Rapale: Rapazes e Raparigas participam em debates sobre a desconstrução de normas sociais negativas

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Nampula (IKWELI) – No âmbito do projecto Adolescentes e Jovens contra a Violência Sexual Baseada no Género e Uniões Prematuras, rapazes e raparigas dos 10 aos 14 anos de idade, residentes no distrito de Rapale, na província de Nampula, têm participado em rodas de debates sobre normas negativas que prejudicam e colocam em causa o desenvolvimento de uma sociedade.

De forma directa, serão beneficiados 9500 alunos, sendo 5700 raparigas e 3800 rapazes de 10 a 14 anos de idade.

Trata-se de um projecto que está a ser implementado pela Associação Sócio cultural Horizonte Azul (ASCHA), em quatro distritos de Nampula, nomeadamente, Rapale, Monapo, Nacala-à-Velha e Angoche, e é financiado pelo UNICEF, Spanish Natcom, Child Marriage e GLOBAL PROGRAMME.

Os espaços de debate para os rapazes são designados por “Espaço da Malta”, enquanto que para as raparigas designa-se por “Fala minha Irmã”, e visa engajar civicamente adolescentes e jovens com base na abordagem transformativa de género, feminismo comunitário e activismo para educar, formar, comunicar no combate a todas as formas de discriminação, opressão e violência praticada contra estes grupos.

Desde crianças, rapazes e raparigas são ensinados a entender que nem tudo é para todos e, que homens e mulheres possuem papéis diferentes na sociedade.

Zarita Aristides tem 14 anos de idade e encontrasse a frequentar a 9ª classe na Escola Secundária de Rapale.  A mesma partilhou que, em sua casa, os seus pais a proibiam de subir as árvores e que devia aprender a sentar como mulher. Na altura, a menina limitava-se a ficar triste. “Meus pais diziam que eu não podia subir na árvore porque sou mulher eu não entendia os motivos, visto que, meu irmão podia”, contou.

Hoje, com as conversas que tem tido com as mentoras da ASCHA em volta de outras raparigas, Zarita percebe que na verdade são normas e papéis que a sociedade atribui. “Aqui nós aprendemos que, tanto homem, como a mulher, podemos exercer as mesmas actividades e isso não vai fazer de nós superiores que os outros”, explicou.
Jamusse Abílio, de 17 anos, está a frequentar a 7ª na Escola Primária Completa de Ehilene, explicou que quando começou a participar dos encontros trazia certos ensinamentos de casa de que o homem não pode fazer os trabalhos domésticos, muito menos chorar.

Abílio considera que debates do género irão ajudar a moldar certos ensinamentos que lhes é passado. “Agora sei que eu posso chorar quando sinto alguma coisa e que também posso ajudar a minha mãe e irmã com os trabalhos de casa. Outras pessoas dizem que quando homem chora é matreco.  Agora sei que não é verdade. Também aprendemos que não podemos bater na mulher para mostrar que somos mais homens, porque quando agimos assim ela não vai aprender pelo contrário, voltará a fazer, o que devemos fazer e sentar com ela e conversar”, explicou.

Amina Martinho é mentora da ASCHA e tem reunido com às raparigas uma vez por semana, no espaço “Fala minha Irma” explicou ao Ikweli que em todas as sessões são apresentados temas que girão em torno do meio em que elas vivem.

“A metodologia é mesmo ficar em roda, expor o tema e, deixar com que a rapariga se expresse. Porque é nas sessões que nós acabamos tendo muitos casos, por exemplo com esse tema que hoje apresentamos ‘Seja Mulher, Seja Homem’ acabamos tendo raparigas que partilham suas experiências”, disse.

Cosme Felizardo é igualmente mentor da ASCHA e trabalha com rapazes no “Espaço da Malta”, e disse que a actividade poderá trazer um impacto positivo para os rapazes, pois trata-se de um aprendizado para a vida. “Pretendemos que haja mudança de comportamento dos mentis e não só, pretendemos também acabar com essa ideia de que o homem deve bater na mulher para mostrar a sua masculinidade. Estou a trabalhar com os rapazes de Rapale há dois meses e já consigo observar mudanças”.

Cosme explicou que no início das sessões era difícil conversar com os rapazes, pois estes traziam ensinamentos e hábitos passados pela comunidade, como o facto de não poder fazer os trabalhos domésticos, ser forte e apresentar-se de forma violenta para ser respeitado. “Nas nossas sessões tem uma fase em que eles têm oportunidade de falar e, já conseguem dizer que antes de participar das reuniões eram muito violentos e não respeitavam os direitos das mulheres, em casa alguns deles não lavavam pratos e pensavam que o ser homem é relaxar e que a mulher deve-se fazer tudo, mas agora alguns já apresentam alguma mudança, já falam diferente, porque nós colmatamos esses ensinamentos que vem da comunidade que na verdade poderão prejudicar os metins e também as mulheres as pessoas que vivem ao redor dos homens, uma vez que são ensinados a ser fortes e que o homem não chora, eles tinham esse comportamento violento, mas agora não, já temos rapazes que sabem que a mulher também tem os mesmos direitos e que deve haver respeito”, afirmou.

A coordenadora da ASCHA na província de Nampula, Emília Maninguete, explicou que o foco dos encontros tem em vista incutir nas crianças, jovens, adolescentes e adultos informações sobre alguns hábitos comportamentais que advém de certos ensinamentos que poderão prejudica-los futuramente.

“As sessões de mentoria fala minha irmã que é o espaço seguro das raparigas e os espaços da malta que é para os rapazes debatem sobre temas de reflexão, para que, de forma conjunta, não como se fosse professor aluno, mas sim, um espaço de partilha de vivências próprias e da comunidade para reflectir sobre o impacto de certas normas sociais no dia-a-dia com enfoque na menina, muito mais no que tange as uniões prematuras. Ou seja, a nossa metodologia tem em vista desmistificar muitas normas sociais, normas culturais, práticas que fazem com que a rapariga fique oprimida e retida daquilo que são os seus direitos”.

Maninguete explicou que a escolha da faixa etária dos 10 a 14 anos tem como foco desconstruir certas normas sociais ainda em tenra idade. “Nós conversamos com eles e elas sobre os impactos que o que foram ensinados vão reflectir sobre o seu futuro e o dos seus filhos”.

Entretanto, Maninguete disse que os pais e encarregados de educação têm dificultado a participação dos adolescentes, principalmente das raparigas, justificando que é uma perda de tempo participar de sessões que não lhes traz benéfico algum, como um bem material.

“As nossas sessões têm tido duração de duas a uma hora e meia e os pais e apoiantes ou mães têm essa prorrogativa de limitar a participação, principalmente das raparigas, porque em algum momento pensavam que fossem ter algo em troca para as crianças seja em lanche ou em material de higiene e não é isso que acontece”, lamentou. Por isso, a fonte explicou que estão a implementar actividades que envolvem os pais e encarregados de educação, bem como os líderes comunitários por forma a disseminarem informações sobre o que é feito nos encontros com os rapazes e raparigas.

“Não podemos sensibilizar só o nosso público alvo, mas também o nosso público indireto, que são os pais, os líderes comunitários para que deixem a rapariga participar dos encontros, porque temos as normas sociais que dizem que elas pertencem ao espaço privado e o rapaz ao público então fazemos levantamento das raparigas que são impedidas de participar e conversamos com os pais na tentativa de sensibilizar eles a importância de elas fazerem parte desses encontros”, acrescentou.

No âmbito do processo de monitoria as actividades levadas a cabo pela ASCHA em Rapale, Ruben Cossa, Oficial de Programas da UNICEF, disse ter ficado impressionado com o nível de participação dos adolescentes nos espaços criados.

Cossa revelou que é um programa que irá se estender até 2024, para fazer com que as mensagens transmitidas alcancem todos os adolescentes e façam perceber que o lugar deles é na escola, pois poderá ajuda-los a ter um futuro melhor.

“Porque isso é que vai ajudar a mudar a maneira de ser e de estar dessas crianças e para que tenham uma visão diferente sobre os ensinamentos ou normas nocivas ao género”, explicou. (Ângela da Fonseca)

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