Nampula: Munícipes recorrem a qualquer água para consumo humano

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Nampula (IKWELI) – A crise de água potável na cidade de Nampula, no norte de Moçambique, obrigado os moradores locais a recorrerem qualquer tipo de água para o consumo humano, incluindo águas provenientes do sistema de saneamento da urbe.

Actualmente, as principais fontes de captação de água para o consumo humano na cidade de Nampula estão a quem da sua capacidade. A barragem de Nampula, construída sobre o rio Monapo, tinha sido projectada, na altura, para um máximo de 200 mil pessoas, e nos dias que correm o maior centro urbano do norte de Moçambique está com mais de um milhão e quinhentos mil habitantes.

O Fundo do Investimento e Património de Abastecimento de Água (FIPAG), entidade pública que gere o sistema, tem estado a procurar soluções para minimizar o problema, mas são soluções não robustas.

Em consequência, maior parte das zonas residenciais está desprovida de furos de água abertas através de um sistema mecanizado. Os únicos furos possíveis de encontrar em alguns quintais de particulares são tradicionais, e que não garantem a disponibilidade de água ao longo de todo o ano.

Aliás, as próprias autoridades governamentais não veem como prioridade, por exemplo, a instalação de pequenos sistemas de abastecimento de água na cidade de Nampula, daí ser notória a canalização para outros distritos todos os projectos virados à abertura de fontes de água. Uma observação similar foi feita há sensivelmente dois anos numa das sessões do Comité Operativo de Emergência (COE), pelo então Administrador do Distrito de Nampula, Alfredo Matata, actualmente no distrito de Lalaua, e que implorava a necessidade de se prestar maior atenção, também a cidade de Nampula, apesar de ter a sua disposição uma barragem.

Portanto, como alternativa para se aliviar da crise acentuada de água que assola a cidade de Nampula, desde princípio do segundo semestre do ano passado, os moradores quebraram os protocolos sanitários e buscam e consomem a água contida nos riachos, localmente existentes.

Importa referir que os rios que atravessam os bairros da cidade de Nampula apresentam um quadro higiénico deplorável. Aliás, as pessoas que vivem nas margens desses rios deitam todo tipo de lixo, incluindo excremento humano.

Exemplo disso é na Unidade Comunal Marien Nguabi, quarteirão 9 (ao lado da montanha – serra da mesa), bairro de Namutequeliua, posto administrativo municipal de Muhala, em que os citadinos recorrem a água do rio Mutomote, que atravessa a região, mesmo cientes que o líquido que passa quase em regime constante é esgoto.

Na verdade, as pessoas, na sua maioria mulheres e crianças, fazem pequenos furos ao longo do leito do rio. Elas se contentam com o resultado que ali encontram.

“Graças a Deus este ano Mutomote ajudou-nos. Aqui sai muita e boa água como pode ver, a água daqui é muito doce”, disse Deolinda António, moradora ouvida pelo Ikweli.

“Na minha casa deixei de me preocupar nesses dias. Já deixei e comprar água nesses dias que entende sair nas torneiras. Quando põe na geleira fica ainda mais doce, até agora nem o meu marido descobriu que é água de Mutomote”, dizia uma senhora que não apuramos a sua identidade, quando se encontrava em conversa animada com as amigas.

Joaquim Henriques é chefe do quarteirão 9 na Unidade Comunal Marie Nguabi. Em conversa exclusiva ao Ikweli mostrou-se preocupado com a situação que se vive, de maneira continuada.  O maior receio do nosso entrevistado são prováveis consequências que a mesma água possa causar, tratando-se de uma cidade vulnerável às doenças de origem hídrica.

A fonte disse que, vezes sem conta, já avançou por acção de sensibilização para o bom tratamento da água, antes do consumo, mas que redundou num fracasso.  Nesse sentido, Joaquim Henriques insta as autoridades de saúde a se deslocarem para aquele ponto com vista a sensibilizar a população.

“Eu já controlei a água porque, afinal de contas, tenho aproximado as pessoas e elas alimentam aquela informação de que a água não mata ninguém, mas aquela dali, praticamente, não está boa. É água que vem do fundo do Mutomote e as pessoas aproveitam a mesma água e não é boa”, reconhece Joaquim Henriques.

“O meu receio é de que mais tarde, depois de começar a chover, pode vir rebentar problemas de cólera ou outras doenças. Pelo menos, toda esta zona a população bebe a água tirada nas extremidades de Mutomote, e nós não podemos proibir porque as pessoas não têm outra alternativa. Às vezes quando falo as senhoras limitam-se em rir, quando informo para aquecerem antes de beberem dizem que não há tempo para tal”, continuou a fonte.

Igualmente, Henriques pede às autoridades governamentais para abrir furos de água nos bairros, com vista a se reduzir a dependência pelo FIPAG, (Fundo de Investimento e Património de Abastecimento de Água), entidade responsável pela distribuição do precioso líquido.

“Aos nossos dirigentes peço para que tirem parte do tempo deles e passem nas extremidades do rio Mutomote, porque é preciso eles verem pessoalmente como é que a população está e o tipo de água que está a tirar se é adequada para o consumo, talvez a partir daí o governo teria noção sobre a necessidade de se fazer alguma coisa viável para esse povo. Enquanto o governo não faz algo, sempre as coisas vão nos complicar, não só Mutomote, eles devem passar por vários sítios, acredito que se vive a mesma situação daqui”, frisou Henriques, para quem “é preciso que o governo faça um estudo para salvar o povo, estamos mal”.

E nem a chuva resolve o problema

A queda pluviométrica tem sido a esperança para os moradores de Nampula, mas a chuva que se faz sentir desde o dia 1 do corrente mês ainda não satisfez tal ensejo como tem sido habitualmente.

Por exemplo, nos bairros de Mutauanha, Murrapaniua, Muatala, Piloto e Napipine, respectivamente nos postos administrativos autárquicos de Muatala e Napipine, havia uma enorme esperança de que fosse possível acumular água das chuvas, mas a realidade é outra. E as famílias continuando percorrendo quilómetros e quilómetros a procura do precioso líquido.

“Nós estávamos à espera de uma melhoria no abastecimento de água para as nossas famílias, ao cair a chuva. É sabido que quando chove a água abunda nos rios que abastecem as nossas barragens e que, consequentemente, pode-se fazer a distribuição em tempo real para todas as zonas. Mas penso que sonhamos alto, desde Dezembro que a crise voltou a tomar conta de nós e nada de água suficiente para atender às nossas necessidades. Claro que choveu, mas nem todos têm meios de conservação dessa água das chuvas, estamos ainda a passar mal”, disse ao Ikweli a senhora Naira de Castro Tanleque, residente na unidade comunal de Piloto, bairro de Mutauanha.

Outro cidadão que mostrou a sua preocupação é Eleutério Luís. Este foi encontrado pelo Ikweli quando se fazia à zona de Murrapaniua em busca de água e conta que desde Dezembro do ano passado que acordam pela madrugada para procurar água, junto com a sua família vai passando de casa em casa a perguntar se sai água ou não.

De acordo com as suas palavras, com a queda de chuvas eles só aproveitam a água para lavar a loiça, roupa, entre outros, e não a finalidade de consumo, devido aos riscos de saúde quando esta água das chuvas não é bem tratada. Aliás, “desde que começou a queda, chove nas noites e é ainda arriscado acordar e sair fora sob riscos de ser apanhado por bandidos. Mas quando essa água é tratada pelo FIPAG e distribuída aos consumidores, nós temos o mínimo de confiança de que não nos fará mal a saúde”.

“Já começou a chover, ainda enfrentamos problemas sérios na falta de água, o que será de nós quando a chuva parar? Será que haverá possibilidade de abastecerem a água para a população? Eu duvido. Estamos a sofrer mesmo com chovendo, precisamos de água própria para o consumo e não esta das chuvas que não temos o domínio de como tratar. Assim corremos o risco de contrair doenças como a diarreia, cólera e mais outras”, acrescentou Glória Anastácia, residente no bairro de Murrapaniua, arredores da cidade de Nampula. (Constantino Henriques e Esmeraldo Boquisse)

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