre à prevenção de várias doenças transmissíveis, incluindo a violência sexual, física, doméstica e psicológica.

“Estamos a trabalhar muito com as mulheres deslocadas, porque são as mais vulneráveis em termos de oportunidades e  instabilidade em várias maneiras para poder inserir-se na sociedade, mas é muito difícil porque existe oportunismo de algumas pessoas de má-fé que gostam aproveitar da falta de oportunidade destas mulheres, nós desenvolvemos varias palestras para empoderar e fazer acompanhamento psicossocial as mulheres, porque não é fácil uma pessoa que estava dentro da família e tinha os seus bens deixar para trás e estar a viver neste momento num centro de acolhimento de pessoas deslocadas. Na área de saúde, também, temos feito acompanhamento contínuo como assistência médica a estas mulheres e outos aconselhamento para que não optem em acções nocivas para garantir a sua sobrevivência, no entanto, ainda são ensinadas a ser autónoma, através de prática de negócios, agricultura e saber fazer”.

Setimane receia que os partos tradicionais naquele centro possam ser factor cultural e negligenciado.

“Sobre os partos tradicionais realizados naquele centro, nunca tivemos uma informação oficial e apenas são informações oficiosas que temos, mas o governo descarta este tipo de situação porque estamos a trabalhar muito nisso e as questões culturais e negligência de algumas famílias, porque existem conhecimentos e palestras quando estão prestes a dar o parto dirigirem-se a uma unidade sanitária e fazemos o acompanhamento como governo e alguns parceiros, de  modo que possam ajudar as mulheres nestas circunstâncias e havendo esse tipo de anomalias como questão de proteção na área de saúde concretamente um parto seguro. Não é ideal realizar um parto dentro de casa e tenho plena certeza de uma maneira oficiosa e estamos à procura de mecanismos para colmatar a situação das mulheres”, anotou o nosso entrevistado.

Esta fonte refere que com os parceiros tem levado a cabo sessões de sensibilização aquela comunidade, de forma a evitar actos de violência sexual, moral, entre outras. “Nós sentimos que precisam deste apoio de modo a superar, encorajamos a denúncia as autoridades competentes para colmatar qualquer acto de violência e não podemos ficar de braços cruzados diante destas práticas noviças, também as mulheres precisam de um acompanhamento para poderem se reerguer, lutadora e inspiradora independente da sua situação económica para que ela não seja vulnerável”, disse.

Num outro desenvolvimento, João Setimane comentou que “a questão de assistência medica adequada, pontual e primordial é um dos grandes desafios e o governo continua a trabalhar para ultrapassar, através do grito desta mulher deslocada para que seja assistida neste tipo de situação e apelamos as raparigas que sejam preparadas durante a gravidez. Ainda apelamos as outras associações e órgãos de comunicação social na divulgação de informações de transparência total, verídica e como denúncias de acções malignas que apoquentam as mulheres do centro de reassentamento, mas quando as informações não chegam a nós vai ser um pouco difícil responder as dificuldades que os deslocados enfrentam, alem disso, somente as parteiras tradicionais não vão conseguir resolver algum caso durante oque pode submeter a vários perigos a saúde do bebe e da própria parturiente e como governo estamos a encorajar as outras entidades competente a manter uma unidade sanitária próxima as mulheres para garantir o parto seguro”.

Quem, também, tem vindo a prover assistência aos deslocados em Corrane é a comunidade do Sant’Egídio.

Américo Sardinha, responsável desta organização católica, explica que tem vindo a capacitar jovens homens e mulheres, incluindo raparigas para saberem lidar com as adversidades. “Nos primeiros tempos do centro de Corrane, a comunidade Sant’Egídio foi uma das primeiras organizações a prover ajudas as famílias. Continuamos a apoiar os deslocados em alguns bairros da cidade de Nampula, tanto em Namialo e Rapale onde identificamos algumas mulheres com problemas de leite materno infantil, neste momento temos um programa que tem uma visão de apoio aos deslocados”.

O administrador de Meconta, Melchior Focas, reconhece que o centro funciona com infra-estruturas de saúde suportadas em tenda, mas entende haver maternidade local.

Entretanto, o Ikweli tentou sem sucesso ter a posição dos Serviços Provinciais de Saúde de Nampula. Para obter resposta, a nossa redação enviou uma carta a 6 de setembro corrente, mas ate ao fecho desta matéria não tínhamos pronunciamos da instituição. (Nelsa Momade)

*Esta reportagem foi produzida no âmbito do projectos ASAS, implementado pela h2n, com fundos da USAID

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