Um ano depois: Desespero ainda toma conta dos deslocados no centro de Reassentamento de Corrane

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Nampula (IKWELI) – A 3 de Novembro de 2020, para responder a entrada de deslocados internos oriundos dos distritos sob ataques terroristas na vizinha província de Cabo Delgado, era aberto o Centro de Reassentamento de Deslocados no posto administrativo de Corrane, no distrito de Meconta, sob alçada dos Serviços de Representação do Estado na província de Nampula.

Até Junho do corrente ano, o governo tinha o registo de, pelo menos, 6 mil e 613 deslocados, mas este número é maior em relação as pessoas actualmente existentes devido as entradas clandestinas.

A iniciativa tinha em vista, primeiro oferecer amparo e conforto as famílias, maioritariamente constituídas por mulheres e crianças, e segundo dar oportunidade e segurança para que as pessoas reiniciem as suas vidas.

Um ano depois, o desespero ainda toma conta dos deslocados, cuja maioria vê-se dividida entre continuar em Corrane e voltar para as suas zonas de origem, mas o sofrimento que passam há anos, apenas, traz frustração nas vítimas.

Grosso número de deslocados que se instalou em Corrane foi retirada da cidade de Nampula e do posto administrativo de Namialo, onde viviam na rua, sem comida e sem água.

Diante destas dúvidas, há famílias que falam de melhoria da qualidade das suas vidas, pese embora a dor de perder o pouco que tinham, incluindo pessoas amadas, e o desespero de nunca regressar a terra que os viu nascer prevaleça.

“Corrane melhorou muito, quando cheguei aqui, não havia casas, tudo era em tendas e daquele lado só capim, desde aqui no bairro Nampula até lá no bairro Namapa, mas hoje vejo diferença”, disse a senhora Reinata Vicente.

Para outros deslocados, ainda que não haja algo para as pessoas fazerem, a paz é que importa, e acrescenta “as pessoas estão a brincar, andar, rir, por mais que seja aqui, paz há paz, ninguém pensa onde vai esconder-se quando anoitecer, tal como lá em casa”.

De 22 anos de idade, Consolata Fernando defende que a energia eléctrica no centro de Corrane contribuiu bastante para a melhoria da vida no local, bem como a água potável e casas de chapa. “Quando chegamos estivemos a dormir numa tenda, como aquela ali, mas hoje temos casas de chapa, é claro que falta muito aí dentro, mas se chover pelo menos não vamos sofrer tanto”, diz Consolata.

Com 35 anos de idade, Ancha Abacar elenca, também, mudanças em Corrane, sobretudo no contexto de formação profissional. “Consigo banhar capulanas, cozer calções e máscaras”, relata esta fonte que, durante 14 dias, foi treinada em matéria de corte e costura.

Ancha Abacar

Uma das primeiras técnicas do sector de Saúde ali afecta é Lúcia Mário Maleza, que entende que, actualmente, há melhores condições para atender os pacientes que procuram pelos serviços de saúde. “Agora temos quase todos serviços básicos”, assegura a técnica de Medicina Geral, exemplificando “a triagem de adultos, pediatria, consulta de planeamento familiar, maternidade e farmácia”.

Ainda há fome em Corrane

Uma das principais queixas dos deslocados acolhidos em Corrane tem a ver com a falta de alimentos para assegurar a sobrevivência das famílias, propiciando, assim, a ocorrência de situações de fome, tal como se queixam as vítimas.

Nos últimos meses, os apoios em gêneros alimentícios tendem a reduzir, e isso afecta o dia-a-dia das famílias.

Reinata Mpulangue, deslocada de Miangalewa, distrito de Muidumbe, vive em Corrane há um ano. Em entrevista ao Ikweli, contou que os deslocados estão há dois meses que não recebem apoio alimentar que, anteriormente, era canalizado mensalmente.

“A vida está a ir, mas temos problemas de comida e sabão, há dias recebemos um saco de milho que nos dividimos quatro famílias, e veja que aqui somos nove pessoas”, disse Reinata, para depois solicitar, “estamos a pedir mais comida e algumas actividades para fazer”.

O sentimento de redução de apoios alimentares em Corrane, também foi manifestado à reportagem do Ikweli, pelo deslocado Saíde Martins, chefe de um agregado constituído por quatro pessoas, para quem além da última vez terem recebido, um saco de 50 kg de milho para quatro famílias, o óleo e feijão recebido foi ínfimo, o que faz com que haja duas refeições ao dia.

“Farinha que recebemos só serve para papas de manhã e a noite, ou de dia fazer chima para almoço, mas o que piora ser pouca comida é porque a mesma nós vendemos para os nativos para termos algum dinheiro para compra de sabão ou outra coisa”, contou.

De Litamanda, Viera Ndumucha, também, está em Corrane há um ano, tal como outras pessoas, refere que a comida canalizada aos deslocados não tem sido suficiente para a sua família. “A comida tem sido pouca 25 ou 50 kg para todas refeições não chega”, reclama este entrevistado que cuida de um agregado de 8 pessoas.

Todavia, o governo diz que está a prover o que pode, mas em quantidades suficientes, por isso uma fonte do Instituto Nacional de Gestão de Desastres e Riscos (INGD) assegura que há comida para todos, mas o facto é que sempre que as famílias recebem chamam outros parentes fora do agregado já registado, e assim a comida não dura por muito tempo. “Muitas famílias quando recebem os produtos, chamam seus familiares que estão noutros locais e assim a comida acaba muito rapidamente”, disse a nossa fonte.

Por outro lado, ficamos a saber que o Programa Mundial de Alimentação, uma agência das Nações Unidas, retomou no último sábado (13) a assistência alimentar as famílias instaladas em Corrane, dois meses depois.

A preocupação com os novos ataques

Voltar para a casa tem sido um pensamento recorrente nos deslocados, sobretudo quando as forças militares estrangeiras que apoiam as Forças de Defesa e Segurança (FDS) no teatro operacional norte começaram a chegar e a destruir bases dos grupos terroristas, mas as notícias dos últimos dias que indicam novos ataques constituem frustração para os deslocados.

“Não sabemos se vamos regressar ou não, porque estamos a ouvir que os alshababs (terroristas) ainda estão a atacar, ouvi que entraram em V Congresso, distrito de Macomia”, disse em tom de profunda preocupação, Manuel Ngales, em entrevista ao Ikweli, prosseguindo que “aqui estamos em paz, não ouvimos armas, mas também lá às coisas deviam acabar, quem sabe lá se um dia podemos regressar”.

“Eu não sei se vamos ou não, aconteça o que acontecer, mas estamos a ouvir que atacaram ali ora lá, mas o governo é que sabe”, comenta Ancha Assumane, em Corrane há um ano provindo de Mocímboa da Praia.

Em Cabo Delgado, nos distritos afectados pelo terrorismo, recentemente, foram reportados ataques nas aldeias Ntuleni, distrito de Palma, Lijungo e Mandimba em Nangade e V Congresso e Nanjaba no distrito de Macomia.

Naqueles pontos, as forças conjuntas moçambicanas, ruandesas e da SADC ainda estão no terreno para devolver a paz arrancada pelos terroristas há 4 anos. Estima-se que mais de 400 pessoas morreram e 817 mil estão deslocadas.

Ancha Bacar, até a data do ataque que a fez deslocar-se, disse que vivia no bairro Pamunda, Mocímboa da Praia e compara que lá a vida era melhor que em Corrane, e coloca a questão de dependência alimentar como sendo um dos grandes problemas.

“Lá a gente comia o que quer, mas aqui não, de manhã papas, ao meio-dia chima com feijão, quase todos dias, e para ter peixe não está fácil, eu só espero o governo anunciar para regressar”, afirma Ancha.

Ainda assim, Ancha e o seu marido redobram esforços para garantir a sua subsistência, e com efeito construíram um forno de produção de pão, o qual é vendido no local.

A pretensão de regressar a sua terra, em Mocímboa da Praia, bairro Nanduadua, também, é manifestada pela Fátima Muamede, ainda que idosa, de 71 anos de idade diz que o que lhe faz lembrar a sua terra é alegada falta de apoio.

“Desde que cheguei aqui, ainda não recebi qualquer ajuda, durmo no chão, as vezes sem comer e se comer não o suficiente, mas estou a ouvir que aí receberam comida, sabão, mas eu nada, então digo vale a pena em casa”, desabafou a idosa.

Ancha Assumane, mãe de uma criança, entende que enquanto não haver paz em Mocímboa da Praia, vai continuar em Corrane, mas quando as autoridades permitirem há-de regressar. Diz que a forma como vive, muitas das vezes sem opção para comer, o facto de não ter a quem pedir em caso de fome, porque todos são deslocados, e não ter dinheiro para fazer um pequeno negócio, é motivo bastante para não parar de pensar na sua terra.

O desespero dos jovens

 Os jovens que, também, foram forçados a abandonar as suas terras e procurar segurança em Corrane, queixam-se da falta de oportunidades para o seu crescimento económico e social.

“Por exemplo, eu sou pedreiro, era minha actividade lá em Pamunda, Mocímboa da Praia, e aqui ninguém me chama para fazer obra nem rebocar a casa, como resultado, tenho que ir a machamba, onde também o resultado não é imediato”, conta Passule Assane, de 27 anos de idade residente em Corrane.

Passule anotou que este facto de os jovens não terem alguma actividade para fazer, mesmo tendo habilidades como pedreiro ou carpinteiro, concorre para o aumento de fome na família, e “você não tem como ter dinheiro, o nosso problema aqui em Corrane é dinheiro, ninguém lhe chama para dar um biscate nem reboque, aquelas casas de chapas estão só, estão a viver assim mesmo”.

Por conta disso, este nosso entrevistado tem sido obrigado a vender a comida que recebe para adquirir outras coisas que a família necessita, uma vez que ser pedreiro já não lhe serve, por enquanto.

Manuel José, de 21 anos, deslocados de Litamanda, distrito de Macomia, também, diz não haver oportunidades para desenvolver em Corrane, pior ainda que não estuda este ano, alegadamente por não ter condições, mas também chegou em Corrane quando as aulas já tinham começado. Na sua terra, diz que era proprietário de uma horta.

“Eu gostaria de fazer um negócio, ao invés de ficar aqui, o meu sonho é ter uma formação na medicina, quero ser médico ou um professor ou mesmo ter meu negócio”, afirma Manuel José, explicando que “aqui já não posso, também, desenvolver uma horta, porque quando tentei pedir algum lugar aos donos da terra, deram-me um lugar onde é difícil ter horta, porque não tem água, assim fico só, sem algo para fazer”.

Rachide Abudo, de 27 anos, que está acolhido em Corrane vindo de Mitope, diz que concluiu a 10ª classe na escola secundária de Mueda, mas ainda não encontra emprego desde 2015. Em Corrane concorreu para um comitê de proteção de crianças deslocadas, mas não conseguiu.

Outra oportunidade referenciada é um programe de fomento pecuário que, igualmente, não abrangeu muitos jovens. Algumas famílias selecionadas em Setembro findo ainda esperam receber os animais para implementar a iniciativa.

Igualmente, há o desafio no acesso à para a produção agrícola, o que contribui para que as famílias continuem a enfrentar a fome.

De acordo com deslocados entrevistados pela nossa reportagem, ainda não têm espaço atribuído para abertura de machamba, alegadamente, porque os nativos de Corrane querem que eles comprem os espaços. “Uns têm machamba outros não têm, até posso dizer que muitos não têm machambas, os donos dizem que temos de comprar, a terra para machambas que deram na época passada não produzem”.

A alegada falta de fertilidade da terra foi, também, levantada por uma outra deslocada, que disse ter vontade de cultivar mandioca, para aproveitar as folhas para caril, mas não consegue, alegadamente, porque não sabe a quem pedir.

Em Corrane, alguns deslocados explicaram que já tinham sido emprestados terra para trabalhar, mas porque começaram fora da época, a produção não foi suficiente, tal como afirmou um outro chefe de família deslocada de Miangalewa, distrito de Muidumbe.

Em Setembro deste ano, o chefe do posto administrativo de Corrane, Alberto Alexandre, disse à um órgão de informação que não havia problemas de os nativos recusar ceder a terra aos deslocados para prática de agricultura. (Redação)

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