O martírio de ser homossexual: Agressão física e violação sexual acabou com a virgindade de Zainabo

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Nacala (IKWELI) – Uma simples recusa para se relacionar com homens foi suficiente para que indivíduos, ainda a monte, protagonizassem actos de agressão física e violação sexual contra Zainabo Assumane, de 23 anos de idade, numa situação que culminou com a perda da virgindade de uma mulher que assumiu perante a sociedade ser lésbica.

Há sensivelmente sete anos que Zainabo descobriu que sentia uma atracção por mulheres. Diz que já teve a primeira namorada, mas a relação não durou por muito tempo, porque a sua mãe descobriu e decidiu manda-la embora de casa.

Ela procurou mobilizar o irmão e a tia para dialogar com a mãe no sentido de fazer compreender sobre o que estava a acontecer. Ou seja, o que significa ter uma orientação sexual diferente das outras pessoas. Mas foi em vão.

A progenitora continuou a resistir à mudança da filha. O pai, pelo contrário, foi mais receptivo e compreendeu a situação. Neste momento, Zainabo está a travar uma luta para ganhar a confiança da mãe, o que não está a ser fácil.

Mesmo assim, a interlocutora acredita que um dia a mãe poderá aceitar e receber a filha de braços abertos. O mais intrigante é que há uma exigência para casar e gerar filhos. Porém, não existem as possibilidades de nascer, porque Zainabo só se relaciona com mulheres.

Agredida e violada

Zainabo contou ao Ikweli que depois de descobrir a sua orientação sexual, houve um cidadão, cuja identidade não revelou, que andava atrás dela com acções de paquera com o objectivo de desenvolver uma relação de amor. Mas ela sempre se recusou a ceder por sentir atracção por mulheres.

Porém, certo dia, quando o ponteiro do relógio indicava 18 horas, a nossa entrevistada cruzou com o referido homem, o qual começou a agredir fisicamente, tendo causado ferimentos graves nos membros inferiores.

O caso foi denunciado junto das autoridades, mas nunca houve solução. Primeiro porque os agentes da Polícia da República de Moçambique (PRM) não manifestaram o interesse de responsabilizar o culpado.

Mais tarde, o homem acabou fugindo para a cidade de Nampula, de onde só regressou quando a “poeira” baixou. Quando o agressor voltou para Nacala-porto, mobilizou alguns membros da sua família para pedir desculpas. Pelo que a Zainabo teve misericórdia e liberou o perdão.

“Eu preferi perdoar, porque já não tinha rancor pela agressão. Ele é uma pessoa igual a mim. Amanhã posso ser eu a cometer erro contra ele e espero que me perdoe também”, anotou.

Numa outra circunstância, Zainabo foi agredida por um grupo de indivíduos, os quais violaram-na sexualmente. Foi daí que perdeu a virgindade. Os casos de agressão, discriminação e de estigma são recorrentes em diferentes unidades residenciais de Nacala-porto.

Zainabo insta os membros da comunidade LGBT+ a não se deixar levar pela fragilidade provocada pela discriminação e estigma. Urge a necessidade de superar todas as formas de humilhação, porque a paz é para todos os cidadãos.

Não me importo com a discriminação

A discriminação e os actos de estigma fazem parte do dia-a-dia de Zainabo. Ela diz que há pessoas que lhe apontam o dedo quando se faz à rua. Alguns riem-se dela por causa da maneira como se apresenta e o tipo de traje. Trata-se de situações que deviam fazer com que ela se sentisse deprimida e abatida psicologicamente, mas já não se importa com qualquer tipo de discriminação ou humilhação.

“Já superei essa fase de me sentir humilhada por causa do tratamento que a sociedade mostra para com a minha pessoa. Estou mais preocupada com a rejeição que estou a passar diante da minha mãe”, disse.

A superação de Zainabo em relação ao impacto do estigma e da discriminação é um exercício psicológico que precisou de treinamento por parte de profissionais da área. “Sentei sozinha e reflecti que não valia a pena dar ouvidos tudo o que dizem a meu respeito”, acrescentou.

A nossa fonte concluiu o nível médio do ensino secundário geral e está já a colaborar para o projecto denominado Stand Up da LAMBDA. O ambiente escolar foi acolhedor e ela nunca se sentiu discriminada sem, entanto, abrir espaço para desistir, por isso frequentou as aulas até terminar a 12ª classe.

“Na minha escola nunca enfrentei situações de discriminação ou de estigma. Os colegas demonstravam um sentimento de amizade e de fraternidade. Sempre me apoiaram. O que me fazia acreditar que há ainda espaço para sobreviver”, anotou.

Violência baseada no género tende a reduzir

Há uma tendência de reduzir os casos de violência baseada no género, afectando as pessoas LGBT+ ao nível da autarquia de Nacala-porto. Os dados estatísticos indicam que em 2021 foram rastreadas 620 pessoas, com um cumulativo de 132 vítimas.

Contra 525 rastreados e um cumulativo de 99 casos de igual período do ano anterior.

As violências física, económica, sexual e psicológica constituem as principais formas de violência que são registadas localmente.

A supervisora de campo do projecto “Stand Up” da LAMBDA ao nível de Nacala-porto, Teresa Figueiredo, lamenta a forma como os casos de denúncias são recebidos junto das autoridades.

É que os membros da corporação têm sido capacitados com o objectivo de melhorar o atendimento das pessoas LGBT+, mas nota-se alguma ignorância. Por isso, é necessário mudar.

Só há um pequeno ajuste que precisa melhorar, sobretudo, no que diz respeito a personalidade dos trabalhadores dos postos policiais.

Em relação a tendência de redução dos casos, a nossa fonte indicou que tal situação é por causa do crescimento de projectos que visam sensibilizar e abrir a mente das pessoas para evitar os casos de estigma e discriminação, que muitas vezes culminam em violência.

“Há tanta gente no armário. Os nossos trabalhos permitem uma maior abertura. Porque não é fácil assumir uma orientação sexual diferente, pois arrasta uma série de consequências”, apontou Teresa.

Entende-se que quando alguém sai do armário está sujeito a perder pessoas mais próximas, as quais ama. Mas isso acontece em casos de essas pessoas não estiverem preparadas ou informadas para receber a informação sobre a orientação sexual de um determinado familiar.

“E em alguns casos temos situações em que as pessoas são informadas, mas a ignorância cega o entendimento. Por isso, surge a necessidade de estar preparada para qualquer eventualidade”, disse esta fonte.

Teresa considera que as famílias precisam introduzir exercícios de educação sexual no dia-a-dia. Não é necessário que as crianças tenham uma idade aceitável para iniciar a vida sexual activa, pois a educação sexual evita as situações de escândalo para a sociedade. (Redação)

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