Chefes de quarteirão queixam-se da falta de sigilo dos agentes da PRM quando denunciam casos de uniões prematuras

0
609
R. Cândido, vítima de união prematura

Nampula (IKWELI) – Alguns chefes de quarteirão da província de Nampula queixam-se da falta de sigilo profissional dos agentes da Polícia da República de Moçambique (PRM) quando estes denunciam, de forma anónima, casos de uniões prematuras e violência contra menores.

De acordo com os mesmos, tal situação obriga os líderes e a comunidade em geral, a não pautar pela denúncia de casos de género, por temerem serem “dedurados” e com isso colocar em risco a sua vida e a dos familiares.

João Albano, chefe de quarteirão de um dos bairros periféricos da cidade de Nampula, disse que tem disseminado mensagens de consciencialização sobre o combate as uniões prematuras à comunidade onde dirige, no entanto, o entrave para dar seguimento as suas actividades tem sido a PRM.

De acordo com a fonte, o comportamento de certos agentes da PRM faz com que haja um retrocesso no que diz respeito ao combate as uniões prematuras.

João Albano contou que já sofreu ameaças por ter denunciado de forma anónima um caso de uniões prematuras.

“Denunciei um casamento prematuro, através de um paralegal, e aquele caso foi até a SERNIC, mas para entregar a notificação tinham que vir recorrer a mim e houve problemas, quase levei “porrada” e não houve nenhum seguimento, e por causa disso nós ficamos desmoralizados, porque eu denuncio uma união prematura e a polícia não ajuda”.

Quem, também, sofreu ameaças foi António, nome fictício, que por temer perseguições pediu para falar de forma anónima. A fonte afirmou haver corrupção na corporação, justificando que alguns recebem dinheiro e, por conseguinte, revelam a identidade da pessoa que efectuou a denúncia.

“Nós não podemos viver dessa maneira, qualquer líder comunitário tem direito de denunciar um crime desse tipo e não ver exposta a sua identidade. Mas essa situação faz com que as pessoas não tenham vontade de denunciar”, lamentou.

Para a fonte, a falta de sigilo dos agentes contribui para que haja fracasso nas  denúncias, pois temem pelas suas vidas.

“A norma é que, se eu denuncio um caso de uniões prematuras, não deve ser revelada a minha identidade, eu saio com a pessoa, indico a casa onde está a acontecer e vou me embora e a polícia fica a fazer o seu trabalho, automaticamente ali não se sabe quem é que denunciou. Mas o que acontece é que vou ser conhecido como o denunciante de um caso, como é que serei visto? E se amanhã me assassinarem? O que é que a minha família vai ganhar?”, questionou.

Por isso, os chefes pedem apoio e colaboração de algumas instituições do Estado, em particular dos agentes da PRM, deixando uma recomendação de como devem agir.

“Pedimos apoio, porque sentimo-nos denunciados pela polícia. Eu denuncio um caso, a polícia pode chamar-me para eu explicar o que acontece e onde acontece, faço reconhecimento do lugar como se estivéssemos a passear, regressámos e vou embora dai a eles ficam a agir, não é possível ser ouvido em frente da pessoa que eu denunciei”, acrescentou.

“Existem agentes que mancham a imagem da corporação”

Já, o Director da Ordem e Segurança Pública da PRM em Nampula, Gilberto Inguane, disse ao Ikweliserem reais as queixas dos chefes do quarteirão, tendo afirmado que existem membros da corporação que mancham a imagem dos agentes.

“Infelizmente, há membros que não são comprometidos com a causa da corporação, que é garantir a ordem e tranquilidade pública, agora se temos agentes que não são fiéis esses devem ser afastados”, disse.

Sem adiantar números, Inguane disse que alguns agentes estão a responder em processos disciplinares ligados a corrupção e falta de profissionalismo durante o exercício da actividade.

“Já recebemos essas queixas, de agentes que recebem dinheiro para mostrar a pessoa que denuncia casos de género. É importante deixar ficar aqui que o polícia não pode ter orgulho de ganhar algo as custas de lágrimas de alguém, desculpa a expressão, mas esse dinheiro cheira mal. Os agentes têm o dever de proteger as suas fontes”, explicou. (Ângela da Fonseca)

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui