Mulheres e raparigas com dificuldades de entender os efeitos colaterais do planeamento familiar

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Nampula (IKWELI) – O uso de métodos contraceptivos por raparigas e mulheres tem trazido efeitos colaterais para as usuárias, sobretudo períodos de menstruação prolongados e dificuldades em engravidar quando desejar.

Um trabalho desenvolvido pelo Ikweli, revelou que a maioria das usuárias está pouco informada sobre os efeitos colaterais destes métodos, o que as coloca em desespero em muitos casos.

De acordo com estas mulheres, os métodos usados, destacadamente o Implante, Dispositivo Intrauterino (DIU) e Depo-Provera, este último mais conhecido por “Depo”, causam dores na medida em que as usuárias decidem abandonar e seguir uma vida normal sem o uso dos mesmos, ou então quando mantem relações sexuais.

A injecção anticoncepcional trimestral chamado Depo-Provera é um contraceptivo injectável de acção prolongada, que tem efeito durante, pelo menos, três meses, enquanto que o Implante é uma pequena cápsula que contém o hormônio etonogestrel. Contudo, as raparigas e mulheres adultas, entrevistadas pela nossa reportagem, descrevem as desvantagens destes métodos, desde as dores no período em uso e dificuldades de engravidar após o abandono do uso.

A cidadã identificada pelo nome de Zaida, de 38 anos de idade, disse ao Ikweli que antes colocou o implante, método que achou certo para se prevenir da gravidez não desejada, porém, viu o seu ciclo menstrual interrompido por muito tempo, motivo que lhe levou a trocar este método pelo Depo-Provera.

“Quando troquei Implante pelo Depo, não passou muito tempo, que os meus pés começaram a doer, a minha bexiga enchia parecendo que estava grávida. Tive dificuldades de me locomover, e quando fui ao hospital deram-me pílulas para provocar, dai que fiquei oito meses a menstruar e sem interromper. Porém, para melhorar recorremos, eu e o meu marido, ao médico tradicional”.

Mãe de seis filhos, residente no bairro de Namutequeliua, arredores da cidade de Nampula, Zaida conta que, para ela, os métodos contraceptivos não só evitam gravidez indesejada, como também garante a saúde do seu filho de um ano e oito meses de vida e, quando dirigiu-se ao hospital para remoção do implante teve dificuldades, uma vez que o aparelho movimentou-se do lugar habitual para as outras partes do seu organismo (nas costelas).

A estória da Zaida repete-se nas outras raparigas e mulheres entrevistadas pelo Ikweli, na cidade de Nampula. A cidadã Angelina, residente em Namicopo, o mais populoso bairro do país, conta que desde o mês de Março do corrente ano o seu ciclo menstrual nunca parou, e mesmo assim continua a usar na esperança de ver o ciclo parar, uma vez que lhe é garantida pelo pessoal médico.

“Estou há um ano a usar esse método de Depo, tenho de receber por via injectável uma vez, em cada três meses. Passei oito meses sem entrar de período, todavia, quando fui picar no mês de Março do corrente ano até então não para o meu ciclo menstrual. Tenho cólicas fortes, dores abdominais, falta de apetite, náuseas e o pior é que a hemorragia que tenho  saí com coágulos o que provoca mau cheiro. “Tentei por diversas formas tratar o problema, mas não resolve nada”, lamentou a nossa entrevistada.

“Essas coisas são boas quando na verdade não engravidamos, mas em termos de saúde fica tudo alterado para o pior. Eu já estou a pensar em tirar o Implante que coloquei, na verdade foi por incentivo das minhas colegas que comecei a usar métodos contraceptivos, sobretudo, o Implante. Desde Janeiro do ano passado 2021 que comecei a usar o método, só apanhei a menstruação neste mês de Maio. Já não consigo controlar o meu ciclo menstrual, uma vez que há momentos em que só dura 12 horas e com fortes dores de bexiga. Sinto-me incomodada, estou a ficar magra e já penso em abandonar”, conta outra fonte.

O que dizem os profissionais?

Para melhor entender o problema levantado pelas raparigas e mulheres adultas usuárias dos métodos contraceptivos, o Ikweli entrevistou Sara Joaquim Oface, enfermeira de Saúde Materno Infantil, afecta aos serviços de urgência de Genecologia do Hospital Central de Nampula (H.C.N), a qual defende ser normal o problema levantado pelas mulheres.

De acordo com as suas palavras, o uso dos métodos de planeamento familiar causa o fluxo menstrual diário, nalgum momento ligeiro, resultante do uso de medicamentos que são indicados pelos respectivos técnicos de saúde.

“Por exemplo, há casos que as mulheres logo que iniciam o método injectável vão tendo fluxo menstrual abundante”. Nesses casos, “elas (as mulheres) podem correr o risco de ter anemia grave e precisarem de internamento para receber cuidados médicos, uma vez que podem correr o risco de perder a vida devido ao estado de hemoglobina no seu organismo”, explicou a enfermeira, que aconselha a procura de um médico para assistência, em casos de complicação.

Sara Joaquim Oface, Técnica de Saúde Materno Infantil no HCN

Igualmente, “quando é assim verifica-se, primeiro, o seu estado clínico, se o método injectável está a criar complicações nesta mulher e se dá para continuar com o método ou não. O mesmo acontece com o Implante, a mulher que usa implante nos primeiros meses, pode ser que tem aquelas irregularidades de menstruação, mas se pode avaliar com o tempo. Se ela continua a ter o fluxo abundante, então precisara de voltar à unidade sanitária e explicar a situação”.

“Nunca se pode procurar médicos tradicionais, quando a pessoa já está com método de planeamento familiar, porque tem serviços de saúde disponível. Eu aconselho sempre quem tiver um período menstrual prolongado procure sempre uma unidade sanitária com urgência para tratar o problema”, desaconselhou a nossa fonte, a qual acredita na existência de usuárias de métodos contraceptivos que procuram pelos serviços de medicina tradicional, quando se deparam com questões de ciclo menstrual prolongado, por exemplo.

Na mesma linha de pensamento, quando questionada sobre a interrupção de fertilidade nas mulheres usarias de métodos contraceptivos, a enfermeira e ginecologista Sara Joaquim Oface começou por explicar que, em princípio, é preciso avaliar o porquê da infertilidade, uma vez que o problema não só ocorre durante o uso de métodos de planeamento familiar ou então depois disso.

Alias, “existem outros problemas ginecológicos e que precisam de ser avaliadas por especialista para entender a possibilidade de voltar a fertilidade e ter uma nova gravidez. Isso carece de consultas acompanhadas por um médico que avalia quais os problemas que a mulher apresenta, para além de planeamento”, concluiu a fonte. (Atija Chá)

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