Traumas do passado perseguem crianças acolhidas em centros públicos e privados

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Nampula (IKWELI) – Brigas entre pais, pobreza e a vulnerabilidade fazem parte dos traumas que ainda atormentam crianças que vivem em centros de acolhimento na cidade e província de Nampula, no norte do país.

Recordar-se destas e outras situações faz com que os menores passem parte do seu tempo em lágrimas, pelas dolorosas lembranças.

Uns órfãos de pai e mãe, e outros nem por isso, o facto é que mesmo tendo os seus progenitores ainda vivos, foram susceptíveis ao abandono num mundo em que, actualmente, é bastante perigoso e agressivo. Essas crianças, para além de carregar consigo lembranças drásticas vividas no seio dos seus familiares a quem deveria prestar zelo e protecção, carregam na mente a incerteza de voltar a rever os seus familiares.

Lurdes Muva, menor de 10 anos de idade, foi acolhida no Infantário Provincial de Nampula, que fica localizado no posto administrativo autárquico de Muatala, concretamente na zona da Faina.

Aquele local, foi o único refúgio que a menor encontrou, depois de não resistir mais as violações físicas protagonizados pela madrasta.

Aos seis anos de idade a menor teve que passar a fazer trabalhos pesados em sua casa, para justificar as refeições.

Natural da província da Zambézia, esta menor conta que a madrasta a violentava frequentemente, perante a ausência da reação do pai para protegê-la.

A mesma fonte se recorda que a madrasta tentou queimá-la com água quente, mas, graças a Deus tal não sucedeu. “Eu fugi de casa porque a minha madrasta sempre me batia. Um dia aqueceu água, esperou eu sair e quis me queimar, por isso fugi e comecei a viver na rua, daí um tio me levou na esquadra”.

Actualmente, se sente mais segura, mas está convicta que o ambiente familiar lhe faz muita falta. “Fico triste porque estou há quatro anos aqui e os meus pais nunca procuraram saber de mim, parece que nem se lembram que tem uma filha”, mesmo assim, a esperança de um dia rever os pais prevalece.

Lurdes tem o sonho de advogada, actualmente frequenta a 6ª classe, e está decidida em prosseguir com os estudos para alcançar o seu sonho.

No bairro de Natikiri fica localizado o Centro de Acolhimento Betel, uma iniciativa privada, pertencente a uma congregação religiosa.

Jossias Patrício, de 15 anos de idade, é um dos menores acolhido naquele centro desde o ano de 2008, e actualmente frequenta a 8ª.

A história do Jossias é de bradar os céus, e segundo conta foi abandonado em uma lixeira pela própria progenitora, e o pior não aconteceu porque pessoas de boa-fé o acolheram.

Esta situação concorreu para que o menor se virasse quanto cedo para cobrir as suas necessidades, e aos 10 anos já tinha habilidades em carpintaria, o que lhe valeu a escolha de ser carpinteiro do centro que o acolhe.

 

“Não entendo porque fui abandonado”, procura o menor entender a barbaridade cometido contra si, prosseguindo que “cresci num ambiente diferente daquele que os meus colegas da escola vivem, e me questionou todos os dias onde e como ficarei quando tiver os meus 18 anos e não poder mais ser acolhido aqui [no centro Betel]”.

Jossias não tendo familiar consanguíneo, aderiu ao adagio popular, segundo o qual “amigo é família que nós escolhemos”, por isso é com os companheiros do centro de acolhimento Betel que o menor constitui uma família.

Para aliviar a pressão do pensamento para procurar entender as razões do seu abandonado, este nosso entrevistado refere que “toco e canto porque é uma maneira de lembrar de uma família que eu não conheci”.

No mosteiro Mater Dei, a equipa do Ikweli entrevistou o menor Sérgio Jorge, de 15 anos de idade, o qual foi parar naquele internato fugindo dos constantes desentendimentos entre os seus pais, precedido de uma passagem habitacional pelas ruas de Nampula.

“Meus pais sempre discutiam e era por minha culpa, diziam que estão juntos para eu crescer e se divorciarem e todos os dias os meus pais lutavam, por isso preferi fugir de casa e viver na rua”, conta Sérgio, com um olhar triste.

A cada entrevista que conduzíamos, chegavam, cada vez mais, histórias de cortar o coração. A menor Edna Mário, por exemplo, teve de recorrer a um centro de acolhimento porque a avó não dispunha de condições para lhe cobrir as despesas de forma condigna.

Apesar de tudo, esta nossa entrevista avança que “somos bem acolhidas aqui, mas ainda sinto saudades das minhas amigas e da minha avó”.

Enquanto isso, uma análise feita pela direcção do Infantário Provincial, segundo a respectiva directora, Adelina Pascoal, concluiu que “nós verificamos e concluímos que o divórcio e a falta de harmonia no lar associado a pobreza e vulnerabilidade tem sido uns dos motivos  de crianças estarem nos centros de acolhimento”, acrescentando que “é triste e lamentável ver pais e encarregados de educação que abandonam os seus filhos e trazem para os centros, porque embora tenham toda assistência necessária o centro não se compara com a sua verdadeira família, mesmo que esta seja extremamente necessitada”.

O quotidiano nos centros

 A rotina dos menores nos centros de acolhimento é, praticamente, a mesma. Seguindo um processo educacional rígido, preenchendo os dias com pequenas tarefas, efectuadas segundo a idade de cada criança, incluindo a frequência escolar.

“Tentamos incutir isso nas crianças. Os mais velhos  ajudam os mais novos, não deixamos as crianças  sem fazer as actividades de casa, porque um dia essas crianças serão grandes e estarão em suas próprias casas, e até lá devem saber de tudo, os mais pequenos fazem as tarefas pequenas como tirar o lixo, regar as plantas enquanto os grandinhos lavam, cozinham e limpam os quartos”, contam os gestores dos centros de acolhimento, prosseguindo que “nos tempos livres as crianças aprendem diversas actividades, como é o caso de corte e costura, serralharia, tocar instrumentos musicais, artesanato, jogos, incluído o ensinamento da palavra de Deus”.

Para os gestores destes centros, cuidar de crianças é um desafio enorme, tanto do ponto de vista psicológico, assim como espiritual, tal como disse a assistente social do centro de acolhimento Envajafrica, Artemisa Mocala.

“Trabalhar com criança não é tão fácil, recebemos crianças traumatizadas, experiências de crianças que teve antes de estarem ao nosso cuidado e é nossa responsabilidade curar a criança e levá-la em outras dimensões, visto que temos um padrão que desenhamos do tipo de criança que queremos formar. Estar bem alimentada, ser respeitosa, que saiba oferecer e que  saiba agradecer, recebemos crianças com comportamentos diferentes para retirar  a criança no estado actual que se encontra precisa de dedicação, paciência e acima de tudo muito amor”, reconhece Mocala, avançando que “para garantir as formações, técnicas, básicas, médias e até mesmo superiores depende muito das facilidades que temos naquele momento, garantir todas as refeições para as crianças, e os medicamentos. Tudo isso não tem sido fácil, principalmente para nós que não temos comparticipação do estado, porém não somos 100% autossustentável e isso afecta-nos muito”.

O papel do governo

A província de Nampula conta, actualmente, com 14 centros de acolhimentos de crianças vulneráveis, cuja maioria é gerida por missionárias de caridade.

O departamento da Criança e Acção Social, entidade governamental, tem o papel de fiscalizar os centros para garantir que as crianças tenham um acolhimento condigno, sem que os seus direitos sejam violados.

Devido a violação das normas elementares em instituições do género, pelo menos, 30 centros de acolhimentos de crianças órfãs e vulneráveis foram encerrados em vários distritos da província, sobretudo os localizados nas zonas costeiras.

O responsável deste departamento governamental, Egídio de Sousa, garantiu que, no mínimo, 50% dos trabalhadores em exercícios naqueles centros tem uma instrução sobre a área de acção.

“Nós, como instituição do estado que tutela os direitos das crianças, temos tido a missão de fazer o acompanhamento, em todos os centros de acolhimento para ver se as crianças estão a ter o apoio devido, e quando as condições desses centros não são apropriadas nós acabamos, a todo o custo, procurando os familiares e de acolhimento para poder reintegrar as  crianças, o centro de acolhimento deve ser a última alternada que uma criança deve ter”, disse a nossa fonte. (Elisabeth José *Fotos: Hermínio Raja)

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