“SOU FELIZ PORQUE TENHO O AMOR E O RESPEITO DA MINHA FAMÍLIA” – TOLEDO

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Pemba (IKWELI) – Durante os dias que correm, infelizmente, ainda é frequente ouvir o relato de pessoas LGBT em Moçambique e não só, de terem sido expulsas de casa por conta de serem homossexuais, pelos seus entes queridos. Mas de Pemba, concretamente em Paquitequete, o famoso e mais populoso bairro localizado lá para as bandas da terceira maior baía do mundo, Pemba – província de Cabo Delgado, vêm-nos um exemplo que contraria a narrativa que descrevemos mais acima e faz jus à Constituição da República de Moçambique, “a família é o elemento fundamental de toda a sociedade,” pois constitui o espaço privilegiado no qual se cria, desenvolve e consolida a personalidade dos seus membros e onde devem ser cultivados o amor, diálogo e a entreajuda. E, Luís Francisco Toledo, ou simplesmente Toledo, têm isso, o privilégio de ter na sua família o seu maior suporte, a compreensão e o respeito, que como ele mesmo emocionado assume, “a minha família é tudo o que tenho, é o que de melhor Deus me podia ter presenteado.”

Ainda que a viver em Paquitequete há já pouco mais de 12 anos, Toledo tem as suas raízes em Memba, um dos distritos da província de Nampula onde ainda, por imperativos familiares de ainda mantém um firme contacto, mas é em Pemba, no coração do primeiro bairro periférico daquela cidade no norte de Moçambique, onde Toledo vive desde que se conhece por gente, “toda a minha descoberta, sobre quem sou, a minha homossexualidade foi tudo no Paquite”, afirma orgulhoso e destaca, “graças a Deus isso nunca foi um problema na minha casa’ mas lamenta, ‘conheço muitas man@s que as pessoas que mais lhes discriminam são os próprios familiares,”.

Toledo tem consciência da sua orientação sexual desde muito cedo e, ainda que sob olhar atento e comentários muitas vezes pouco felizes da vizinhança, em casa “sempre tive espaço para eu ser quem sou de verdade, sem me esconder,” para isso, uma pessoa muito especial foi muito importante, a tia Jacinta, irmã de sua mãe que desde cedo fez-se próxima e boa conselheira de sua mãe, fazendo-a compreender que Toledo é uma criança normal, “apenas diferente da maioria das outras, mas que não tem nenhum problema e que deve ser tratado da mesma maneira que todos outros filhos, com amor e carinho dentro da família.”

Foto: Cortesia/Lambda

Mas porque infelizmente, não há bela sem senão, com alguma tristeza, Toledo diz que teve sempre uma relação distante com o seu pai, sem muito desenvolver, para Toledo, “ele sempre se mostrou ausente e pouco interessado em saber de mim.”

Entretanto, apesar de sua mãe continuar a viver em Nampula, em Memba – Toledo diz que mantém uma relação próxima e de muita cumplicidade com sua mãe, aliás, segundo Toledo, o seu caracter, determinação e orgulho sobre quem ele é, resulta muito dos conselhos de sua querida mãe, “foi a minha mãe quem sempre me aconselhou a não dar importância aos comentários negativos e ofensivos das pessoas sobre mim mesmo,’ por isso, acrescenta, ‘eu não tenho vergonha nem problemas de vestir a roupa com a qual eu me sinto bem […]  para outras pessoas isso pode parecer que me quero exibir, mas não é para elas que eu me visto, é para mim mesma”.

Com o nível médio de escolaridade (12ª classe) já concluído e o desejo de dar continuidade aos estudos no topo das prioridades e actualmente estar envolvido nas actividades da associação LAMBDA como Agente Comunitário, contribuindo na sensibilização e disseminação de informação correcta sobre a comunidade LGBT naquela cidade – cujo trabalho, reconhece, para além de o ter ajudado a ser uma pessoa muito mais esclarecida sobre a sua orientação sexual, também fez com que se tornasse numa pessoa muito conhecida em Pemba e brinca – “até as galinhas sabem quem é Toledo nesta cidade”, […risos].

No fim da nossa conversa, questionamos a Toledo se é(ra) uma pessoa feliz, sem hesitar e nem medir palavras, veio a resposta; “sou muito feliz porque tenho o amor e o respeito da minha família, isso faz-me muito bem. Eu poder ser quem sou de verdade, não ter de me esconder, isso me faz muito bem, torna-me mais humano!”. (IKWELI em colaboração com Lambda)

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