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Namialo: para serem alistadas pelos secretários de bairro e garantir assistência humanitária, deslocadas de guerra são obrigadas a manter relações sexuais

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Nampula (IKWELI) – Mais da metade dos deslocados internos que procuram segurança e reinício de suas vidas na província de Nampula são mulheres e crianças, cuja maioria escolheu os distritos de Nampula e Meconta para se instalar.

Nestes locais nem todo é fácil, não somente pelas diferenças culturais e étnicas, como também, para ter acesso a meios de sobrevivência, através de assistência humanitária, tem sido um verdadeiro martírio para as mulheres, sobretudo as mais jovens.

Em Namialo, um posto administrativo do distrito de Meconta, o Ikweli apurou que mulheres tem sido vítimas de assédio sexual por parte dos secretários de bairro e do partido Frelimo para terem acesso a senhas que lhes facilitam a receber assistência, sobretudo alimentar.

As vítimas sentem-se ameaçadas, mas diante de denúncias, a nossa equipa de reportagem decidiu fazer o seguimento do assunto. Durante duas semanas, instalamo-nos em Namialo, e fomos fazendo o acompanhamento. Neste período, conversamos com algumas vítimas, algumas tímidas e outras nem por isso, mas admitem que tenham passada pela necessidade de trocarem o sexo pela comida.

Em Namialo, muitas das vítimas estão acolhidas nos bairros em residências de familiares e/ou pessoas conhecidas, o que faz com que os agregados aumentam e haja dificuldade de ter alimentação para todos.

As nossas fontes são todas identificadas, mas por razoes de seguranças usamos nomes fictícios.

“Eu nunca sofri assédio, talvez por ser velha, mas oiço sempre das minhas conterrâneas mais jovens que é preciso dormir com os chefes para ter comida”, contou ao Ikweli a senhora Benedita Paulo, que diz que ter chegado em Namialo em Outubro de 2020. “Estou a sair do distrito de Mocímboa da Praia. Fugi terrorismo lá, as coisas estão muito difíceis na minha terra”.

Esta idosa afirma que conhece “muitas senhoras que fugiram desse bairro alegando que os chefes do bairro querem sempre dormirem com elas”.

“Estou a sair do distrito de Muidumbe, estou aqui desde 2021, fugi guerra. O governo me recebeu bem. Me inscreveu. É verdade que alguns elementos da estrutura conquistam, eles se aproveitam por ser deslocada. Prometem lhe dar duas ou três fichas. Se você negar, vai ter ficha, mas depois de muito sofrimento, ou tem apenas uma ficha. Se fazer sexo com ele, vai ter cada coisa, tudo o que vem, você é primeira, ligam por telefone”, afirma dona Guida que diz já ter passado por essa situação, e prossegue que “não é boa coisa, que não nos façam assim, nós estamos desamparadas, aqui não viemos por vontade, estamos limitadas, que nos tratem como pessoas, não se aproveitem porque somos mulheres, não”.

Mariamo Tocota, também, em Namialo desde 2020, conta que uma amiga sua seguiu os trilhos, e conseguiu alcançar aquele ponto de Nampula, mas a sorte não foi a mesma, pois foi lhe imposta manter relações sexuais com um líder para ter acesso a senha para efeitos de assistência humanitária. Por ter recusada, a senhora em alusão até agora não beneficia de nenhum apoio.

“Uma das coisas que faz muitas mulheres mudarem de bairro, em parte, é essa prática”, afirma Judite, que aponta que “significa que se o chefe lhe conquista e você nega, não apanha comida, não tem nada, você perde, você deve ter relações sexuais com o chefe. Muitas mulheres estamos a reclamar sobre isso. Estamos a pedir os chefes que deixem essa prática de condicionar o apoio com o aceitar de fazer relações sexuais, isso não”.

“Vou procurar ver se é verdade”

O Ikweli contactou a chefe do posto administrativo de Namialo, Adelina Mocala, a qual mostrou-se surpresa com a informação, mas serena garantiu seguir o caso.

“Não tenho conhecimento, não posso dizer se é verdade ou não”, disse Mocala, quando entrevistada, telefonicamente, pela nossa reportagem, e ainda esclareceu que, em relação as senhas, “quem distribuem são técnicos indicados para o efeito”, e não secretários de bairro.

“Nós apenas assistimos o processo”, esclareceu a nossa fonte, sublinhando que “estou a tomar conhecimento consigo agora”, por isso, e para averiguar “carece mesmo de pesquisa”.

Num outro desenvolvimento, Adelina Mocala esclareceu que “paramos com o registo em Outubro de 2021. O movimento dos deslocados não estava a ser compreensivo”, porque uns entravam e saem de qualquer maneira, tanto que há uns que chegavam a ter duas ou mais senhas. (Aunício da Silva)