Tractores do SUSTENTA: Analistas políticos receiam o nascimento de novos “cemitérios” de maquinarias

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Malema (IKWELI) – Os jornalistas e analistas políticos, Fernando Lima, Ericino de Salema e Tomás Vieira Mário, temem que o investimento que vem sendo feito pelo programa SUSTENTA, sobretudo na aquisição de tractores para os pequenos produtores, seja reduzido a nada, devido falta da cultura de manutenção de equipamentos, que sempre caracterizou o país, aliado às deficientes vias de acesso para os locais de produção.

Na semana finda, a província de Nampula foi o epicentro da primeira fase de entrega dos primeiros 24 tractores agrícolas aos produtores dos distritos de Monapo, Larde e Moma, num lote constituído por 116 tractores para todos produtores da província mais populosa de Moçambique. Aliás, segundo apuramos, uma das apostas do Ministério de Agricultura e Desenvolvimento Rural é importar mais tractores nas próximas campanhas com vista a incrementar as áreas de cultivo, na perspectiva de uma produção em escala.

“Importa referir que Moçambique importava, até o lançamento do SUSTENTA, uma média de 200 tractores, já na próxima campanha (2021/22) nós vamos sair de 200 tractores para 2000 tractores, portanto, estamos a falar de uma oportunidade enorme, e se não capitalizarmos teremos dificuldades. Agora estamos dependendo, são tractores que são importados, são tractores que têm que estar em tempo útil na mão do produtor para fazer impacto já na próxima campanha, mas é uma subida enorme, e com a quantidade de produção que estamos a registar, naturalmente serão necessários mais camiões, portanto, temos que trabalhar, temos que encontrar soluções conscientes de que o único caminho é produzir, não temos outra alternativa”, disse, recentemente, Celso Correia, Ministro da Agricultura e Desenvolvimento Rural (MADR).

Entretanto, Fernando Lima, Ericino de Salema e Tomás Vieira Mário receiam que os mesmos tractores venham, em curto tempo, se tornarem inoperacionais por conta da falta de manutenção e as péssimas vias de acesso para os locais de produção, daí que instam aos gestores do SUSTENTA a seguirem com rigor a cadeia de mecanização para que não se registem os erros do passado.

“Não é a primeira vez que há tractores em Moçambique, mas temos tractores depois não temos lubrificante ou não temos pessoas que lidam com tractores, peças, essas coisas todas”, observou o jornalista Fernando Lima, para quem “então, temos enorme cemitério, neste país, de máquinas agrícolas que nunca foram aproveitadas, porque exactamente toda a cadeia que está associada com a mecanização não foi cumprida, falhou, houve nôs de estrangulamento, então, eu penso que essas coisas devem nos fazer reflectir e deve – nos ajudar a que neste novo projecto tenha essa componente forte mecânica, que não voltemos a falhar e que não encontremos um novo cemitério de maquinaria agrícola”.

Segundo recordou Ericino de Salema “em Chókwè temos um problema inesgotável de sucatas devido a falta de manutenção. Enquanto é bom a existência de tractores, é necessário que haja toda uma infra-estrutura de manutenção, de reparação. Tal como nós seres humanos, as próprias máquinas têm uma vida, não basta sua disponibilização, é necessário que haja todo um sistema visando a correção dos erros do passado”, referiu o jornalista Ericino de Salema, acrescentado que “o SUSTENTA deve aprender dessas lições do passado e, para agora, gerir o parque de forma progressista para que no lugar de durar seis meses esses tractores possam durar sete anos ou dez anos, e com toda a maximização do seu potencial em benefício do combate à pobreza em Moçambique”.

O sustenta é um programa ambicioso

Numa outra abordagem, os renomados jornalistas, que na última sexta-feira (16) integravam a comitiva do Presidente da República, Filipe Nyusi, em visita aos campos de produção na localidade de Nataleia, distrito de Malema, disseram ficar impressionados com o que viram no terreno, daí acreditar que o SUSTENTA pode ser um programa que poderá resolver um dos problemas que apoquenta aos moçambicanos, a pobreza reflectida na fome.

“Penso que o SUSTENTA é um programa muito ambicioso, exactamente pode ser um problema por ser um programa tão ambicioso, ou seja, ninguém é proibido de sonhar e de pensar alto, mas esse colocar a fasquia muito alta, num país com tantas dificuldades, é um problema porque se uma pessoa não cumpre vai ser cobrado. Portanto, esse é um problema complicado que cai nos ombros do presidente, que cai nos ombros do ministro da agricultura”, começou por advertir Fernando Lima.

“A parte simpática é que o SUSTENTA, não tendo ainda muitos resultados palpáveis, lançou esta esperança no campo, porque nós desde a independência estamos a dizer que a agricultura é a base, é que vai transformar o país, mas infelizmente com algumas excepções, esta expectativa até agora não foi cumprida. Portanto, o SUSTENTA representa, mais uma vez, essa esperança dos moçambicanos no campo e isso é bom ter expectativa, esperança e tentar acreditar que alguma coisa vai sair bem, é importante. Agora não sabemos, temos que ver as colheitas, essa produtividade que estão a dizer temos que ver de forma independente porque, também, há muita manipulação, portanto, há muitas coisas que estão em jogo”, anotou a fonte.

Para o jornalista Tomás Vieira Mário, a chave de sucesso do programa SUSTENTA é galvanizar a cadeia de valor de forma que o pequeno produtor se sinta motivado com a sua actividade, aliás, “naquilo que é mais ou menos conhecida como experiência de diferentes programas que tivemos de promoção agrícola, aquilo que foi sempre mais fraco é completar a cadeia de valor. Utiliza-se o camponês para produzir, ele produz depois ninguém diz aonde vende e para quanto vende, quando isso acontece a próxima campanha ele está desmotivado. Portanto, se o SUSTENTA consegue uma vez por todas resolver a quebra da cadeia de valor agrário, será a diferença histórica que faltava”, precisou a fonte, para quem “não estou ainda a ver o que pode vir a ser negativo, porque estamos ainda na fase inicial mas, o meu ponto, realmente, é esse problema histórico de cadeia de valor, oxalá que o SUSTENTA quebre esse problema uma vez por todas porque daqui em diante a máquina anda sozinha, porque a máquina está oleada, o motor está andar, está motivado, se se consegue quebrar esta fraqueza histórica que é cadeia de valor, penso que haverá grande diferença no nosso país nessa área agrária”.

Ericino de Salema referiu, por outro lado, que a inclusão constitui um outro factor para o futuro brilhante do programa SUSTENTA. “A inclusão de todos aqueles que querem trabalhar sem olhar cores políticas – partidárias, sem olhar, também, para regiões, ainda bem que depois da fase piloto, agora não é um projecto, é um programa nacional. Entretanto histórias de sucesso têm que ser replicadas, é claro que são muito poucas, porque o programa está no início, ainda é cedo para se reivindicar grandes resultados, há apenas indicações nesse sentido e acho que a assistência, o apoio técnico especializado há-de ser importante para os jovens acreditarem na agricultura, é necessário que exista programas como estes para providenciar todo o tipo de apoio”, disse.

“Acho que o caminho é esse, história de sucesso apoio e, também, persistência no sentido de que não é de hoje para amanhã que há-de se resolver aquilo que desde 1975 ainda estamos a tentar resolver, espero que o SUSTENTA, pela abordagem que me parece inovadora, no sentido de ser um programa integrador que olha a cadeia de valor como um todo, possa ser essa luz que estamos a espera desde muito tempo”, acrescentou de Salema.

Para Arnaldo Ribeiro, presidente da Associação dos produtores de Banana de Moçambique, que também integrava a comitiva presidencial, todos os sectores da economia devem, igualmente, acompanhar “os esforços que estão a ser feitos pelo SUSTENTA, refiro-me das estradas. Por exemplo, nós vimos a qualidade das estradas para chegar até aqui (Nataleia), é extremamente difícil no tempo de chuva para o produtor tirar a sua produção. Então, é preciso que alguma coisa seja feita para ele escoar os produtos daqui. Eu não vejo aqui linhas de electricidade, e penso que no programa de electrificação do país mais seja feito aproximando as linhas de electricidade aos locais de produção e outros sectores que é preciso conjugar para que a agricultura se desenvolva, isso tudo complementado vai fazer explodir a agricultura no país”, acredita a fonte.

“Minhas felicitações por tornar este programa SUSTENTA uma realidade e marca irrefutável da actualidade. Moçambicanos, nós vamos mudar Moçambique rumo à fome zero”, vangloriou-se Filipe Nyusi, Presidente da República, na última sexta-feira (16) durante sua visita no campo de produção da soja, pertencente a Abacar Morais, Pequeno Agricultor e Comerciante Emergente, na localidade de Nataleia no distrito de Malema, província de Nampula. (Constantino Henriques)

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