“Formações realizadas pela Lambda são uma oportunidade de aumento do autoconhecimento” – reconhecem mulheres LBT em Maputo

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Maputo (IKWELI) – Segundo a Organização das Nações Unidas – ONU, “atitudes homofóbicas profundamente enraizadas, muitas vezes combinadas com uma falta de proteção jurídica adequada contra a discriminação em razão de orientação sexual e identidade de gênero, expõem muitas pessoas Lésbicas Bissexuais e Transgénero, de todas as idades e em todas as regiões do mundo, a violações evidentes de seus direitos humanos. Elas são discriminadas no mercado de trabalho, nas escolas e nos hospitais, e maltratadas e rejeitadas por suas próprias famílias”.

O apontamento acima é sustentado por testemunhos de raparigas e mulheres lésbicas, bissexuais e transgénero, que durante 5 dias participaram da Formação em “Direitos e saúde sexual e reprodutiva, Autonomia e Integridade Corporal e advocacia”, realizada pela LAMBDA em Maputo ao abrigo do projecto We Lead, que tem em vista desenvolver as capacidades dos grupos de raparigas e mulheres jovens que  se identificam como LBT nas cidades de Maputo, Matola e Beira, de modo que possam influenciar políticas e programas que atendem questões de saúde sexual e reprodutiva.

Uma das 25 participantes do treinamento, ouvidas pelo LambdaInfo, Cleide Chissico, é de opinião que se deve capacitar as autoridades superiores do Estado incluindo os próprios políticos sobre os direitos das pessoas LGBT, no geral, “assim tomam decisões que fazem sentido para as nossas vidas’, por outro lado, Chissico aponta que um grande problema no seio da comunidade LBT, ainda por superar, é ‘a auto estigmatização’ que segundo entende, ‘deve-se à grande pressão e discriminação que as pessoas LBT sofrem na sociedade, no fim, a pessoa por não conhecer seus direitos e não saber que sua orientação sexual ou identidade são normais, acaba pensando em suicídio, por exemplo, e é uma vida que se perde” lamenta.

Noutro desenvolvimento, Chissico defende um continuo investimento em acções de formação, porque “me ajudaram a me compreender melhor. Eu tinha muitas dúvidas sobre mim mesma. Por isso acho que têm de se continuar a fazer estas formações, tem muita coisa que nós mesmos não sabemos sobre nós.”

Outra participante do treinamento de 5 dias em Maputo,  cujo pano caiu na última sexta-feira, 10 de Março, é Amélia Sipo Gumende, ou simplesmente Tite, que nos disse que o grande ganho do treinamento foi o aclarar das ideias sobre a identidade de género, para Tite, com o treinamento “aprendi a olhar para a questão da identidade de género como uma questão não apenas sobre homens e mulheres cisgénero, vai para além disso, por isso, é preciso que se difunda mais estes temas, porque que também existem os homens e mulheres Transgénero e também são detentores de direitos.”

Para Tite, outra questão que com o treinamento ficou esclarecida, “é a diferença que existe entre orientação sexual e identidade de género.” Mas também lamenta o facto de ainda ser difícil abordar estes assuntos junto da família, mas também reconhece, “treinamentos como estes são chaves para ajudar a iniciar esse diálogo, porque quanto melhor nos conhecermos, melhor saberemos falar sobre quem somos e como nos sentimos junto dos nossos familiares e, isso, vai ajudar a que sejamos melhor compreendidas,” assegura.

Ouvimos igualmente Eunice Laura Sitoe, ou simplesmente Hanny, que também partilhou a sua experiência de participar pela primeira vez de uma formação sobre temática LGBT, visivelmente emocionada nos disse, “o momento mais alto do treinamento foi quando me perguntaram como é que me sinto e pude me abrir para as outras participantes. Dizer como me sinto diante de pessoas como eu, que me compreendem, que passam ou já passaram por experiências iguais as que eu passei, que me escutam sem julgar e me ajudam a me compreender, esse foi sem dúvida um momento marcante para mim. Eu gostaria de viver isso mais vezes.” Para Hanny, partilhar experiências junto de seus pares, “são daquelas coisas que são difíceis de encontrar noutros lugares, onde não há julgamento por você ser quem é e como é”.

Para Hanny, não menos importante é o tema da autoaceitação, também abordado durante os dias da formação, “me marcou muito, eu não sabia lhe dar com isso, tanto comigo mesma, com amigos até dentro de casa. Eu não me aceitava, tinha vergonha de ser homossexual, por isso, me levaram para muitas igrejas incluindo curandeiros onde supostamente profetizavam, diziam que a minha orientação sexual é coisa de demónio, mas no fundo eu sabia que não era algo que envolve coisas espirituais, sabia que ser homossexual é tão normal como ser heterossexual.”

Para além de formações do género, Hanny entende que o diálogo dentro de casa é a chave para que pessoas lésbicas, bissexuais e transgénero se possam melhor conhecer a si e seus direitos bem como gozar seus direitos de forma plena.

A formação de Maputo é parte de uma série de accões que serão levadas a cabo pela LAMBDA nos próximos 4 anos e incluem também a implementação de campanhas de comunicação com vista a empoderar raparigas e mulheres lésbicas, bissexuais e transgénero dos 15 aos 29 anos em Maputo, Matola e Beira. E para além de Moçambique onde a LAMBDA é uma das organizações implementadoras, o programa We Lead é igualmente implementado em nove (8) países de África, Médio Oriente da América Central, nomeadamente; Quénia, Uganda, Nigéria, Níger, Líbano, Jordânia, Guatemala e Honduras. (Redação e #Lambda)

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