Timidez e falta de confiança obriga alunas da escola secundária de Nampula a não denunciar casos de assédio sexual

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Nampula (IKWELI) – A falta de confiança, timidez, assim como ausência de provas, obriga alunas da Escola Secundária de Nampula, na província do mesmo nome, a não denunciarem casos de assédio sexual perpetradas por alguns professores daquele estabelecimento de ensino.

A título de exemplo, temos a Ana, nome fictício, aluna daquela escola. A mesma revelou ao Ikweli que a sua irmã mais nova que, também lá estuda, sofreu assédio sexual por parte de um professor que, por sinal, é estagiário.

Segundo ela, a irmã frequenta a 8ª classe. Há alguns dias notou um comportamento diferente nela, pois, “ela só ficava no canto dela”, no entanto, por conhece-la, decidiu conversar e eis a revelação: “tem um professor que me incomoda na escola e costuma dizer que meu rabo é grande e deseja que eu sente em cima dele”.

Uma revelação que deixou Ana triste e a tomar a decisão de contar ao seu pai.

“Fui logo contar ao nosso pai. A minha irmã é muito tímida, dificilmente fala das coisas que acontecem com ela, mas como a conheço isso insisti. Quando falei com o meu pai, fomos a escola para falar com o professor”.

Ana disse ao Ikweli que o seu pai conversou com o professor estagiário e, este pediu que não o denunciasse pois não voltaria a acontecer.

Quem também passou pela mesma situação é Joana, antiga aluna da Escola Secundaria de Nampula. Joana disse que na altura (2020), frequentava a 10ª classe e era chefe adjunta de turma.

Quando notou um olhar diferente, acompanhado de elogios e convites para saídas, vindo do seu professor de Inglês. Uma situação que a incomodava, no entanto, não sabia que se trava de assédio sexual.

“Não só aquele professor fazia brincadeiras comigo, mas também com outras, foram gestos que me incomodavam. Primeiro pediu o meu contacto para me entregar provas e o mesmo dizia que podíamos nos encontrar para conversar, perguntava sobre a minha vida e mais tarde acabou dizendo que gostaria de namorar comigo e que iria ajudar-me com as notas”, disse.

Durante a entrevista, a jovem aluna disse que mesmo depois de concluir a 12ª classe, o professor continuava a segui-la com promessas e juras de amor.

“Ele dizia que me faria feliz se namorássemos, mas é um senhor de idade que aparentemente tem entre 40 e 45 anos de idade. Ele continua a dar aulas na escola e já assisti vários cenários dele a procurar outras meninas e acho isso lamentável, porque ele as alicia em troca de notas”.

Joana foi mais longe ao afirmar que, para além dela, o professor continuou e continua até agora com a mesma postura perante outras alunas. Para a fonte, o medo, a falta de coragem e hábito de denunciar obriga as raparigas a cederem a  chantagens dos professores, no entanto, aconselha as colegas a recorrer a direcção da escola para denunciar.

“Na altura eu não denunciei porque não tinha conhecimento e também porque achava que poderia correr o perigo de reprovar, somente usei a estratégia de limitar.  Mas hoje sei do que se trata e que aquilo não é normal. Há meninas que não tem consciência daquilo que é assédio sexual, olham como algo normal e acabam deixando-se levar. Eu vi o mesmo professor a trocar contactos com outras alunas e muitas não têm coragem de denunciar por medo de reprovar”.

A professora e ponto focal da área de género, saúde sexual e reprodutiva naa escola secundária de Nampula, Evangelina Maria António, disse ao Ikweli que as alunas muitas vezes não aproximam para denunciar por timidez, medo e insegurança.

“Na verdade, aqui há um espírito de timidez, porque você pode abrir-se, mas há sempre aquela dúvida, será que posso? Não vai me denunciar? Olhando que eu também sou professora, então ela tem medo de aproximar-se, mas eu tenho mostrado o meu apoio, porque estou aqui para ajudar e não para piorar a situação de quem esteja a passar por assédio sexual”.

Maria António explicou que tem sensibilizado as alunas diariamente, e também tem introduzido temas transversais que possam deixá-las mais informados, e abertas sobre situações que prejudicam o seu futuro.

“Faço tudo para que elas se sintam à vontade comigo, mas fica difícil porque elas não querem abrir-se. Nos anos anteriores até foi fácil, mas essa geração que está a entrar é um pouco tímida e não se abre porque eu estou no meio, na berlinda uma vez que sou professora e também colega daquele professor e acham que irei contribuir para que perca o seu pão”.

Por isso, a ponto focal da área de género, apela aos pais e encarregados de educação a manter um diálogo com os seus filhos, sobretudo com as raparigas, para que elas sejam mais abertas a sintam-se à vontade para falar sobre assuntos que as incomodam, na escola ou em qualquer outro local.

O que diz a direcção?

O director da Escola Secundária de Nampula, Albertino Luís, disse não ter registado, nos últimos anos, casos de assédio sexual envolvendo professores e alunas e, afirmou que os profissionais que ali leccionam já estão consciencializados sobre os riscos que correm se optarem por essas práticas condenáveis.

“Temos intensificado a educação cívica permanente com os nossos colegas professores e hoje, posso dizer que a questão do assédio reduziu, porque as pessoas sabem que, enquanto professor, se forem encontrados, nós como direcção da escola vamos penalizar. Estes instrumentos estão a normalizar e a endireitar para evitarmos dois processos, um disciplinar e outro criminal dependendo da idade da assediada”.

A título de exemplo, durante a entrevista, o director recordou um caso ocorrido em 2020, aquando da pandemia da covid-19, em que um professor assediou uma aluna, pedindo-a para mostrar o peito sem sutiã. Entretanto, o mesmo não conseguiu alimentar os seus intentos, pois a rapariga denunciou o caso a tia.

“Felizmente a tia da moça apareceu, solicitamos o professor e foi comprovado pela troca de mensagens porque a menina mais tarde começou a sentir que, se não fizesse sofreria alguma represália e decidiu contar para a tia e, por ela ser uma pessoa informada a coisa não aconteceu. Resolvemos o problema e chegamos a uma conclusão, o professor pediu desculpas, a família também aceitou com a condição de que não voltasse a acontecer algo igual não só com essa, mas para com as outras crianças. E passamos a controlar o professor”.

Apesar de ter afirmado que o professor tem consciência, Albertino revelou que tem estado a acompanhar casos de forma “esporádica” nos corredores e que não chegam a sua mesa, por isso não tem como fazer o registo, “para mim é um comentário, porque nem a aluna, nem os familiares apareceram aqui para vir dar-me essa informação, não podemos registar, pois considero que talvez seja um assunto entre eles”.

Professores entrevistados pelo Ikweli afirmaram que, apesar de ter noção de não envolvimento com alunas, muitos ignoram, porque “é muito frequente acontecer o inverso, porque nós professores já sabemos estar, mas as vezes ignoramos e aí é que pecamos porque nós conhecemos o estatuto, o que devemos fazer é sentar com a pessoa (aluna), e dizer que isto não pode acontecer, porque o papel do professor é educar, saber estar e ser exemplar”, disse Sulzer Mathes.

Um estudo realizado em 2019 pelo Movimento Educação para Todos (MEPT), revela que o assédio e a violência sexual contra raparigas e crianças têm sido um mal permanente e contínuo em muitos países. Em Moçambique, apesar de existir um quadro jurídico de normas nacionais e internacionais, há ainda uma fraqueza dos mecanismos jurídicos na resposta de ocorrências de assédio ou violência sexual contra menores. (Ângela da Fonseca)

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