“Renamo, por dentro, não está preparada para ouvir e acolher a dor do povo”, Arlindo Chissale, membro da perdiz

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Balama (IKWELI) – O então jornalista e director de Comunicação e Imagem do conselho autárquico de Nacala, Arlindo Chissale, que tentou ser cabeça-de-lista da Renamo na vila de Balama refere que o seu partido ainda não se mostra preparado para li dar, internamente, com a dor do povo.

Chissale diz que foi combatido e está sendo combatido em Cabo Delgado, pela maioria da liderança local. Nessa entrevista poderá, na integra, acompanhar o seu posicionamento.

Jornal Ikweli (Ikweli): Quero agradecer pelo tempo e respostas que desde já vai nos dando, numa altura em que, tudo o que tem a ver com Política é apetecível, a escala Nacional. Na verdade, eu conheço a ti, como colega e nunca me apercebi que és político e surpreendentemente, o Delegado Político Provincial de Cabo Delgado, concordaria comigo, se formos a ver em muitas publicações, as últimas, a respeito de ti ou de Balama, disponíveis em vários jornais. Quando é que fez esse SHIFT de jornalista para Político?

Arlindo Chissale (Chissale): É normal que ele não me conheça, mas não é normal que ele não me reconheça. Eu sempre trabalhei na clandestinidade e actuei como toupeira. Eu trago credenciais da Renamo em Nacala e já esteve nas mãos e gaveta dele, por duas semanas, e ele mesmo não conseguiu dar um parecer, refiro-me de favorável ou desfavorável sobre a minha estadia ou reconhecimento de que eu existo. Ele fez a questão de me dizer de cara que iria punir aos que me receberam e rubricaram a minha credencial, na Delegação Política Provincial de Cabo Delgado. E eu até hoje me pergunto: Como é que se pune a um Membro, a Luz do nosso Estatuto Político, por ter recebido e encaminhado uma Credencial!? Mas, a nossa conversa está a começar muito azeda e está a parecer encomenda, logo nas suas primeiras intervenções. Não te esqueças que somos da mesma classe e reconheço locais aonde possam haver ratoeiras, de todo o tipo.

Ikweli: Tudo bem. Então, de Nacala para Balama ou por outras, de Nampula para Cabo Delgado, como explica?

Chissale: Não estou deslocado e muito menos a me perder. Eu sou daqui. Fui nascido em Mueda, hoje Muidumbe – Muatide, com a nova Divisão administrativa. Meu pai foi o primeiro enfermeiro a ser enviado para o actual Hospital de Muatide, para ir tratar gente leprosa. Na altura, a Lepra era uma doença misteriosa e ainda em estudos científicos medicinais e vários macondes tinham que ser isolados, fora ou longe da povoação de Mueda, para receber tratamentos ambulatórios. Eu fui nascido naquelas circunstâncias, enquanto minha mãe também dava aulas aos macondes, assim digamos. E, com meus dois anitos, meus pais foram transferidos para Pemba, onde fui estudar no Jardim infantil de Pemba, depois, frequentei o meu ensino Primário na Escola Primaria de Natite, quando o director era Buanar. O ensino Primário foi na EP2 16 de Junho. O ensino secundário na Escola Secundaria de Pemba e meu pai achou que com a chegada dos regressados da Ex-RDA, projectando filmes, nas noites, eu iria me perder e preferiu que eu fosse estudar num Centro Internato e escolheu em Mariri – Ancuabe. Não cheguei de terminar a 10ª classe, naquela escola, tal como era de desejar pois, tive fricções com o chefe do Internato, Sr. Agostinho Daipo, um nome que não me esqueço e voltei para Pemba para inaugurar a Escola África Muslim Agency e depois, para a Escola Secundaria de Pemba onde conclui a 12ª classe. Estando em Pemba, me juntei a vários movimentos sociais e Políticos tal como NUJECAD (Núcleo de Jovens e Escritores de Cabo Delgado) e declamávamos poesias até mesmo na Rádio Moçambique. Baptizei e crismei na Igreja São Paulo. E também, por indução do meu pai, consegui, em tenra idade, ser indicado para o cargo de Adjunto Chefe Provincial da Liga da Juventude da Renamo, nomeado pelo antigo Delegado, Cornélio Quivela e continuei com o Armindo Milaco. Mais tarde, fui bolseiro das Caritas de Moçambique, para ir estudar em Nampula, na UP e meu currículo é interminável, acredite, mas, cheguei a ser o que sou hoje, sempre defendendo a Renamo, com escritas e nos meus dois empregos, quer no jornalismo, quer assessorando ao Presidente do Município de Nacala, Reverendo Raúl Novinte, como assessor de Imprensa, ao longo de todo o mandato. Ora, posso elaborar e te fazer entrega do meu Currículo Político, oportunamente, mas a verdade é que sou daqui, em Cabo Delgado, depois de estar em terras alheias, por 18 anos consecutivos.

Ikweli: Então, tem referências em Cabo Delgado?

Chissale: Tenho tudo, mas também procuro sempre lhes proteger, para não sofrerem represálias pelo regime. Já nos confundiram, várias vezes. Uma delas é a Bellya Nota a qual, nas escritas dela, com tanto ódio, citava meu nome e dava descrições de um ou outro irmão meu, por exemplo, nas redes sociais. Ora, ela sempre me atacou politicamente a distância e agora é que estou a colocar os meus dois pés em terra firme, sem temor e nem remorsos.

Ikweli: Na verdade, não consigo entender, os porquês vir cair neste deserto e vazio. Numa terra em que não tem um prédio, se quer.

Chissale: “Owane – owane”. Significa que, temos sempre que voltar às origens e de forma oportuna. E sabe porquê, mesmo?

Ikweli: Não. E preciso que me clarifique.

Chissale: Vocês não estão bem aqui em Cabo Delgado, em tudo. E acreditam que parte das soluções dos problemas desta província, virão de Ruanda ou da pólvora da SADC, só para exemplificar. Eu trago comigo a gama de conhecimentos pacíficos e políticos, para inseminar na povoação sobrevivente e com doutrina renamista, anunciando nas línguas locais, como podemos sobreviver. Este povo já não acredita num partido cinquentenário e descorado. Quer uma outra alternativa e, quando a própria Renamo, por dentro, não está preparada para ouvir e acolher a dor do povo, recorre a caminhos insanos e por longo tempo, como forma de fazer valer as suas reivindicações. Um povo que vem de uma longa guerra colonial e por sinal, na terra aonde a história nos faz acreditar que houve o primeiro tiro, das mãos empunhadas pelo Chipande e depois, viveu e sobreviveu a guerra dos 16 anos, foi ensardinhado no massacre de Mueda, houve mais outro massacre em Montepuez e o sistema, já os massacra, já não sentem a dor e nem sentem a diferença entre decapitar ou ser decapitado. Meu pré-discurso e de prosperidade, em nome do nosso Partido é esperanças e bem-estar. Digo mais, não posso semear em tempo seco. O momento é hoje, apesar dos obstáculos à vista, por dentro e por fora da Renamo.

Ikweli: Acha que Balama pode passar para as mãos da Renamo, desta vez?

Chissale: Balama nunca foi municipalizado e é possível termos munícipes modelos, usando truques que aprendi, ao longo da minha carreira e pelos municípios de Nampula. Semear palavras de prosperidade, amor e empatia nesta gente e nas línguas locais é o que se precisa.

Ikweli: Acha que os outros da Renamo, cá presentes, não são capazes de dar conta do recado?

Chissale: Quem está preparado para dar conta do recado é a Frelimo e nos moldes em que a própria Frelimo se preparou e armou. Na verdade, no dia em que fui me apresentar, na Delegação Política Distrital de Balama, fui recebido por pessoas e não por personalidades. Entendes o que quero dizer? E são pessoas que dizem que querem e estão em condições e humor para derrotar a Frelimo, uma Frelimo que em Cabo Delgado, tem 18 acentos parlamentares contra 5 da minha Renamo. Hoje em dia, e numa nova vila autárquica, não se pode fazer discurso igual ao de eleições gerais. É controverso, repetitivo, sem adrenalina e condimento juvenil. Este povo agricultor e caçador, quer saber como é que será constituído o plantel da Renamo. Quantas vereações, numa primeira fase e o que quer dizer vereação? E, no seio da Renamo de Balama, não encontrei uma pessoa se quer que entenda sobre actos administrativos. Município não é partido, mas sim, Estado gerido por políticos com a melhor agenda, visão de mocho, com capacidades científicas de influenciar. A escolha do candidato tinha ou tem que ser por mérito e o melhor entre os melhores. Não se pode entrar por nepotismo, njombalismo ou bruxaria, achando que vai receber ou responder um e-mail via magia negra. E eu sou funcionário do Aparelho do Estado, nomeado há 18 anos. Falo todas as línguas locais e escrevo incluindo as línguas dos que estão a investir nesta minha província a destacar, o inglês e francês. Caso a Renamo falhe, dirão que Renamo perdeu ou falhou quando tem a oportunidade de receber de borla e voluntário, pelo menos, um reforço. Balama ainda não tem manifesto eleitoral e nem se sabe, por onde começar. Eu é que fiz o de Nacala, um município de Categoria B e está em uso até hoje, como espelho, depois de alguns retoques para a encadernação e publicação por parte do partido, na Nação. A execução desta ferramenta, na sua totalidade é um outro desafio…

Ikweli: Será que conseguiu esclarecer isto, dentro do vosso partido?

Chissale: Sim. E, não precisa dizer isso a todos os membros. Há membros espiões e intrusos. Alguns deles são aqueles que, depois de me conhecerem, não me reconhecem, me combatem e vão se dar muito mal.

Ikweli: A propósito, já li em alguns jornais de que estás a ser combatido e em gesto de resposta, alegaste que vais responder. Como vais ripostar aos que (como alegas), te atacam, no interior da Renamo?

Chissale: Não sou bebé. Tenho 44 anos, 25 dos quais de militância política puramente renamista. A Renamo ao nível provincial recebeu, de mim, meus dados de confirmação de que eu já tinha me recenseado. Um maldito, internamente, elaborou e enviou para este distrito uma forte e infundada acusação, com alegações de que o meu cartão de eleitor tinha que ser caçado. Fomos até as últimas consequências e já fui inocentado, depois de mostrar, com evidências, o quão genuíno sou de Cabo Delgado, incluindo, com comprovativos de pertença de casas, parcelas de terra aráveis e parte da minha família que vive cá comigo. Tive também, um bom advogado que incapacitou Secretários de Bairro, indicados pela Frelimo, para deporem contra mim, em julgamento da Renamo. O que não se sabe, por parte dos que encomendaram este ataque é que já pedi uma grossa indemnização, num processo separado. Caso eles ganhassem, com aquelas acusações, estária preso por um ano e pagaria, pelo menos, quatro salários mínimos. E, não foi o único ataque frontal que eu recebi, desde que estou por aqui em Balama.

Ikweli: Quais foram outros ataques?

Chissale: Deixa estar, mas, estão a se arrepender, todos eles. Polícias me atacaram, de novo e estão na mira de expulsão do Aparelho do Estado, pelo menos, 3 e já estão a tentar denunciar, quem foram os mandantes. Mas, os meus verdadeiros inimigos, não estão dentro da Renamo, mas sim, fora. Os de dentro, irão reconhecer, ou aparecerão outras referências que lhes clarificarão que estão errados e a caminho do precipício colectivo.

Ikweli: O cargo de Presidente de Município não é muito grande para ti?

Chissale: Dentre vários cargos políticos, ou mesmo político-administrativos, já fui tal como o disse, o de assessor ou mesmo porta-voz do município de Nacala. Tinhas que imaginar o peso desse cargo e num município como o de Nacala, onde tem mais de 600 trabalhadores, refiro-me de nomeados, contratados, aposentados e, também, sempre respondi em nome de cada munícipe, em órgãos de comunicação social.

Ikweli: Caso não consiga, desta vez, ser o que pensa ser, o que pensa em fazer?

Chissale: Esperar. Esperar pelo momento certo, resistindo e defendendo-me. Esperar vendo meus conterrâneos a sofrerem e pelos motivos que me fizeram cá voltar. Pelo menos, tentei ou, terei tentado. Com certeza, que não terei sido cobarde. Farei parte da história dos que tentaram resgatar a terra e aos cidadãos, enquanto venta fortemente. As pessoas mudam, mas o partido Renamo continua o mesmo, dos que resistirem de forma coordenada e unida, tal como tem sido em Nacala-Porto.

Ikweli: Não aceitaria uma outra tarefa, dentro do partido?

Chissale: Já o disse com um amigo, ao telefone que, sendo político, sou ambicioso. Quererei algo igual ou superior do que já tenho ou tive, como recompensa pela minha vinda voluntária, por aqui. Eu não vim assistir navios a passarem. Política não é novela, mas sim, filme de longa-metragem. Mas, fique claro, cá entre nós que hoje, na Renamo em Balama, não sirvo nem para ser apanha-bola, sob orientações da província. Suponho que tenha feito lobbies com uma ala e não com outra ala, a ala que ganha com entradas e saídas de membros. Entendes?

Ikweli: Estamos mesmo na recta final da nossa conversa e queria mesmo saber se a Renamo vai ganhar, cá em Balama.

Chissale: A Renamo que encontrei e está a se fazer de durona, não vai ganhar. Acredito que estão apenas felizes quando são convidados para se fazerem presentes pela praça dos heróis moçambicanos, nas inaugurações. Se fores a perguntar desde o cabeça-de-lista até aos que seguem-no sequencialmente na lista de sucessões, o que significa a palavra município, não te vão responder. Palavra de honra. Tem que aparecer alguém a lhes ensinar e não é nada mau, darem respostas em língua emakhua, por exemplo do que fazer do município, sua viatura de zero quilometro, quando não tens carta de condução e nem queres ser assessorado. Acabas não chegando a algum destino. Quem vai para o partido, deve ir dar ou receber algo. E esse algo, não pode ser suposição ou fofoca. E eu sozinho, que estou a representar uma ameaça, por dentro e por fora da Renamo de Balama, não vou conseguir vencer e gerir sozinho o partido. Precisarei sempre de ajudas, de visionários, colocando pessoas certas em locais certos. E, se fores a escutar atentamente o Hino da Renamo, vem de forma clara e evidente, o perfil do dirigente da Renamo e eu concordo com o mesmo, na sua totalidade.

Ikweli: O nosso tempo já se vai. Quer dar últimas considerações?

Chissale: Poderia falar sobre o futuro do nosso partido, nesta província onde tudo pode ser risonho, mas, estaria a usar o tempo e responsabilidades talvez, do adido de imprensa ou Delegado Político Provincial. Para os que me conhecem e reconhecem, sabem que sou avesso a tudo o que quer crescer torto. Não me importo se o problema está por dentro ou fora da Renamo. Felizmente, o Presidente do Município de Nacala-Porto é um dos que me entende, talvez por ter vivido, por muitos anos, fora deste continente e fazemos uma boa dupla. Mas, vou te deixar com único ponto de reflexão: Sabias que já podes encontrar cartazes digitais de todos ou vários cabeças-de-lista da Renamo, a escala Nacional, na Página do Facebook do nosso Líder Ossufo Momade, mas, nenhum deles é de Cabo Delgado? Podes adivinhar, aonde está a chave de ignição? – Na cabeça dos que pensam com seus órgãos genitais, mesmo na velhice!

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